terça-feira, 5 maio, 2026
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Opinião de Valor: Jornalismo de resultados

Zélia Sell: jornalista profissional e escritora

Por Zélia Sell (*)

Eis algumas históricas recordações do jornalismo dos anos 1970 no extinto jornal Diário do Paraná (Diários Associados, de Chateaubriand:)  Éramos todos jovens e idealistas. Professor Aroldo Murá havia me convidado para  o primeiro estágio no Diário do Paraná. Eu chegava cedo, recebia a pauta e saia na Kombi -a mesma da entrega dos jornais- sem bancos atrás e cuja porta era amarrada com uma corda para não abrir nas curvas. Eu entrevistava, o fotógrafo fotografava e voltávamos correndo para a redação datilografar nas laudas de 28 linhas que depois eram transformadas em calha e iam para a calhandra.

“RASGOU MEU TRABALHO”

Geralmente o chefe de redação lia e enviava para o Boamorte diagramar, mas as vezes não gostava do que lia e lembro quando rasgou de cima a baixo meu trabalho. Liguei chorando para o professor que me  ensinou: “Zélia, jornalista não chora, jornalista luta para sua matéria ser publicada”. E aprendi a brigar pelas minhas matérias. Passei a cobrir como repórter os setores de Saúde e Abastecimento, e falava diariamente com Walter Schmidt na Secretaria da Saúde e com Pedro Tocafundo no Abastecimento. E logo ganhei uma página inteira -geralmente a última do jornal -, ,chamada de matéria gráfica, com muitas fotos, desenvolvendo um tema.

Fui à Sociedade de Socorro Aos Necessitados entrevistar um velhinho – certamente teria muitas histórias- ,mas ele virou para o lado e dormiu. Entretanto foi nesse local que encontrei outro, um estrangeiro que não encontrava a irmã desde a segunda guerra mundial, e acabei promovendo o reencontro dos dois . “Life Is Beautiful”, a sua frase, foi manchete de primeira página. A Cruz Vermelha localizou a irmã.

O extinto Diário do Paraná

CONSTRUTOR DA CATEDRAL

E muitas matérias se sucederam, sobre os Irmãos Garbaccio na construção de nossa catedral; sobre o Museu da Farmácia, então organizado pela dona Antoninha Stellfeld, etc…

Hoje vejo na televisão que mais de 400 jornalistas sofreram perseguição no ano que passou, sendo que mais de cem foram processados pelo próprio presidente de república! Nossa profissão continua difícil! Vivemos a ditadura – lembro quando o presidente Geisel veio a Curitiba: as credenciais tinham que ser enviadas a Brasília com um mês de antecedência, e éramos severamente investigados. Na sua chegada, um pacote colocado em uma grade parecia ser ameaça de bomba. Depois de ‘desmontado’ continha apenas excrementos.

Lembro também de uma palestra onde fomos fotografados um a um na platéia ,e fichados; e vejo ainda as ‘recomendações’ pregadas na redação: proibido divulgar isto, isto e aquilo…e as receitas de bolo publicadas no lugar das matérias suprimidas…

SOBREVIVENTES

Sobrevivemos a tempos difíceis, mas tínhamos o respeito da população que abria sorridente o jornal com nossas notícias no café da manhã.

Na redação, além do toc-toc das máquinas de escrever, o som do telex e das fotos chegando pelo radiofoto da UPi…As ligações telefônicas nacionais e internacionais aguardadas por longas horas… Celular nem pensar, muito menos computador ou internet…

Um cafezinho na cozinha quando dava, mantinha todos acordados em clima de muita amizade, discutindo futebol e temas atuais…

Éramos felizes e sabíamos…

*Zélia Sell é jornalista profissional, formada na UFPR; memorialista de temas paranaense, escreveu livros sobre a imigração alemã no Paraná, como o “Alten Deutschen.

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