O odontopediatra Edson Gradia é uma testemunha ocular da história. Na semana passada, durante entrevista para o volume 10 do livro Vozes do Paraná, ele bradou em alto e bom som: “O verão das ‘Diretas Já’ começou em Curitiba“. Começou mesmo.
Gradia é assessor histórico do senador Alvaro Dias. É também um especialista em esporte, sem o ranço do academicismo, mas próximo do jornalismo radiofônico. Foi diretor de esportes da Rádio Alvorada, de Londrina, por longo tempo. Tempo de pequenas façanhas, grandes jornadas.
VESTIU UMA CAMISA AMARELA E SAIU POR AÍ
Pois Gradia viu o primeiro grande comício das ‘Diretas Já’, em 12 de janeiro de 1984, na Boca Maldita. Foi a estreia de Osmar Santos, o narrador esportivo, ídolo de Gradia, no palanque da democracia, convidado que fora por Alvaro Dias. Foi a primeira vez que o amarelo surgiu em cena nas camisetas estampadas com o slogan “Eu quero votar para presidente”. Ideia transubstanciada pelo publicitário e homem de letras Ernani Buchmann.
60 MIL, 70 MIL, 200 MIL
A multidão tinha números: era formada por 60 mil, talvez 70 mil pessoas (os jornais exageraram: 200 mil), mas foi o suficiente para motivar o governador José Richa a deixar o trono no Palácio Iguaçu e unir-se à turba democrática.
O comício foi tão surpreendente em tempos de ditadura agonizante que passou tímido pelos telejornais da noite. A Rede Globo ignorou-o. Era o primeiro grande passo de uma aventura que duraria seis meses e movimentaria todo o país. Edson Gradia viu tudo de perto, assim como vê agora o slogan sendo desonestamente apropriado em faixas e camisetas que clamam por ‘diretas já’ em fundo vermelho. Sem qualquer pingo de nacionalismo, ele sabe melhor do que ninguém: a liberdade é amarela.
