terça-feira, 5 maio, 2026
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NEM BOATE “AMERICANA” FOI POUPADA NA MORTE DE GETÚLIO RECORDA SCALCO

Aroldo (E), Euclides Scacco, Fábio Campana, Marcus Vinicius Gomes, José Lúcio Glomb
Aroldo (E), Euclides Scacco, Fábio Campana, Marcus Vinicius Gomes, José Lúcio Glomb
Scalco e Aroldo Murá G.Haygert.
Scalco e Aroldo Murá G.Haygert.
Scalco: amplo depoimento também para vídeo.
Scalco: amplo depoimento também para vídeo.
Luiz Fernando de Queiroz, entre os entrevistadores
Luiz Fernando de Queiroz, entre os entrevistadores

Euclides Scalco recorda como se fosse ontem. Ele assistia a aula de Química Orgânica na Faculdade de Farmácia, na UFRGS – a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. No canto direito da sala, um estudante, que era filho de um médico filiado à UDN gritou: “Viva!”

Soube-se então: Getúlio Vargas acabara de cometer suicídio. Era 24 de agosto de 1954.

TOMADA DAS RUAS

A saudação custou caro ao estudante. Um outro reagiu e lhe aplicou um sopapo. Foi a deixa para que o alvoroço começasse. Os alunos deixaram a sala, uniram-se a outros e ganharam as ruas.

ANTIAMERICANISMO

O alvo era qualquer coisa escrita em inglês. A fachada do “America Boite”, um cabaré da época, localizado na rua então característica da prostituição de Porto Alegre, a Rua Voluntários da Pátria, foi abaixo.

Destruíram importadoras, carros americanos. O jornal “Diário de Notícias”, que fazia oposição a Getúlio (era da cadeia Asssociada, de Chateaubriand), foi invadido e depredado; a Rádio Farroupilha foi incendiada. A revolta tomou tal dimensão que houve quem se jogasse do Viaduto Borges de Medeiros, num salto para a morte.

INTERVENÇÃO

A manifestação só não ganhou contornos trágicos, porque o governador da época, Ernesto Dornelles, primo de Getúlio, decretou a intervenção quando a população já tomava os postos de combustíveis nos limites da capital. Foi o dia do quebra-quebra.

Entre os companheiros que Scalco lembra terem estado com ele, no 24 de agosto de 1954, estava o antológico ex-senador Pedro Simon, que fora seu colega no secundário do Colégio Rosário e orador da turma de formandos daquele educandário marista, quando os dois concluíram os antigos Clássico e Científico.

Simon estudava Direito na UFRGS.

MEMÓRIA

Scalco nunca mais esqueceria esse episódio. Mesmo depois de fazer uma longa carreira política no Paraná e assumir pasta no ministério de Fernando Henrique Cardoso, e a diretoria-geral da Itaipu Binacional.

Mesmo depois de enfrentar os anos duros do regime militar.

BANDEIRA DE LUTA

De qualquer forma, ele reconhece, a comoção que tomou conta da cidade, serviu-lhe como uma bandeira de luta que respeitaria ao longo da vida.

LEGADO

Personagem do livro (em elaboração) “Encontros do Araguaia”, Scalco, 84 anos, segue inflexível as posições do legado getulista. Posições que incluem os preceitos modernos da democracia e que o tornaram um conselheiro privilegiado de qualquer político que se preze. O tom dado por ele é o da modernidade e o da experiência. Não por acaso lutou bravamente para que Jaime Lerner ingressasse no PSDB no início dos anos 2000. A recusa do diretório estadual fez do partido de então uma legenda menor e fadada a derrotas ao longo de mais de uma década. Bem que Scalco avisou.

CONSTITUINTE

A vida e a obra de Euclides Scalco contemplam muitos outros ângulos, alguns dos quais este espaço já abordou, como o início de Francisco Beltrão e a persistente luta dos pequenos agricultores em busca da posse da terra no Sudoeste do Paraná. A grande revolta camponesa der 1957, a criação das Casas Familiares, de educação agrícola para os agricultores, o papel dos padres belgas da Congregação dos Sagrados Corações, a liderança do padre Joseph Kalkberg na implantação do Assessoar –assessoria formadora de lideranças rurais locais -, esses são outrros aspectos da entrevista.

Talvez um dos pontos mais salientes da vida de Scalco tenha sido sua participação na Assembleia Nacional Constituinte, quando se notabilizou na defesa de grandes temas, como a defesa do meio ambiente, e questões ligadas à Bioética, em que atuou em consonância com a CNBB e com o apoio do professor Volnei Garrafa.

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