terça-feira, 12 maio, 2026
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MÁRIO PETRELLI, DONO DA AGENDA MAIS PRECIOSA DO BRASIL

Màrio Petrelli em entrevista para o livro “Vozes do Paraná 10”. (Fotos de Annelise Tozetto)
Màrio Petrelli em entrevista para o livro “Vozes do Paraná 10”. (Fotos de Annelise Tozetto)

O empresário de comunicação Mário Petrelli, 82, é um integrante seleto da política nacional mesmo sem nunca ter disputado um mandato. Também não corporifica a “eminência parda” que deu fama a Golbery do Couto e Silva. É homem de almoços e jantares, de negócios à luz de refletores e de um dinamismo exemplar para um dono de emissoras da Rede Record no Paraná e em Santa Catarina.

PREFIRO REZAR

Sua memória é revigorante. Na longa entrevista que concedeu para o livro “Vozes do Paraná 10”, que será lançado em 25 de junho deste ano, na Sociedade Garibaldi, Petrelli diz que não teme a morte; mas teme o Alzheimer, uma doença degenerativa que faz o doente esquecer a si e aos outros. Foi aconselhado a fazer o teste para detectar a moléstia: cheirar canela, como ensinam os indianos. Respondeu de um jeito pródigo: “Prefiro rezar”.

FORMAÇÃO SÓLIDA

Explico: Petrelli aprendeu a rezar em casa, com os pais. Mas foi no Colégio Catarinense – na época, um dos três colégios que os jesuítas mantinham no Brasil -, que ele ampliou sua relação com o sagrado. Lá fez todo o primeiro grau.

Aos 15 anos mudou-se de Florianópolis para Curitiba, passando a viver na casa de seu irmão, o médico Armando Petrelli. Foi estudar no Colégio Estadual do Paraná (CEP), recém instalado na sede atual. Teve como colegas no CEP, alguns notáveis, como Norton Macedo. Chegou a liderar o Centro Estudantil do Colégio Estadual do Paraná, que presidiu em 1951.

No Curso de Direito da UFPR consolidou grandes amizades, que perduram sólidas, como com René Dotti.

CELULARES NO BOLSO

É o estilo de Petrelli. Ele é capaz de lembrar a bancada paranaense eleita em 1945, no reabrir democrático do Brasil. Lista reuniões das quais participou, mencionando participantes e datas. Almoça com ex-ministros e janta com empresários, é avesso à era digital mas carrega no bolso três celulares: cada um com o DDD das três cidades onde passa boa parte do ano: Florianópolis, onde fixou residência, Curitiba e Brasília.

ADVOGADO DE FORMAÇÃO

Petrelli tinha 15 anos quando aportou na capital paranaense. Era catarinense, mas a vida profissional erigiu nele um coração curitibano.

Foi estudante do Colégio Estadual do Paraná e depois da Universidade Federal do Paraná, onde cursou Direito. A advocacia atendia ao seu perfil contestador e algo beligerante, mas os caminhos que se abriram foram outros.

A RIC DESENHADA

Executivo de uma empresa de seguros, acabou por ocupar cargos importantes no Bradesco e depois no Banco do Brasil, no qual foi diretor de Crédito Geral. Na década de 1970, surgiu a oportunidade de adquirir uma emissora de televisão. Comprou-a, mas não viu. Nunca botou os pés na TV Coligadas, a primeira do grupo. Foi o filho, Leonardo quem, muitos anos depois, quando Petrelli já desenhava uma rede de comunicação voltada para a programação regional, quem assumiu os negócios e deu a eles a feição do que viria a ser a Rede Independência de Comunicação (RIC).

14 MILHÕES POR ANO

Leonardo havia estudado comunicação na San Diego State University, nos EUA. Quando voltou ao Brasil foi convidado para ocupar um cargo de produtor-executivo da Globo. Ficou no emprego até que o pai o convocou para tocar as emissoras da família no Paraná. “Ele podia estar ganhando 14 milhões por ano, mas preferiu a aventura de gerir uma rede com 1.400 funcionários”, afirma Petrelli.

UMA CANJA DE NÊUMANNE

O empresário mantém uma linha direta com José Nêumanne, colunista político de texto ácido e preciso. Durante a entrevista, liga para o amigo e faz questão que ele se envolva na entrevista, ainda que com uma participação curta.

PAPELUCHOS DOBRADOS

É o estilo de Petrelli. O telefone de Nêumanne ele alcança na agenda que é considerada das mais importantes do Brasil: uma lista impressa frente e verso com números de governadores, ex-presidentes da República, ministros, empresários, jornalistas, todos antenados com o poder nas variadas cores da paleta ideológica. Há outra, em farrapos. Esta ele guarda no bolso direito do paletó, colecionando folhas dobradas e papeluchos dantes navegados. Não se desapega porque teme perder número precioso. Nunca se sabe.

VIDA PÚBLICA ALHEIA

Petrelli gosta de política.

José Richa: desprezou oportunidade única
José Richa: desprezou oportunidade única

Com amigos, mantém um canal de comunicação exclusivo onde discorre sobre as coisas do país. Nêumanne é um prolífico. Envia ao menos três e-mails por dia ao amigo e exige dele a leitura crítica. O empresário tem algumas certezas. Vê em Geraldo Alckmin, o chuchu tucano, um forte candidato à sucessão de Temer.

No Paraná, aposta em Ratinho Jr, mas o quadro político insinua, disse, boa chance para a vice-governadora Cida Borghetti. Ele explica: há negociações em curso que indicam o apoio do PP à candidatura de Alckmin desde que o partido – a qual pertencem Cida e Ricardo Barros – ganhe apoio em suas incursões eleitorais no Sul do país. A estratégia ainda está sendo desenhada.

MISSÃO CRUCIAL

Quanto a Beto Richa, aposta em sua candidatura ao Senado. Ponto. Mas ele prefere lembrar do Richa pai, o José Richa.

Quando ocupou o governo do Paraná (1983-1986), Richa recebeu o empresário no Palácio do Iguaçu. Ele vinha de Brasília com uma missão: convencê-lo a disputar a presidência no Colégio Eleitoral. A história tinha um capítulo anterior: Tancredo Neves, que era o candidato conciliador com trânsito livre entre os generais, relutava em renunciar ao cargo de governador de Minas Gerais. Richa não se apegou à oportunidade, conta Petrelli.

SEGREDO DE JOSÉ RICHA

Euclides Scalco: interlocutor privilegiado (Foto: Annelise Tozetto)
Euclides Scalco: interlocutor privilegiado (Foto: Annelise Tozetto)

Ligou para Franco Montoro, governador de São Paulo, e sugeriu um jantar na capital paulista com a participação de Tancredo. A proposta serviu para pressionar o mineiro a aceitar a indicação do PMDB e dos dissidentes do partido governista para que fosse o candidato da conciliação. Richa manteria em segredo essa passagem da história, só revelada, inclusive ao filho Beto Richa, após sua morte, em livro escrito pelo jornalista Hélio Teixeira. Poucos sabiam disso. Petrelli era um deles.

SCALCO, GRANDE ARTICULADOR

Mário Petrelli, por esses e outros momentos na vida política do país, tem autoridade de sobra para fazer avaliações. Por exemplo: não titubeia quando nomina Euclides Scalco com o “o mais sólido articulador político que o Brasil já teve. E que continua importante e privilegiado interlocutor de notáveis, como Fernando Henrique Cardoso”.

Fotos de Annelise Tozetto:

Com 83 anos é ativo empresário de comunicação.
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Com dinamismo formou a Rede Record do PR e SC.
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Sua agenda de contatos é uma preciosidade.
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Em entrevista com Aroldo Murá.
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