
Antenor Demeterco Junior (*)
O Brasil fez bonito universalmente com os Jogos Olímpicos, mas com absoluta desatenção à crise econômica local e nacional.
O prefeito anfitrião, Eduardo Paz, não conseguiu faturar politicamente seu empenho no esporte, ante a derrota do companheiro aspirante a seu cargo.
As Olimpíadas de 1936, realizadas na Berlim nazista, envolveram o Brasil de um modo nada olímpico.
Hitler, para aparentar moderação, frouxou momentaneamente seu radicalismo antissemita, e excluiu da repressão de suas leis os homossexuais estrangeiros.
O negro americano Jesse Owens (quatro medalhas de ouro) substituiu, juntamente com outro membro da delegação americana, dois atletas judeus.
Tudo para agradar vergonhosamente o ditador.
AGENTES SECRETOS
Hitler e seu governo propuseram ao colega brasileiro Getúlio Vargas incluir na delegação brasileira agentes secretos disfarçados de atletas, para serem treinados no combate aos comunistas.
O almirante Canaris, dos serviços de inteligência alemã, facilitou ao embaixador brasileiro, José Joaquim Muniz de Aragão, a visita às instalações da Gestapo, e ofereceu serviços de decifração de cifras em código russo e em outros idiomas, além de informações sobre movimentação de emissários de Moscou para o Brasil e América do Sul.
EMBAIXADOR COM HITLER
O embaixador foi cordialmente recebido por Adolf Hitler.
O que ambos não sabiam, embaixador e ditador, era que o almirante Canaris conspirava contra o nazismo, e fornecia informações aos ingleses.
O chefe do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, Miranda Correia, visitou instalações secretas alemãs.
Um diplomata brasileiro participou de conferência secreta anticomunista em Munique, para a qual os participantes foram levados em ônibus de transporte para atletas olímpicos (in “Dossiê Brasil – As histórias por trás da História recente do país”, de Geneton Moraes Neto).
QUARTELADA
O que chamou atenção dos alemães foi a sanguinolenta quartelada comunista de 1935, denunciada antecipadamente ao governo de Vargas pelo espião Johnny De Graaf, treinado pelos russos, mas a serviço dos ingleses (in “Johnny – A vida do espião que delatou a rebelião comunista de 1935”, de R.S. Rose e Gordon Scott).
É interessante notar que hoje nosso simpático ditador é bem lembrado pela esquerda política, golpeada, em seu tempo sombrio, pelos seus punhos de aço.
Tudo muda na política, mas não na História.
(*) ANTENOR DEMETERCO JUNIOR, desembargador emérito, TJ-PR, especialista em história do século 20.
