Por Fernando Simonetti – “As flores de plástico não morrem”. Os Titãs cantaram sobre um possível mundo artificial nesses versos. E muito antes disso já vivíamos na fronteira que divide a matéria da essência.
Ora somos levados pelo essencial e afastamos o periférico no afã e na curiosidade por tudo aquilo que nos é caro em vida. Em tantas outras oportunidades abandonamos essa mesma iniciativa e nos contentamos com o anteparo daquilo que nos parece bastar em formato simplificado.
Essa dualidade parece estar em grande desequilíbrio.
A matéria ganhou vestes de essência e nome de inteligência, e seu avanço chegou ao consultório antes de termos combinado qual seria seu lugar na sala. Ela já responde mensagens, sugere diagnósticos, monitora sono, modula intervenções e compete por nossa atenção emocional.
Um primeiro e inegável ponto: esse novo modelo funciona como modulador de acessos. E para melhor. Quem vive em cidades remotas, trabalha em jornadas noturnas ou complexas, carece de plano de saúde ou serviço público disponível pode encontrar em uma ferramenta como esta alguma escuta imediata vinda de algum lugar. E isso pode ser alguma coisa.
Um segundo e igualmente inegável ponto: esse novo modelo funciona como mecanismo excludente. Culturalmente, quando falha na captação de nuances de cada cultura. Afetivamente, quando parece não absorver boa parte dos tipos de sofrimento existentes ou a existir. Ou ainda uma exclusão diagnóstica, na medida em que patologiza (ou não), maximizando ou minimizando para deformar os balizadores manuais que já são espinhosos na essência.
Para a psicologia, em particular, a pior exclusão é a exclusão do vínculo terapêutico e esse parece ser o ponto mais preocupante na medida em que não imaginamos que esse conhecimento robótico mimetize minimamente o rol de traços humanos necessários para o estabelecimento de um vínculo. Dentro ou fora da terapia.
Então por enquanto o alerta me parece ser padrão: há que se dialogar com essas inteligências em posição consciente sobre suas possibilidades e, especialmente, seus limites.
Quando estabelecemos a correlação entre as IA’s e a psicoterapia, essa posição precisa ser muito bem definida. Porque a principal parte disso não parece funcionar sem algo do… humano.
Algo que formula laço, acolhe ou rejeita respeitosamente, confronta, sente e retorna. Direciona e orienta de humano para humano.
As flores de plástico não morrem porque são sempre de plástico.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.
