No mês de janeiro de 2016, recebi a visita do kaingang Marcio Kokoj, em meu apartamento, em Curitiba. Havia me enviado uma mensagem pela internet, informando sobre o interesse dele em manter contato com a antropóloga que fez pesquisas na terra ocupada pelos seus ancestrais, descendentes do cacique Antonio Joaquim Kretãn.
Sobre a história da Reserva Campina do Cacique Kretãn, hoje denominada Terra Indígena Mangueirinha, há laudos que elaborei na década de noventa, documentos compulsados na Biblioteca Pública do Paraná e depoimentos de líderes kaingang entrevistados durante minhas etapas de pesquisa de campo, desde 1967.
MUITA CURIOSIDADE
Marcio deixava transparecer uma grande curiosidade sobre os conhecimentos que adquiri sobre a terra que foi invadida por intrusos, apoiados pelos governos do estado do Paraná e Federal, madeireiros interessados em ocupar a parte mais valiosa do território tradicional indígena, a área do centro, com uma mata nativa de quinze mil pés de Araucária angustifólia, o pinheiro-do-paraná.
MEMÓRIA INDÍGENA
O nome kaingang Kretãn possui um forte significado na cultura e memória indígena, tem sido passado de pai para filho, de bisavô para neto. O chefe de unidades familiares, Antonio Joaquim Kretãn, deixou o aldeamento de Palmas, em 1819 e foi se instalar com o seu grupo, junto aos rios Covó (Iguaçu) e Chopim, criando as aldeias Campina e Palmeirinha, junto ao rio Iguaçu, no estado do Paraná.
BOM INFORMANTE
O kaingang Francisco Luiz dos Santos, avô materno de Marcio Kokoj foi o meu principal informante, narrou em 1995 que o termo Kretãn significa “aquele que olha por cima da montanha, enxerga mais alto”, dizia ser descendente do ancestral mais antigo que ocupou aquela terra. Ângelo de Souza Kretãn, filho de Balbina da Luz, também recebeu o nome Kretãn e se tornou respeitado como importante líder, participando do movimento indígena pela retirada da terra dos ocupantes não índios. Somente em 1985, os líderes indígenas da região Sul conseguiram se mobilizar e expulsar os invasores da Terra Mangueirinha.
EM MANGUERINHA
família kaingang
Há uma relação entre o nome Kretãn e os que ocuparam a chefia no Posto Indígena Mangueirinha. Antonio Joaquim Kretãn foi o cacique que primeiro se instalou e ocupou esta terra. José Capanema, seu filho, herdou a posição de cacique na TI Mangueirinha, Francisco Luiz dos Santos foi capitão dos índios e membro do Conselho Indígena. Ângelo Kretãn foi eleito cacique da TI Mangueirinha e vereador. Descendentes destes caciques também ocuparam posições de poder. Recentemente há disputas pelo poder. Os descendentes de Antonio Joaquim Kretãn e os descendentes de Luiz dos Santos disputam a condição de cacique, sendo que a patrilinearidade que era a regra principal foi substituída pela descendência materna, tendo em vista que Francisco Luiz dos Santos era descendente de Antonio Joaquim Kretãn, através de sua mãe.
MAPAS ANTIGOS
O meu visitante desejava obter cópias de mapas antigos dessa terra, que pertencem aos arquivos da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, do Instituto Ambiental do Paraná, IAP. Sabia que em 1903 foi assinado o Decreto nº 03 que reservava as terras dos rios Iguaçu, Chopim e Palmeirinha para “as cabildas” do cacique Kretãn. Percebi que a preocupação pelas terras da Reserva do antigo território Kaingang, na região, era o objetivo da visita do kaingang Kokoj.
Na entrevista/visita, o pesquisador era o índio. A antropóloga deveria dar informações para o andamento do projeto de Marcio e de seus companheiros que participam do atual movimento indígena pela recuperação de terras indígenas.
CAPITÃO DOS ÍNDIOS
O visitante é filho de Elvira Luiz dos Santos e neto de Francisco Luiz dos Santos. A sua paternidade não foi revelada, apenas narrou que sua mãe é a viúva de Ângelo Kretãn. O seu avô, Francisco Luiz foi capitão dos índios. É o ancestral que menciona com orgulho, porque se dizia neto de Joaquim Kretãn, também devido à preocupação de Francisco Luiz em defender os direitos dos índios. Participou, a meu convite, da 1ª Reunião sobre O Direito dos Índios, realizada em Florianópolis. O evento foi coordenado pelo antropólogo, Sílvio Coelho dos Santos.
NOME É “BEIJA FLOR”
Marcio Kokoj disse que o seu nome em Kaingang significa beija flor. Na sua fala, explicou que pesquisa os direitos das etnias indígenas e que eles devem participar de encontros, reuniões, assembleias que discutem os direitos indígenas. Reunir documentos e provas que tratem sobre os fatos é o seu propósito.
É BILÍNGUE
As transformações que vêm ocorrendo na sociedade brasileira sobre as relações de contato entre indígenas e não indígenas têm gerado mudanças, apesar dos conflitos sociais. Adquiriram um saber de como devem agir, participar de movimentos indígenas e procuram se tornar visíveis, ora recorrendo a Fundação Nacional do Índio, às Procuradorias do Ministério Público Federal e à Justiça Federal, ou entram em contato com os especialistas, antropólogos que estudam as etnias indígenas.
Marcio Kokoj pertence a uma cultura distinta, a uma etnia indígena, a Kaingang do Grupo Jê, que fala o kaingang e o português.
MUITO BEM INFORMADO
Fez vários cursos em escolas públicas, domina bem o português. Nas Universidades situadas no estado do Paraná há cotas para os indígenas realizarem cursos superiores. Marcio Kokoj procura se informar sobre as leis da sociedade nacional e os relatos que tratam sobre as extensões e limites das terras indígenas no País.
Na década de sessenta, quando iniciei meus estudos e pesquisas nas terras ocupadas pelos kaingang, os caciques procuravam as administrações do Serviço de Proteção aos Índios, também viajavam até a Cidade do Rio de Janeiro, para solicitar apoio dos governantes, que tinham poder para decidir sobre o andamento dos processos. Solicitavam providências para serem expulsos os invasores das suas terras.
PROCURA A ANTROPÓLOGA
Nos dias atuais, além dos órgãos públicos, o Kaingang Marcio procura uma produtora do saber não índio, uma antropóloga que produziu laudos e investigou a antiguidade da Terra Indígena Mangueirinha.
Os antropólogos precisavam obter uma licença para fazer pesquisas sobre as etnias indígenas. Na década de noventa, quando fui nomeada perita, recebi a incumbência de realizar perícia na TI Mangueirinha, notadamente sobre a parte do centro, apresentar provas sobre a questão da terra em litígio e encaminhar Laudo antropológico, para a Justiça Federal em Curitiba.
FATO NOVO
Um líder indígena visitar a antropóloga que realizou o Laudo sobre a antiguidade da terra, reuniu documentos e encaminhou as entrevistas realizadas entre os indígenas e os não índios, foi um fato novo.
Entrevistei todas as famílias que ocupavam a parte do centro e sofreram transferência forçada, para deixar a área, e foram instaladas nas aldeias Campina, Paiol Queimado e Palmeirinha.
A Antropologia trabalha com os conceitos de comunidade de comunicação e de argumentação (CARDOSO de OLIVEIRA,1990, apud APEL). O acontecimento, a visita do Kaingang Marcio Kokoj, para me comunicar a sua decisão de investigar a antiguidade das terras indígenas, seus direitos históricos e, a argumentação que ocorreu entre o seu objetivo e o conhecimento da antropóloga sobre o assunto, implica que houve uma relação dialógica, ou seja, ocorreu o diálogo que teve um significado. Escolheu a Antropologia como fonte para a sua argumentação. Revelou que há respeito pelo saber produzido e vontade política de dar continuidade a investigação.
MOSTRAR AS DIFERENÇAS
A minha preocupação tem sido estudar e interpretar as sociedades e culturas distintas da sociedade nacional, e informar aos leitores sobre as especificidades, as características das etnias indígenas, as suas formas de organização econômica, social e política, as crenças de cada povo indígena.
Os impactos que os indígenas têm sofrido, devido aos projetos de desenvolvimento da sociedade nacional, como a construção de usinas hidrelétricas, junto aos rios em que vivem e que ocasionam perda de terras, também são analisados e interpretados pela Antropologia.
PROJETOS HIDRELÉTRICOS
Os povos indígenas têm reagido e se mobilizado para decidir sobre a viabilidade ou não dos projetos. Nos rios Iguaçu, Paraná e Tibagi, no Paraná, os Kaingang e os Guarani foram afetados por projetos hidrelétricos e assentados em outros locais. Na Terra Indígena Apucarana, PR, os Kaingang se manifestaram contra o Projeto São Jerônimo, em 1996. Um Kaingang, Lourival Oliveira, líder dos Kaingang, que servia de guia, durante uma visita que realizei em 1995, a sua aldeia, na beira do rio Apucarana Grande, apontou para o imenso paredão de pedras e a uma armadilha de pesca, o pari, que colocam na beira do rio, falou:
“Se a usina for construída no rio Tibagi, junto a minha aldeia, modificando a paisagem, e o rio Tibagi se transformar de rio nervoso, em um grande lago, ficará uma grande saudade do rio e da mata e de tudo que o índio gosta” (OLIVEIRA, L.).
RECUPERAR TERRAS
O que se depreende das argumentações dos líderes indígenas, é que estão acompanhando o desenrolar dos fatos, as mudanças que ocorrem nas relações entre índios e não índios no Brasil. Objetivam recuperar terras e impedir que projetos econômicos prejudiquem as suas maneiras de viver, preservar as suas culturas, o meio ambiente em que vivem, apoiados pela Constituição Federal, 1988 (capítulo VIII, Dos Índios, art. º 231).
(*) CECÍLIA HELM é membro da Academia Paranaense de Letras e da Associação Brasileira de Antropologia, ABA; professora aposentada da UFPR.