quarta-feira, 19 agosto, 2026
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Morre o jornalista e cartunista Francisco “Pancho” Camargo

Redação e Tribuna – Morreu nesta terça-feira (18) o jornalista Francisco “Pancho” Camargo, um dos mais respeitados de sua geração. Camargo, que tinha 80 anos e trabalhou por décadas na Gazeta do Povo, Correio de Notícias, Tribuna do Paraná, O Estado do Paraná, entre outros, estava internado no Hospital Zilda Arns, em Curitiba. Ele teve complicações por causa de uma pneumonia.

“Camargão cumpriu a pauta por aqui e foi transferido para a sucursal lá de cima. Dentro do possível, estamos tocando o barco”, disse o jornalista Fabiano Camargo, filho de Francisco. O velório será nesta quarta-feira (19), das 12h30 às 16h, na Sala Jade da Capela Vaticano. Após a cerimônia, o corpo seguirá para o Crematório Vaticano.

O prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, destacou a importância de Camargo para a imprensa local e prestou soliedariedade a amigos, família e colegas de profissão. “Foi uma referência para o jornalismo e formou uma geração de grandes profissionais”, afirmou o prefeito.

Francisco Alfredo Dias Camargo foi casado por 30 anos com a também jornalista Lucia Camargo, professora e gestora cultural, que faleceu em 2020 e dá nome à Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba. Lucia atuou como presidente da Fundação Cultural de Curitiba, secretária de estado da cultura do Paraná, diretora do Teatro Guaíra, diretora da regional sul da Funarte. Foi curadora do Festival de Curitiba por dez anos, até 2015, e jurada do Prêmio Shell. O casal teve três filhos: Fabiano, Adriana e Guilherme.

Em 2017, o Professor Aroldo Murá escreveu sobre Pancho:

Francisco Camargo, o Pancho, é jornalista de longa data. Foi editor do “Correio de Notícias”, da “Tribuna do Paraná”, em sua primeira dentição, e da “Gazeta do Povo”. Era na redação desta última que, ao fim do burburinho dos repórteres ele sacava de uma caneta bic preta e desenhava a tira diária”.

Havia algo de “Frank e Ernest”, personagens de Bob Thaves (1924-2006), nas piadas de “Rolmops e Catchup”. Com toques de irreverência e iconoclastia. Pancho dava a eles um toque filosófico, sem jamais escorregar no chulo ou no xucro contemporâneo.

Na redação, personificando o editor, Camargo falava pouco, quase nada, e escrevia muito, ainda que apenas com os dedos indicadores. Leia na íntegra:

Pancho agora no Jornal do Juvevê: De humor e cuia

História no jornalismo

Francisco Camargo carregou dois nomes na trajetória: o de jornalista, que assina reportagens, títulos e décadas de redação, e o de Pancho, apelido de infância inspirado no revolucionário mexicano Pancho Villa, que batiza suas charges e tiras. Os dois conviveram desde 1963, quando o então “meninote” fazia bico numa sucursal do jornal Última Hora, em Curitiba, e passou a assinar charges durante a maior greve de jornalistas já registrada no Paraná.

A estreia oficial, porém, veio em 1º de março, data em que Camargo completou 40 anos de carteira assinada na profissão. Entre uma redação e outra, o jornalista construiu fama de “tituleiro” — autor de manchetes certeiras que colegas ainda citam de cor — e de cronista do cotidiano por meio de suas tiras, que ganharam espaço fixo em diferentes jornais paranaenses ao longo das décadas.

Quem acompanhou de perto essa trajetória mais recente foi Alexandre Luis De Mari, ex-editor de arte da Gazeta do Povo e hoje diretor de inovação no Estúdio Thapcom. De Mari chegou à redação para substituir um colega próximo de Pancho — e sentiu na pele o que era herdar aquele posto. “Para o Pancho, eu não era o novo talento. Eu era um intruso”, relembra.

O choque de hierarquia veio cedo. Ao tentar “modernizar” a diagramação da capa por orientação da chefia, De Mari foi arrastado por Pancho até a mesa do então diretor de redação, Nelson, para ouvir um recado direto: quem mandava na capa era Camargo. “Naquele segundo, fui de jovem motivado a quase demitido em menos de cinco minutos”, conta.

A relação mudou de patamar depois de um erro do próprio De Mari, que publicou a data errada na capa do jornal — o deslize virou piada ao vivo no rádio. Temendo demissão, ele encontrou em Pancho um aliado inesperado.

“O Pancho prontamente me defendeu. Assumiu a responsabilidade junto comigo, dizendo que o erro também era dele por não ter visto”, relata. Dali em diante, os dois construíram uma amizade que resistiu ao tempo — De Mari chegou a ser convidado para a festa de aniversário de Camargo.

O jornalista Eduardo Aguiar, que trabalhou por anos com o Pancho, o conheceu já como editor e diretor. “O Camargo acima de tudo era um cara íntegro e de caráter forte, que não se dobrava a pressões. Como editor da primeira página da Gazeta, foi o melhor criador de títulos que conheci — sempre preciso e instigante”, afirma.

Segundo Aguiar, Camargo era discreto, mas não se furtava a discordar das decisões dos donos do jornal quando entendia que os repórteres precisavam de respaldo. Ele também foi um dos mentores do Primeira Hora, jornal popular do grupo GRPCOM que marcou época em Curitiba.

“Não o conheci como repórter, mas já como diretor e editor. Mas, claro, sempre demonstrava o tino, o faro de repórter — eu acho que, mais do que repórter, era um grande cronista e cartunista. Bom humor era uma marca, que era o oposto da sua cara sisuda”, descreve. Para Aguiar, outra marca de Camargo era a paciência para analisar os fatos mesmo sob pressão do fechamento, aliada à capacidade de criar títulos que instigavam o leitor a seguir na leitura.

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