
Por Eloi Zanetti (*)
Em 2008, quando da sua primeira viagem de volta do mundo de carro, o casal de aventureiros Roy Rudnick e Michelle Weiss ao passar na cidade de Quetta no Paquistão, quase na fronteira com o Afeganistão, certa noite, em um acampamento coletivo, ouviram um estrondo no ar causado pela passagem em baixa altitude de dois aviões. – “O que foi isso?” Perguntou Roy, assustado, aos presentes.
“Guerra! São aviões militares indo bombardear o Afeganistão.” “Aquele acontecimento despertou em nós uma curiosidade imensa em ver como era a vida no Afeganistão; como vivem seus habitantes em meio a tanta instabilidade. Ver de perto o dia a dia das pessoas, onde e como moram, do que vivem e, especialmente, como é a vida das crianças em meio a tanto barulho, perigos e ameaças”.
Seis anos mais tarde, ao planejar a segunda viagem, desta vez aos três pontos da Latitude 70N – acima do Círculo Polar Ártico: Alaska, Sibéria e Noruega, recolhendo informações sobre o novo trajeto que ao final completou 141 mil quilômetros, 1.197 dias e 51 países; descobriram que um pedaço do Afeganistão poderia ser visitado pois não estava sobre a influência do Talibã.

Era um desvio arriscado, pois segundo uma autoridade afegã consultada na época havia mais de 100 estrangeiros sequestrados no país. Um pedaço de paz em meio a uma guerra cruel. O local escolhido para a visita foi um braço de terra situado no nordeste do país, que se estende por 350 quilômetros até a China, tendo ao norte o Tadjiquistão e ao sul o Paquistão. Um lugar remoto, desértico, frio e de difícil acesso.
O plano era dirigir pela Rodovia Pamir no Tadjiquistão, descer pelo vale Wakhan até chegar em Khorog onde solicitariam o visto de entrada. Ao passar pela fronteira o agente da aduana não sabia como proceder, pois durante os muitos anos que trabalhou ali jamais havia visto um passaporte brasileiro. Um povo carismático, bondoso e amigável. Depois de andar por mais de 200 quilômetros de carro dentro do Afeganistão a estrada terminou, daí pra frente foram mais 180 quilômetros a pé cruzando desertos e altas montanhas.

No caminho encontraram, dentre os mais de cem países que já conheceram, um dos povos mais amigáveis do mundo. Por onde passavam recebiam cumprimentos, sorrisos e convites para almoço, chá ou hospedagem. Nove dias a pé rumo ao povo Quirguiz. O casal queria conhecer o Vale de Sarhad, onde vive o povo quirguiz, um dos mais isolados do planeta. Para se ter uma ideia, em todo o vale só existem quatro veículos, tudo é feito a lombo de burros e iaques.
Alugaram dois burricos que foram conduzidos por um nativo que só falava o idioma local, mas que exagerava na cortesia e no companheirismo. No caminho, sorrisos, cumprimentos e pedidos de remédios – o povo é muito carente de assistência médica. Qualquer remédio serve; um senhor desesperado solicitava por óculos.

Durante o percurso foram encontrando nos dois sentidos da trilha muitas caravanas de iaques, as que vinham do lado contrário iam buscar provisões para enfrentar o inverno: arroz, açúcar, utensílios domésticos, roupas, botas etc. Do lado em que caminhavam iam as caravanas que buscavam por cabras, carneiros e iaques. Todo o pagamento é feito na forma de escambo. Roy diz ter sido como voltar mais de 100 anos na história.
Passavam a noite em pequenas casas de pedra de um só cômodo com um fogão no meio que servia a todos que entrassem. O inconveniente para o casal era a fumaça, a poeira e o forte cheiro de ópio fumado por alguns dos viajantes. A região é forte produtora da papoula da qual se faz o ópio e a heroína. Cercados por patrulhas de três exércitos de países diferentes. Porque iam a um dos lugares mais remotos da terra achavam que não precisariam de passaporte. Estes foram deixados no carro.

O que não perceberam é que o lugar fica numa zona de fronteira sensível entre quatro países: 12 quilômetros do Tadjiquistão, 8,5 do Paquistão, e a 40 da China e é também uma forte rota dos traficantes de ópio. Cercados por viaturas dos três exércitos não conseguiam explicar a ausência dos passaportes. Enquanto o comandante afegão dava um bronca, os soldados chineses tiravam selfies e mais selfies, rindo o tempo todo.
Ao final o comandante, por meio de um intérprete que falava russo – o casal havia aprendido um pouco do idioma durante o longo tempo em que permaneceram no país – ordenou que dormissem em uma pequena casa de pedra que estava perto e que no outro dia voltassem de onde vieram. Com as patrulhas retornando aos seus postos, o oficial afegão chegou até eles e disse: “O comandante deu aquela bronca para mostrar autoridade, mas me falou em particular que vocês podem ir onde querem, mas têm que voltar em um dia”. Os quirquiz são nômades que mudam de lugar de acordo com o clima e o tempo, sempre em busca de boas pastagens para os animais.

Em 1917 quando aconteceu a Revolução Soviética, o Quirquistão passou a integrá-la, como eles se encontravam fora das suas terras, muitas famílias decidiram ficar por ali e hoje formam este povo remoto no Afeganistão. Tudo contado em dois livros As aventuras do casal é contada em dois livros, um lançado em 2011 – O Mundo por Terra – e outro com o título estendido O Mundo por Terra – Onde Terminam as Estradas lançado neste ano.
Quem deu a ordem na escrita e trabalhou como ghostwriter foi o publicitário Eloi Zanetti, hoje aposentado e morando na Serra da Mantiqueira onde se dedica a escrever livros sob encomenda. Eloi tomou gosto por livros de expedições – atuais e antigas – e está ajudando uma professora de literatura na pesquisa de um trabalho acadêmico sobre o gênero “livros de expedições”.

Não há nada publicado sobre este assunto até o momento no universo acadêmico. Mais um livro no prelo – este de fotografias Para este final de ano será lançado um livro com mais de 180 fotografias que o casal tirou nas duas viagens. Será um livro em formato maior, impresso em alta qualidade, abordando os povos, os costumes e as grandes paisagens por onde passaram.
Roy foi diretor de marketing da empresa da família, a Móveis Rudnick de São Bento do Sul e Michelle Weiss é arquiteta. Ao todo, em seis anos percorreram mais de 300 mil quilômetros, visitaram 103 países em cinco continentes e passaram por temperaturas de menos 55 graus no auge do inverno siberiano e mais de 50 graus positivos no Paquistão. Seus livros podem ser adquiridos pelo site www.mundoporterra.com.br
(*) Eloi Zanetti, publicitário, escritor, palestrista, editor de livros



