quinta-feira, 2 julho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: O caso de Asia Bibi, cristã que ficou nove anos presa no Paquistão, por falsa acusação de blasfêmia

Aasya Noreen, a cristã condenada que ficou conhecida como Asia Bibi
Aasya Noreen, a cristã condenada que ficou conhecida como Asia Bibi

Szyja Ber Lorber (*) 

No dia 27/11 a coluna de Aroldo Murá G. Haygert publicou em sua coluna a nota com o título “Cresce a restrição à liberdade de crença no mundo”, informando que 61% da população mundial vive em países onde a liberdade religiosa não é respeitada, o que significa que 6 em cada 10 pessoas no mundo não podem expressar sua fé com total liberdade. Foi uma das principais conclusões do Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo de 2018 apresentado a nível internacional pela Fundação da Santa Sé Ajuda para a Igreja que sofre.

De 196 países em todo o mundo, o estudo analisa o grau de cumprimento do direito de liberdade religiosa contido no artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que este ano celebra seu 70º aniversário, e o faz para todos os credos. Informa ainda que violações importantes da liberdade religiosa em 38 países, discriminação por causa da fé em 17, e em 21 deles, há perseguições, com casos até de morte, por crenças religiosas.

ISRAEL, A EXCEÇÃO

Mas há também o fato de que os cristãos são hoje em dia os mais perseguidos no mundo, em especial no Extremo Oriente, na África e no Oriente Médio, onde certos segmentos mais fanatizados do islamismo usam de todos os meios, até a violência para tentar convertê-los. Nesse cenário, Israel tem sido um oásis, único país onde os cristãos vivem em paz.

No Paquistão, um dos casos mais notáveis é o Aasia Noreen, agora conhecida como Asia Bibi, que após 9 anos de prisão foi libertada no dia 8 de novembro, mas ainda corre risco de vida, assim como sua família, pois ainda se encontra naquele país. Cristã, essa mulher foi injustamente acusada de ter insultado o profeta Maomé. O caso foi reaberto em outubro por pressão internacional e o governo entrou em acordo com os radicais islâmicos para não haver desdobramentos. Porém, após a libertação dela, eles criaram sérios tumultos pelo país e chegaram a ameaçar de morte os juízes da corte que a julgaram inocente depois de quase uma década!

CONDENADA Á MORTE

Asia Bibi, de 47 anos e mãe de 5 filhos, foi condenada à morte em 2010 por uma falsa acusação de blasfêmia e no dia 31 de outubro passado, foi absolvida pelo Supremo Tribunal do Paquistão depois de 9 anos de prisão.

Libertada, foi transferida, por motivos de segurança, para uma localidade secreta, segundo informou seu advogado Saif ul-Mulook.

“Ela foi libertada – disse o advogado – e soube que a levaram para um avião, mas ninguém sabe seu destino”. A ordem de libertação chegou no dia 7/11 ao Cárcere de Multan, no Punjab, onde Bibi ficou presa. Seu advogado, que recebeu numerosas ameaças, fez as declarações fora do Paquistão, já que ele também estava em perigo.

O marido de Asia Bibi, Ashiq Masih, pediu asilo para sua família, por causa do perigo em permanecer no Paquistão. A Grã-Bretanha recusou alegando que há muitos muçulmanos que colocariam em risco a família de Bibi. Outros pedidos efetuados e que aguardam resposta foram feitos à Itália, Canadá e Estados Unidos.

HISTÓRIA DO TORMENTO

O advogado, Saif-ul-Malook, disse à Deutsche Welle que entrou com recurso na Suprema Corte do Paquistão em 2014, mas o julgamento foi sendo adiado por causa dos protestos. Um tribunal de apelações naquele mesmo ano usou o caso como justificativa para pedir ao governo do Paquistão que mude as regras do tribunal de modo a tornar as futuras condenações por blasfêmia mais difíceis de serem obtidas.

Tudo começou em 14 de junho de 2009, conta em artigo Raymond Ibrahim, distinguido membro sênior do Instituto Gatestone, Fellow do Middle East Forum, que escreveu o livro Sword and Scimitar, Fourteen Centuries of War between Islam and the West (em tradução livre “Espada e Cimitarra, Catorze Séculos de Guerra entre o Islã e o Ocidente”).

O título do artigo é “Paquistão: morte ou vida para cristã ‘blasfema’?

E aqui vai resumido. Aasya Noreen – mais conhecida como “Asia Bibi” – foi acusada de violar a notória lei de blasfêmia do Paquistão há quase uma década. Segundo sua própria autobiografia.

A AUTOBIOGRAFIA

De acordo com sua autobiografia, “Blasphemy – A Memoir: Sentenced to Death Over a Cup of Water (“Blasfêmia – Uma memória: Condenada à Morte por uma Caneca de Água”, também em livre tradução), naquele dia (14/6/2009), Bibi trabalhava colhendo frutas em um campo. Embora ela estivesse acostumada a ser recriminada pelos outros coletores por causa de sua fé cristã, as coisas complicaram quando, naquele dia de verão sufocante, ela bebeu água de um poço comum.

“Não beba essa água, é haram [proibido]!” gritou uma mulher por perto.

Ela então se virou para as outras mulheres que trabalhavam no campo e disse: “Escutem, todos vocês, essa cristã sujou a água do poço bebendo da nossa caneca e mergulhando-a de volta várias vezes. Agora a água está suja e nós não podemos beber! Por causa dela!” (Tais crenças não são incomuns no mundo muçulmano. Em um vídeo, na internet, um clérigo egípcio expressa seu grande desgosto pelos cristãos, e como ele não podia beber de um copo que foi meramente tocado por um cristão.)

A PRESSÃO GERAL

A discussão se espalhou e as mulheres começaram a pedir a Bibi que se convertesse ao islamismo para se salvar. “O que seu profeta Maomé fez para salvar a humanidade?”, perguntou Asia Bibi.

Um relatório resume o que aconteceu em seguida:

Depois disso, Bibi disse que as mulheres começaram a gritar, cuspindo nela e agredindo-a fisicamente. Ela correu para casa assustada. Menos de uma semana depois, ela foi buscar frutas em outro campo quando foi confrontada por uma multidão que se revoltava, liderada pela mulher que inicialmente gritara com ela.

ESPANCAMENTO

A multidão a cercou, espancou-a e levou-a para a aldeia, gritando:

“Morte! Morte aos cristãos!”

O imã da aldeia falou: “Disseram-me que você insultou o nosso Profeta.

Você sabe o que acontece com qualquer um que ataca o santo Profeta Maomé. Você pode se redimir apenas por conversão ou morte.”

Ela protestou: “Eu não fiz nada. Por favor, eu imploro, não fiz nada de errado.”

DIRETO À PRISÃO

Bibi foi levada para a delegacia da aldeia, coberta de sangue, onde a polícia a interrogou e juntou um relatório. Ela foi então colocada em uma van e levada diretamente para a prisão.

E ficou naquela cela desde então.

Apesar dos testemunhos inconsistentes, um tribunal de Punjab sentenciou-a à morte por enforcamento no final de 2010. Desde então, “Eu fui trancada, algemada e acorrentada, banida do mundo e esperando para morrer”, disse Bibi em seu depoimento de memórias contrabandeadas para fora do país.

QUÊ FUTURO TEREI?

“Não sei quanto tempo tenho de vida. Toda vez que a porta da minha cela abre meu coração bate mais rápido. Minha vida está nas mãos de Deus e eu não sei o que vai acontecer comigo. É brutal, existência cruel”.

Houve também o sofrimento do marido, Ashiq Masih, e dos cinco filhos:

“Eu realmente a amo e sinto falta da sua presença. Sinto falta do sorriso dela; sinto falta de tudo sobre ela. Ela é minha alma gêmea. Eu não posso vê-la na prisão. Isso quebra meu coração. A vida tem sido inexistente sem ela … Meus filhos choram por sua mãe, estão quebrados, mas eu tento dar-lhes esperança onde eu puder “.

MOSTRE-ME NOVIDADE

Tudo isso por fazer uma pergunta retórica – “O que seu profeta Maomé fez para salvar a humanidade?” – variantes das quais os não-muçulmanos pedem há séculos. No final da década de 1390, por exemplo, o Imperador Romano Manuel II Paleólogo respondeu a um grupo de estudiosos muçulmanos empenhados em convertê-lo ao Islã dizendo:

“Mostre-me exatamente o que Maomé trouxe de novo, e lá você encontrará coisas apenas más e inumanas, como a ordem de espalhar pela espada a fé que ele pregou.”

Mais de 600 anos depois, em 2006, quando o papa Bento 16 citou esta afirmação, tumultos anticristãos eclodiram em todo o mundo muçulmano, igrejas foram queimadas e uma freira italiana que dedicou sua vida a servir os doentes e necessitados da Somália foi assassinada.

Protesto de radicais islâmicos contra a libertação de Asia Bibi
Protesto de radicais islâmicos contra a libertação de Asia Bibi

“JUSTIÇA DE VIGILÂNCIA”

No Paquistão, no entanto, tal “justiça de vigilância” é apenas uma maneira de vingar a honra de Maomé. De acordo com a Seção 295-C do Código Penal do Paquistão: “Quem quer que por palavras, faladas ou escritas, ou por representação visível ou por qualquer imputação, insinuação, direta ou indiretamente, contamine o sagrado nome do Sagrado Profeta Maomé (que a paz esteja com ele) será punido com a morte, ou prisão por toda a vida, e também será sujeito a multa.”

Porque os não-muçulmanos – especialmente os cristãos, que por definição são conhecidos por rejeitar a profecia de Maomé – são mais propensos a serem suspeitos de blasfêmia, e porque a palavra de um cristão não é válida contra a palavra de uma acusação muçulmana de blasfêmia por muçulmanos. contra os cristãos são comuns e rotineiramente resultam no aprisionamento, espancamento e até assassinato de cristãos (como quando 1.200 muçulmanos queimaram deliberadamente um jovem casal cristão até a morte em 2014 por supostamente insultar o Islã).

ACUSADOS SEMANAIS

No Paquistão não passa uma semana sem que se acuse alguns cristãos de insultar Maomé, muitas vezes apenas por questões pessoais ou para tomar suas terras. E estes fatos são seguidos por tumultos habituais, casas e igrejas queimadas, espancamentos, expulsões e, finalmente, prisão e execução do suposto “blasfemo”.

Embora o caso de Bibi tenha provocado indignação em toda a comunidade internacional, sempre que há alguma conversa séria sobre a possibilidade de Bibi ser poupada, protestos e tumultos geralmente acontecem. Como o marido de Bibi explicou certa vez: “Os clérigos a querem morta. Eles anunciaram um prêmio [monetário] para quem matar a Asia. Eles até declararam que se o tribunal a absolver, eles garantirão que a sentença de morte permaneça”.

Autoridades simpáticas ou aliadas a tais “blasfemos” também são alvos.

Dois dos proeminentes defensores de Asia Bibi, por exemplo, o governador Salmaan Taseer e o ministro de Assuntos Minoritários Shabaz Bhatti, foram ambos assassinados em 2011. Taseer foi baleado 27 vezes por Mumtaz Qadri, seu próprio guarda-costas. Depois do assassinato, mais de 500 clérigos muçulmanos expressaram apoio ao criminoso Qadri e o cobriram com pétalas de rosa.

ESPERANDO MORRER

É por isso que as autoridades paquistanesas adiavam a emissão de um veredicto final – dar a Bibi tempo para morrer “naturalmente” na prisão, como outros cristãos, sob circunstâncias “misteriosas”. Em vez de apaziguar o mundo, mas enfurecer os islâmicos liberando-a ou aplacar os islamistas, mas horrorizando o mundo ao executá-la, o sistema judicial paquistanês abandonou Bibi em uma cela de prisão por quase uma década, onde condições miseráveis, maus-tratos graves, doenças desacompanhadas, abusos psicológicos e espancamentos deveriam tê-la matado, como fizeram muitos outros antes dela.

MULHER FORTE

Para a irritação deles, no entanto, “ela é física, psicológica e espiritualmente forte”, anunciou o marido de Bibi. “Tendo uma fé muito forte, ela está pronta e disposta a morrer por Cristo. Ela nunca se converterá ao Islã.”

O texto original e completo de Raymond Ibrahim pode ser inglês em: https://www.meforum.org/articles/2018/pakistan-death-or-life-for-christian-blasphemer.

(*) SZYJA BER LORBER, jornalista curitibano, consolidou a história de vida e sofrimentos dessa cristã, Ásia, partir de amplo noticiário de agências internacionais.

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