sábado, 27 junho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: QUER SABER O QUANTO O BRASIL É DESONESTO?

Marcus Vinicius Gomes
Marcus Vinicius Gomes

Marcus Vinicius Gomes (*)

O Brasil não vive só de militantes políticos que adotam bandidos de estimação. Nem de cronistas esportivos que, desprezando o distanciamento necessário em um jogo de futebol, ofendem um presidente de clube chamando-o de Rainha da Inglaterra, o que certamente indica que o patrocinador é o Rei, e saem defendendo o indefensável: o de que um pênalti reconsiderado sete minutos depois e com interferência de um quarto árbitro configurou-se decisão acertada. Seria apenas um argumento desonesto, não fosse da prática do cronista atribuir a outrem a responsabilidade, mesmo em tom de brincadeira. Ou assim é ou ele se chama Lilian Wite Fibe. A conferir no “Jornal da Globo” de priscas eras.

ETERNO RETORNO

Mas já que o tema é esporte, tratemos de um esporte tradicional, que reúne atletas profissionais e amadores, que exige muito fôlego, que tem tradição internacional, que coroa o desafio de um ano que finda, e de outro que recomeça, como a brindar o eterno retorno. Refiro-me a São Silvestre, a mais tradicional prova pedestre do mundo. São 30 mil corredores de 40 países do mundo, correndo 15 quilômetros no que antes era a noite do dia 31 de dezembro, mas agora é a tarde. Disputada palmo a palmo, esbaforida, no asfalto quente do novo e do velho centro paulistano.

A SORTE DOS PICARETAS

Houve 30 mil inscritos na última edição da prova, porque este é o número limite de inscrições – o circuito não comporta mais do que isso –, mas 34 mil correram. Por quê? Porque o brasileiro é tão desonesto quanto o argumento citado no primeiro parágrafo. Clona-se números de atletas com ou sem consentimento destes, homens correm com o chip de mulheres para que elas possam posar nas redes sociais com um tempo menor, jovens inscrevem-se como idosos para garantir o desconto e, para coroar a hipocrisia, que alia-se à má-fé, corredores cortam caminho para terminar a prova entre a elite, assumindo a condição de fraudadores embandeirados, prontos a subir ao pódio se a sorte dos picaretas assim quiser.

AJUDINHA DO METRÔ

Em caso recente, um corredor de 55 anos alcançou a linha de chegada em 22º lugar na classificação geral, batendo quenianos de prestígio. Descobriu-se depois que ele havia pegado um atalho, embarcado em um trem de metrô e retornado à prova nos quilômetros finais, talvez nos metros finais.

CÚMULO-NIMBO DO FRAUDADOR

Esqueçam, portanto, aquela dose de honestidade cultivada há tanto tempo e com tanto esforço. O Brasil continua sendo regido pela Lei de Gerson, este artigo pétreo da Constituição Brasileira de fato, não de direito.

Saber que um corredor vindo de não sei onde (ok, inclua os estrangeiros também) está disposto a burlar os demais participantes para estampar nas redes sociais um resultado que não obteve é o cúmulo-nimbo da desonestidade. Tão arraigada em nosso país que chega a ser constrangedora. A São Silvestre, quase centenária, foi criada como uma celebração ao esporte amador e só ganhou perfil profissional nas últimas décadas. E continua assim. Dos 30 mil inscritos, apenas 1 mil ou pouco mais disputam a prova para vencer. Os outros cumprem a promessa (a Deus, a Odin, a Zeus, ao babalorixá) de largar e chegar. Que se burle até uma corrida de rua para fazer exibir uma selfie mentirosa, é o pior retrato do país que se quer democrático e clama por honestidade. Convenhamos: pegar um atalho para chegar a esses objetivos é tudo de pior que o brasileiro poderia almejar.

(*) MARCUS VINICIUS GOMES é jornalista, colaborador desta coluna.

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