Por Marcus Gomes – Duas verdades e uma mentira na goleada amistosa da seleção brasileira por 6 a 2 sobre o Panamá, ontem, no Maracanã. Verdade. O time reserva marcou quatro gols, enquanto o titular, que jogou a primeira parte, só dois.
Verdade. O segundo tempo da partida, com onze jogadores vindos do banco, porque assim foi acertado previamente, mostrou que esse é o escrete titular.
Mentira. Não é.
Antes do jogo, Carlo Ancelotti (aka Padre Quevedo) deixou claro à imprensa que a provável equipe que estreia na Copa contra o Marrocos, será aquela que esteve à beira de ser vaiado pelos 73 mil torcedores que estiveram no estádio, pagando até 400 mangos por cabeça.
Deixe o samba morrer
Exceção à sapecada sobre um time que será figurante no torneio de 48 seleções, o Brasil fez uma despedida melancólica. Melancólica porque o hino nacional cantado por Belo (ligado ao PCC ) e Alcione (ligada à MPB) fez com que a torcida sentisse aquele sabor amargo de que é melhor ‘deixar o samba morrer’.
Melancólica porque a Globo passou boa parte do jogo mostrando o atleta ou ex-atleta Neymar no banco de reservas. Apenas ele e Weverton, o goleiro número três, não entraram em campo. Ancelotti tinha 23 jogadores à disposição; 21 cumpriram o seu quinhão de minutos.
Neymar com uma lesão de grau dois na panturrilha foi confirmado como o dono da camisa 10 na seleção. Jogando ou não jogando. Mais provável que não. É um desperdício da camisa consagrada por Pelé. Fosse por mim, e eu não conto nada, a 10 teria sido aposentada na seleção e no Santos.
Mas a memória pátria é péssima. ‘De quinze em quinze anos, o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos’, dizia o já falecido Ivan Lessa. Era um otimista. De quinze em quinze segundos…
Sem noção
Escrevo sobre a melancolia e esqueço da esquizofrenia. A torcida se encarregou disso. Com o placar definido, desatou a cantar ‘olê, olê, olá. Neymar, Neymar’.
O domingo teria esse espetáculo de nonsense não fosse a vitória do tenista João Fonseca sobre o norueguês Carl Rudd em Roland Garros. Duas décadas depois, o Brasil volta a aparecer no cenário do tênis mundial.
Fonseca chega às quartas de final do torneio depois de eliminar, além de Rudd, o sérvio Djokovic batido por 3 sets a 2 em jogo memorável. Tênis é o esporte de um homem só. Não espere cai cai, não espere firulas, não espere encenações. É suor, sangue e lágrimas.
O último brasileiro a brilhar nas quadras foi Gustavo Kuerten, o Guga. Ele estava no jogo ontem. De cabelos brancos, rugas e um desespero de torcedor prestes a se desiludir. Não foi desta vez. De vinte em vinte anos, surge alguém bom de raquete. Aproveitem.
Em poucos dias experimentaremos o inverno da nossa desesperança. Aposto que a seleção perde para Marrocos, perde para o Haiti e para a Escócia. Talvez com Neymar em campo. O jogador é o nosso talismã.

Marcus Gomes é jornalista e advogado. Escreve sobre política, direito, condomínios e assuntos do dia a dia. Sugestões de conteúdo para redacao@bonijuris.com.br
