sábado, 9 maio, 2026
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OPINIÃO DE VALOR II: NEGO, ATÉ MAIS

Aroldo Murá G.Haygert

Carlos Alberto Pessoa
Carlos Alberto Pessoa

Confesso que por vezes perdi a paciência com o Nego Pessoa, o Carlos Alberto Pessoa, filho de ilustres cepas (os Pessoas, do seu João, ibéricos com todos os predicados culturais e nobiliárquicos) e os Anciutti, de dona Matilde, uma mulher simples, de muita fé e energia, origem abastada e que se consumiu diante de duas grandes devoções: os filhos e a Igreja Católica Apostólico Romana.

Perdia a paciência quando ele, sem cerimônias e sem pedir licença, me descascava um catatau de teorias econômicas que iam muito além dos especialistas que de alguma forma fui obrigado a conhecer, como Friedman, Keynes, Gudin, Roberto Campos.

Não sei de onde ele tirava tanta gana para doutrinar em cima dos já convertidos às teses liberais como eu.

Mas sempre tive o cuidado de não magoá-lo, mesmo quando, eventualmente, ele me acordava tarde da noite, para intermináveis desabafos telefônicos sobre a permanente crise brasileira. “É uma crise de Inteligência e caráter, professor Aroldo”, e acrescentava com a maior desenvoltura e sólida convicção: “Daí vem todo o resto, a canalha tomando conta do país, o lumpen cultural entronizando-se ao estilo Faustão e Silvio Santos, a cartilha sindicalista sorvendo almas e esperanças do assalariado…, o paraíso da Bolsa Família…”

Para mim, a acidez do Pessoa nunca foi surpresa.

Ele foi assim desde criança, quando o conheci em Irati, e com ele convivi por 4,5 anos, no dia a dia de um ateneu que a nós todos mesmerizou: o Colégio São Vicente de Paulo (naqueles anos 1950, apenas Ginásio). Eu e meus irmãos éramos alunos externos, como Nego e seu irmão. Mas havia também o universo dos internos, vindos de todo o Paraná para ser trabalhado por aquelas almas de especiais formadores de intelectos e espíritos, os padres.

Desses internos, Nego me reaproximou, anos recentes, de um deles, que foi paradigmático daqueles tempos, o José Machado de Oliveira, hoje grande especialista em direito tributário.

Na verdade, mais que o Nego eu convivi com o seu irmão o Jeca, que tinha a minha idade, estava na minha classe. Mas isso pouco queria dizer, porque o universo de experiência que a escola dos padres Lazaristas (ou Vicentinos, ou padres da Congregação da Missão, escolha o nome, à vontade) passava atingia a todos por igual.

Se ninguém passava impunemente pelo contato com o Carlos Alberto, com sua acidez, sua indomável verve crítica e iconoclástica, é preciso localizar as possíveis raízes dessa “doença”.

Algumas vezes – poucas, é verdade – cheguei a tocar no assunto, um tema árido, com ele. Não tivemos muita dificuldade em identificar naqueles padres que ainda usavam tonsura e batina 24 por dia, fieis herdeiros da herança do Seminário do Caraça, uma boa parte de nossas personalidades.

E assim, a pretexto de uma redescoberta do tempo perdido, íamos remontando certas aulas magnas (toda a piazada reunida nos sábados de manhã), quando o padre José Lima era capaz de destruir qualquer alma voltada “para o mal”.

Dali saiam lições que padres Rui Pereira, Nicolau, Marcelo Motta Carneiro, padre Motta e outros iriam burilar e passar-nos, na medida em que nos mostravam que havia, sim, um Pasárgada a nos esperar, que seria basicamente gerada pelo trabalho e a vontade do homem. “Mas homens com unhas cortadas, mão limpas”, dizia o superior, que não se cansava da ladainha: “Non multa, sed multum”. Quer dizer: não precisa fazer muita coisa, mas o que fizer, faça bem.

Nego Pessoa seguiu o modelo: “… sed multum”.

Até mais, Nego.

Que aqueles anjos, como os dois que ficavam ao lado do altar na capela do São Vicente, o acolham alegremente.

Mas por favor: não perca tempo: eles estão sobejamente doutrinados em todas as matérias humanas e divinas, por Javeh, em todas as línguas, a começar pelo hebraico, aramaico, grego, latim.

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