sexta-feira, 24 julho, 2026
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MINHA AMIGA DEIXOU UM BOM NOME

Sou testemunha disso.

 

Irmã Maria Crtistina e Antonio Carlos da Costa Coelho

Por Antonio Carlos da Costa Coelho (*)

Acabo de voltar do enterro de uma amiga (neste domingo, no Cemitério Municipal). Poucas pessoas apareceram para o adeus. Estamos em tempo de pandemia e há quem não queira sair de casa. Não poderia deixar de ir, pois, “amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração. Assim falava a canção” que tantas vezes ouvimos juntos. Ela, a minha amiga, era a Irmã Maria Cristina ou a Soeur Cristina, uma religiosa da Congregação de Nossa Senhora de Sion.

Convivi muito próximo a ela por, exatamente, vinte anos. Outros vinte, passamos longe um do outro. Ela como diretora do Colégio Sion e eu como professor e comerciante. Cada um na sua lida e na sua vida. Nos distanciamos fisicamente, mas não de coração. Não havia um dia em que não lembrasse dela e das suas coisas e manias. Do seu modo de tratar quando estava “de boa” ou quando estava em seu inferno astral. Inferno astral, para ela, era um período que poderia ocorrer a cada instante e, também, desaparecer da mesma forma que veio.

 

PROFESSOR MÚLTIPLO

Lecionei no Colégio. Entrei em agosto de 1979 para ensinar geografia no segundo grau (hoje ensino médio). Quem disse que ficaria só com Geografia? No ano seguinte estava ensinando, também, História, Filosofia, OSPB. Irmã Cristina não dava moleza. Se percebesse que algum dos seus professores – a maioria eram professoras – levava jeito, atribuía a ele ou a ela muitas tarefas. Todos eram obrigados a estudar muito para poder fazer parte do quadro de mestres do Colégio. Irmã Cristina exigia um comprometimento com a escola. Formou um corpo unido de professores de excelente nível por méritos próprios e pelo aprimoramento oferecido pelo Colégio.

 

SEMPRE MELHORANDO

Para isso, Soeur Cristina promovia encontros com mestres em diferentes conhecimentos. Muitos desses vinham da França, Israel, Canadá ou mesmo do Brasil, como os teólogos e filósofos: os jesuítas João Batista Libânio, de saudosa memória, Carlos Palácio, Ulpiano Vasquez e outros de igual grandeza. Também criava grupos de estudo, dos quais ela fazia questão de acompanhar. Além disso, encaminhava seus professores a cursar em outras instituições, no Brasil ou lá fora. O Colégio Sion, com Irmã Cristina, era na verdade uma academia. Ali ninguém era fraco. Era um time da pesada. Não tinha espaço para quem não se comprometesse com a educação, com a cultura e com os princípios da Congregação de Sion. Assim como ela era presente na direção do Colégio, ensinava-nos também, a ser presente em cada atitude que tivéssemos na nossa vida.

 

TUDO REFORÇADO

Não só os professores recebiam uma formação reforçada, também os funcionários da administração, da cozinha, da limpeza, todos, todos mesmo, tinham um tempo para estudar, ouvir palestras, participar de grupos de estudo com os professores do Colégio. E todos, contavam com a atenção de Maria Cristina para conversa, aconselhamentos ou, claro, para chorar as pitangas. Ela os ouvia pacientemente.

Toda essa formação dada aos professores e funcionários era um investimento que se refletia na qualidade educacional do Sion e na formação profissional e pessoal de cada um. Hoje encontro ex-alunos que falam com carinho do tempo de colégio. Estão todos bem. Bons profissionais. Gente de sucesso, isto é, pessoas realizadas e felizes. E eu, como ex-professor, fico mais feliz ainda pois, fazia parte de uma equipe que trabalhava para o sucesso de nossos alunos.

 

NOSSA PERDA

Com morte da minha amiga, a educação perdeu uma das suas maiores expressões. Foi uma educadora surpreendente. Não tenho receio em afirmar que foi a maior educadora que tivemos no Paraná nos últimos 70 anos. Conhecia cada professor, conhecia cada aluno, chamava-os pelo nome, dos pequenos aos grandes – conhecia profundamente cada um, sabia das suas capacidades e limites, o quanto poderia fazer e ser.

Irmã Cristina partiu. Nunca quis ser insubstituível. Plagiava alguém quando dizia: “os cemitérios estão cheios de insubstituíveis”. Deixou uma escola quase centenária pronta para continuar seguramente sem a sua presença. Afinal, era educadora. Deixou Magda e Juliana, que estudaram ali, sentadas aos seus pés e, mais do que isso, foram alimentadas pelo seu conhecimento e espírito educador. Seus coordenadores, igualmente, estão preparados. Possuem, igualmente, o espírito e o conhecimento que garantem a qualidade de um ensino já tradicional, qualificado, orientado pelo respeito ao outro, pela religião, pelos conhecimentos das artes e das ciências como deve ser uma escola de Sion.

 

SION QUE VIVI

Talvez, por Irmã Cristina ter partido hoje para os braços do Seu Amado, para quem dedicou 89 anos da sua vida, seria melhor ter escrito uma breve biografia, mas preferi, neste texto, lembrar do tempo que passei com ela e do quanto isso valeu a mim e a outros que tiveram a mesma sorte. E, também, contar um pouco do muito que sei sobre o Colégio. Como já disse, ali vivi vinte anos, o suficiente para me considerar um sionense de corpo e alma. Ali fui educado, não como aluno, como um professor e como pessoa.

Diz a Bíblia que quem encontra um amigo encontra um tesouro. Minha amiga, a Soeur Cristina, foi, para mim, esse tesouro. Imenso. Precioso. Nela encontrei amizade no sentido completo da palavra. Ganhei conhecimento, cresci como pessoa, foi agraciado pela sua generosidade e com o seu carinho. Imensa parte do que hoje sei e que moldou profundamente a minha vida veio por ela. Soeur Cristina não gostava que alguém dissesse que ela era “uma mãe”, mas, muitas vezes, ela me chamou de filho.

 

ENSINA O TALMUD

O Talmud ensina que devemos viver para deixar um bom nome. Soeur Cristina deixou um bom nome na educação e na memória de seus amigos e alunos. Lá no céu, Deus não precisará fazer a ela muitas perguntas. Ele já deve ter ouvido falar das suas obras e do valor que elas tiveram e têm para cada um que passou pelos seus olhos.

(*) ANTONIO CARLOS COELHO, Professor e sionense; empresário, foi professor do Studium Theologicum de Curitiba.

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