quarta-feira, 13 maio, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: PARA STEPHEN HAWKING, MORTO AOS 76, O ESPAÇO SERÁ SEMPRE A FRONTEIRA FINAL

Marcus Vinicius Gomes (*)

Hawking no dia do seu segundo casamento. Elaine Mason era também sua enfermeira: torturado e escaldado ao sol.
Hawking no dia do seu segundo casamento. Elaine Mason era também sua enfermeira: torturado e escaldado ao sol.

O físico inglês Stephen Hawking morreu nesta quarta-feira (14), aos 76 anos. Uma idade que ele diria insignificante no espaço-tempo ou desprezível na imensa cronologia do universo. De qualquer maneira, ele nasceu em 9 de fevereiro de 1942. No mesmo dia, há três séculos, Galileu Galilei também viria ao mundo. É uma coincidência temporal que Hawking, se lembrando da data, também julgaria insignificante.

BURACOS NEGROS

Em 2015, o físico surpreendeu a comunidade científica ao descartar, em artigo, a teoria de que buracos negros são sumidouros que fazem desaparecer tudo à sua volta. Preferiu compará-los às previsões meteorológicas na Terra, caóticas e nem sempre confiáveis.

VOZ DE DARTH VADER

Cientista de maior prestígio em todo o planeta, ainda que esnobado pelos acadêmicos do Nobel, Hawking era mais ativo do que nunca, mesmo padecendo de uma doença incurável que lhe paralisou todos os músculos do corpo. Em 1988, quando lançou “Uma Breve História do Tempo” – um livro que vendeu mais de 10 milhões de exemplares em todo o mundo –, ele articulava apenas três dedos de uma das mãos. Nos últimos anos, com o agravamento da esclerose lateral amiotrófica (ELA), movimentava apenas o queixo e, ainda assim, continuava viajando e proferindo conferências nos cinco continentes, a bordo de uma cadeira de rodas equipada com computadores e um sintetizador que permitia que ele falasse eletronicamente. A voz era robótica, mas tornou-se sua marca registrada e dela ele não abriu mão. Darth Vader dispensaria o registro vocal inconfundível de James Earl Jones?

SUICÍDIO ASSISTIDO

Hawking dava sinais de cansaço. Recentemente defendeu o suicídio assistido, um recurso que ele considerava inadmissível, e escreveu sua autobiografia. São apenas 144 páginas, mas considere o esforço de quem precisava de um minuto para escrever cada palavra. Para muitos, era difícil admitir que o cientista que ultrapassou barreiras infinitas, em que pese sua doença tristemente perversa, estava padecendo de sintomas de autocomiseração.

CINEBIOGRAFIA

Quem assistir o chororô de sua cinebiografia – como também a de Alan Turing – vai comprovar que a teimosia de Hawking em viver ultrapassou limites. Com a doença diagnosticada aos 21 anos e a prescrição da morte inarredável, Hawking poderia entregar-se ao seu destino. Que nada.

Seguiu sua carreira de pesquisador e teórico, indiferente aos sinais que seu corpo pudesse lhe enviar. Na falta dos movimentos, usou o cérebro, ironicamente o único órgão que a doença não pôde alcançar.

A VIDA É CURTA

Hawking não foi um aluno brilhante. Nem mesmo na universidade. Para conseguir o mestrado, em Cambridge, na Inglaterra, estudava apenas uma hora por dia. O resto do tempo era dedicado às festas acadêmicas, que a vida é curta e isso é muito bom.

COMPARÁVEL A EINSTEIN

Quando conheceu Jane Wilde, amiga de uma de suas irmãs, ele já havia sido desenganado. Teria mais três anos, segundo o médico que o examinara. O fato de dar as costas para o que seria seu fim foi decisivo. Sim, ele posou segurando uma bengala na foto de casamento.

Mas, contraditoriamente, seguiu vivo. Em tempo de ter três filhos e de consolidar sua posição de físico teórico com status só comparável a Einstein.

A MULHER E O AMANTE

O amargo de sua biografia não está no histórico de sua doença, tampouco em sua carreira, por si só brilhante, mas em sua vida pessoal. Preso a uma cadeira de rodas desde 1970, Hawking assistiu, ainda que contrariado, sua mulher, Jane, acomodar o amante, Jonathan Jones, em sua casa, logo que a família mudou-se para os EUA. Jones era um músico, tocador de órgão na igreja que ela frequentava. Hawking achava que ia morrer logo, e queria alguém que pudesse sustentar os filhos. Pelo menos foi o que alegou. O ano era 1979.

CORTES E HEMATOMAS

Em 1995, o cientista pediu o divórcio e mudou-se para outro apartamento, em Londres, no qual morava com sua enfermeira, Elaine Mason. Eles se casaram, mas a união teve sérias consequências para Hawking. Em 2000, o físico foi parar no hospital, com cortes e hematomas. Três anos depois, Lucy, uma das filhas de Hawking, acusou Elaine de agredir o pai. Em 2007, uma enfermeira disse que a esposa de Hawking o humilhava, batendo em seus braços, obrigando-o a tomar água quente do banho e deixando-o sob o sol escaldante por longos períodos. Hawking nunca comentou as denúncias, mas no mesmo ano se separou da mulher e foi morar numa casa, em Cambridge, onde era assistido por uma governanta.

PERSONAGEM DE ‘OS SIMPSONS’

Com uma doença tão corrosiva a comprometer-lhe os músculos de todo o corpo, seria perfeitamente compreensível se Stephen Hawking adotasse uma vida reclusa. Mas ele não parecia interessado. Sua presença era constante em documentários científicos, em palestras, teleconferências, encontros com governantes e em desenhos, séries de TV e gravações musicais. Ele fez participações em Os Simpsons, Padrinhos Mágicos, O Laboratório de Dexter e Family Guy; integrou uma mesa redonda holográfica em Star Trek: The Next Generation, onde jogava cartas com Newton e Einstein; foi a voz digital da faixa “Keep Talk” do disco The Division Bell, do Pink Floyd, além de conversar com o personagem Sheldon Cooper (Jim Parsons) em um episódio de Big Bang Theory. É hilário ver Cooper cometer um erro básico de aritmética e desmaiar na frente de Hawking.

A FRONTEIRA FINAL

Quer mais? Depois da segunda separação, o cientista ficou assanhadinho.

É fato comprovado que visitou ao menos uma boate pornô ao longo dos últimos anos. Fez mais: embarcou num voo de uma empresa americana que simula o efeito de ausência de gravidade. Na foto, Hawking aparece livre, leve e solto. Recentemente, ele havia recebido o convite de uma companhia particular para viajar a bordo de uma nave comercial na órbita da Terra. O espaço, para Hawking, era mesmo a fronteira final.

(*) MARCUS VINICIUS GOMES é jornalista, colaborador deste espaço.

Stephen Hawking posa com uma bengala ao lado de Jane, sua primeira mulher, em 1967: a doença começava a agir.
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Hawking, ainda garoto, em sua casa em Londres: mau aluno como Einstein.
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O físico inglês experimenta a gravidade zero: livre, leve e solto.
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Em Cambridge, durante o mestrado. Uma hora de estudo diário para depois cair na farra.
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