terça-feira, 21 julho, 2026
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Cinema: A Odisseia, o épico encontra o espetáculo

Por Eliaquim Junior – Poema de 3 mil anos da Grécia Antiga sobre a jornada de um homem tentando voltar para casa ganha uma adaptação homérica pelas mãos de Christopher Nolan. A Odisseia (2026) é um épico com toda a força, pompa e alguns quilômetros de película IMAX que esse nome representa. É daquelas experiências que pedem uma tela grande e algumas horas da sua vida.

Matt Damon vive Odisseu que, após a Guerra de Troia, tenta voltar para casa, mas descobre que o caminho mais curto simplesmente não existe. No percurso, enfrenta criaturas mitológicas, perde a lucidez, o exército e ainda precisa lidar com a ira dos deuses. Enquanto isso, em Ítaca, sua esposa Penélope (Anne Hathaway), cercada de pretendentes mais interessados no trono do que nela, e seu filho Telêmaco (Tom Holland) seguem esperando o retorno do herói.

Tratando-se de um filme de Nolan, ele teve toda a liberdade e orçamento do mundo para sua “livre adaptação“. É uma obra grandiosa em todos os sentidos. O uso de locações reais e de câmeras IMAX transforma a jornada em algo ainda mais épico e imersivo. A narrativa não linear, o realismo do roteiro e a trilha sonora poderosa de Ludwig Göransson, que utiliza gongos de bronze e réplicas de instrumentos da Grécia Antiga, como o aulos, reforçam essa leitura contemporânea e ambiciosa.

Nolan quer entreter acima de tudo, ele não esconde isso, e por que esconderia? Em tempos em que muitos blockbusters parecem pedir desculpas por serem blockbusters, é bom ver alguém abraçando o espetáculo sem culpa. Mas ele também quer ensinar, ou pelo menos relembrar alguns valores. Os temas presentes no poema – amor, esperança, persistência, resiliência, luz e escuridão – continuam universais. A chamada Lei de Zeus, bastante citada no filme, resume bem essa ideia: tratar o outro como gostaríamos de ser tratados.

Ainda que A Odisseia tenha qualidades superlativas e indiscutíveis, algumas escolhas me incomodaram. E não, não foi o fato de o filme ser falado em inglês em vez de grego, nem Helena ser interpretada por uma atriz negra. O primeiro ponto é o elenco gigantesco e estrelado. Sim, aparentemente todo ator de Hollywood aceitou participar, mesmo correndo o risco de aparecer por cinco minutos ou menos. No mundo real, isso é um excelente argumento de marketing; dentro da narrativa, porém, a sucessão de rostos famosos às vezes tira um pouco da imersão.

Outro incômodo está na violência excessivamente sugerida durante a excelente sequência da Guerra de Troia. Justamente um dos conflitos mais famosos da literatura acaba parecendo mais comportado do que deveria, ou seja, a classificação indicativa claramente venceu a guerra aqui.

Por se tratar de uma história de viagem, em que o protagonista passa por diferentes lugares e encontra novas criaturas a cada parada, o filme adota uma estrutura episódica. Longe de ser um problema, isso faz com que a melhor aventura de Odisseu seja sempre a próxima.

O encontro com o ciclope Polifemo é um dos grandes momentos do filme. Já a passagem pela casa da feiticeira Circe resulta numa das sequências mais marcantes e visualmente impressionantes da carreira de Nolan, além de revelar uma habilidade surpreendente para o horror. Talvez seja o diretor nos avisando que um filme de terror pode estar nos seus planos.

Por fim, a maior qualidade da adaptação de Nolan em relação ao poema de Homero talvez esteja em aprofundar a experiência emocional e psicológica da jornada de Odisseu. Temas como tempo, memória, identidade e o desejo de voltar para casa dialogam naturalmente com o estilo do diretor e ganham ainda mais força nessa versão.

Equilibrando essa profundidade com o caráter épico da obra original, Nolan transforma um clássico da literatura em uma experiência cinematográfica tão grandiosa quanto humana, e prova que, três mil anos depois, ainda há espaço para contar essa história de um jeito novo.

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.

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