Por Antenor Demeterco Junior (*)
José Dirceu nos brindou com o primeiro volume de suas memórias escritas no cárcere.
Escreveu, segundo conta, para que sua filha de sete anos e meio conhecesse sua história de vida, e para que o leitor o julgue (cf. p. 16).
Aproveitou a sua prisão que considera “injusta e ilegal” para ler e estudar e: leu 100 livros na tranquilidade de sua cela.
Dirceu, já julgado por quem de Direito, em seu texto julga seus contemporâneos com punho de aço, em especial os seus julgadores.
FOGE DE STALIN
Em mais de uma oportunidade, esquiva-se do stalinismo, ou seja, do aspecto brutalmente criminal de sua própria ideologia.
Juiz de juízes critica acidamente os ministros nomeados em sua época para o Supremo Tribunal Federal e que não militam de acordo com seus interesses.
A nomeação de Luiz Fux foi, para Dirceu, um erro feio, “ao ponto de sermos enganados por um charlatão togado” (cf.p.451.).
SOBRE FACHIN
Fachin “se fazia amigo aliado de todos os movimentos sociais”, “um engodo” (“ibidem”.).

Barroso “é um caso típico de como a cadeira de ministro, a vaidade e ânsia de poder mudam um advogado que renega toda a sua carreira anterior para servir aos poderosos” (“ibidem”.).
Alguns dos indicados “esqueciam-se do que haviam escrito, do que haviam ensinado a seus alunos, do que haviam praticado na magistratura, no Ministério Público, na advocacia, no Serviço Público e mesmo na vida partidária e política”.
ENTRE OS ‘ESQUECIDOS’
Confesso que entendo como uma felicidade que estes esquecimentos transformaram estes juristas em juízes.
Exemplifica entre os esquecidos os nomes de Ayres Britto, Cármen Lúcia e Joaquim Barbosa (cf.p.450.).
Dirceu com tais críticas revela um desconhecimento horripilante das funções e do comportamento de magistrados dignos deste nome: integrantes da mais alta corte não podem se disponibilizar a prestar serviços como gratidão a seus nomeantes.
GARANTIA DO JUIZ
A independência é a grande garantia da imparcialidade do juiz, que não pode estar vinculado a partidos políticos.
A metralhadora giratória de Dirceu não pode ser levada a sério, pois seus alvos estão sendo injustiçados vingativamente por estarem cumprindo seus deveres constitucionais.
A infelicidade atual de Dirceu é parte da fatura de seus próprios atos, pois ele é o punidor de si mesmo, como diziam os gregos: “heaautontimorumenos”.
A “LUTA ARMADA”
Atingiu ele os píncaros da glória política e despencou rapidamente para o ostracismo e o isolamento.
Foi abandonado por seus próprios companheiros, alguns da sofrida e insensata “luta armada” que não levou a nada, e deu sobrevida temporal ao governo de então (“erramos, e grosseiramente”.).
FRUSTRAÇÃO TOTAL
“Muitos atribuem a radicalização da ditadura ao surgimento das organizações armadas”, como ele mesmo insinua (cf. p. 53.).
A frustração é absoluta para Dirceu e os seus, principalmente após os resultados das últimas eleições presidenciais.
A desmoralização de seus julgadores não o inocenta de seus atos.
Uma autocrítica talvez atenuasse as suas ações pregressas.
Para juízes é melhor ser criticado por ele do que comprometedoramente ser elogiado.
(*) ANTENOR DEMETERCO JUNIOR: desembargador aposentado do TJ-PR; advogado; especialista em História do Século 20.
