quarta-feira, 22 abril, 2026
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Manzotti perde na guerra das televisões católicas (parte 2)

Papa Francisco
Papa Francisco

Continuando a análise da “guerra” entre o midiático padre católico Reginaldo Manzotti, de Curitiba, cantor de músicas religiosas com projeção nacional, escritor de livros de autoajuda hoje entre os “best sellers” do país, e o também padre Eduardo Dougherty, dirigente da TV Século 21, de Campinas, seguem novos ângulos da belicosidade sacerdotal.

O quadro é único por envolver dois sacerdotes, que, por princípio, teriam de trabalhar unidos sob as hostes da Santa Madre. Ou, ao menos, sem beligerâncias e mágoas.

Mas quem tem culpa por essa beligerância que poderá ser decidida na justiça dos homens, se antes não houver algum tipo de mediação da hierarquia católica?

LINHA DO TEMPO

1 – Vamos a uma rememoração dos fatos: em setembro de 2015, Reginaldo Manzotti publicou em seu site a formação oficial da RCI, a Rede Católica da Igreja, que passava a existir com a junção de emissoras de rádio e televisão que já apoiavam a sua rede “Evangelizar é Preciso”, e estavam espalhadas em diversos estados do Brasil. Mas grande dádiva era esta: então passava a contar com 17 canais digitais de televisão. Essa era a verdadeira novidade da ocasião, vitaminando o trabalho do curitibano padre cantor, ex-frei carmelita, hoje dependente da Arquidiocese de Curitiba (“encardinado” em Curitiba, segundo a linguagem eclesiástica). Ele pode ser dono do que quiser, pois, pelo Direito Canônico, não está sujeito a voto de pobreza, o que acontece apenas com os chamados religiosos (franciscanos, jesuítas, capuchinhos, carmelitas, etc.).

“Dougherty perdeu as estribeiras e declarou ‘guerra a Manzotti’. Com a praticidade dos norte-americanos, com uma visão até meio que protestante e calvinista da História, resolveu detonar o acordo entre a CI e a Rede Evangelizar é Preciso: ofereceu R$ 2.6 milhões pelo arrendamento mensal dos 17 poderosos canais digitais instalados em 19 capitais. Negócio fechado…”

2 – Esse ângulo mais precioso do nascimento da RCI não foi, na ocasião, mencionado oficialmente: a rede nacional nascia baseada no arrendamento mensal (direito de uso) dos poderosos 17 canais de televisão digitais pertencentes ao grupo de comunicação denominado de CI, de Curitiba. Um “presentão” que custava caro, R$ 2,1 milhões mensais.

UM EX-MINISTRO

Edir Macedo
Edir Macedo

Comentários frequentes da área indicavam que a CI teria o dedo de um ex-ministro envolvido na Lava Jato. Impressões digitais preservadas com todo o cuidado, naturalmente…

3 – De qualquer forma, a RCI começou a fazer a diferença, a partir dali, atingindo – ou podendo atingir – até 72 milhões de espectadores.

Ou seja: 36% da audiência nacional de televisão. Esses dados aparecem na página assinada pelo padre Manzotti, e que transcrevi na edição de ontem, 21. Fazem parte de declarações festivas de Manzotti, na televisão, feitas especialmente em 3 setembro de 2015. Excetuadas, é claro, menções aos valores do arrendamento e peculiaridades da antiga CI.

4 – Observe-se: o nascimento da RCI fez sumir a antiga CI (Comunicação Integrada), a proprietária dos 17 canais digitais citados. Mas a verdade é que poucos, dentre os que atuam no meio televisivo, contentaram-se em identificar como sendo proprietários da CI ‘apenas’ os que tal apareciam nos documentos oficiais.

PARA O BEM GERAL

Valdemiro Santiago
Valdemiro Santiago

5 – Para o bem geral, em compensação, Reginaldo Manzotti, hábil administrador, de difícil relacionamento humano fora dos palcos, segundo opinam os que o conhecem bem, convidou e fez parceiro do empreendimento RCI o norte-americano-brasileiro padre Eduardo Dougherty, fundador e dirigente da poderosa Televisão Século 21, de Campinas. A Século 21 tem repetidoras em todo Brasil, é sintonizada em parabólicas e está em canais a cabo.

6 – A parceria entre os dois teria andado bem, no período que foi até cerca de semanas atrás, quando Dougherty estendeu seu olhar comercial sobre a RCI. E teria dito claramente a interlocutores não aceitar o fato de que a RCI” estaria ficando sob controle total de Manzotti”.

E se esclareça: a parceria fora fundada – num acordo de homens da Igreja – entre a ‘Século 21’ e a Rede Evangelizar “com a intenção de criar uma verdadeira e forte rede católica de televisão!”. O que andou sem rupturas até dias atrás.

– O olhar treinado do padre Dougherty largou recentemente um solene anátema sobre o negócio do padre Manzotti. A alegação do norte-americano para a ruptura é que “a RCI estava só fortalecendo as bandas de Curitiba”, diz uma “santa mulher”, profissional universitária, ardente defensora de Manzotti, senhora de 50 anos, dedicadíssima à obra da Evangelizar.

GUERRA É GUERRA

RR Soares
RR Soares

7 – “Dies Irae”. Foi aquele dia em que Dougherty perdeu as estribeiras e declarou ‘guerra a Manzotti’. Com a praticidade dos norte-americanos.

Dotado de uma visão até meio que protestante e calvinista da História, resolveu detonar o acordo entre a CI e a Rede Evangelizar é Preciso: assim, ofereceu R$ 2,6 milhões pelo arrendamento mensal dos 17 poderosos canais digitais instalados em 19 capitais. Negócio fechado. A CI não teve dificuldades em bandear-se para o lado de Campinas, assim sujeitando-se até a penas da lei.

Na questão do sagrado, prevaleceu, assim, o deus Mamon, aquele que a Bíblia nos fala ser o grande corruptor do homem.

8 – O sacerdote americano, septuagenário, iniciou nos anos 1980 a sua rede de televisão católica, com o nome de “Anunciamos Jesus”. Chegou a ter um especialista em marketing religioso a apoiá-lo no empreendimento. Na época, era autêntica novidade para um catolicismo que começava a enfrentar – sem reações à altura – o domínio pentecostal absoluto nas muitas emissoras de televisão do país.

Com o tempo, e mais próximo deste século, Dougherty mudou o nome da sua rede para “Televisão Século 21”, hoje presente em parabólicas, repetidoras e a cabo em todo o Brasil.

PERDENDO MILHÕES

Se Dougherty conseguiu ‘secar’ a RCI ou não, ainda é cedo para garantir. Afinal, não se pode subestimar padre Manzotti, um obstinado, bom vendedor de suas performances artísticas, de suas pregações e de livros dirigidos a uma sociedade açoitada pelo materialismo e a depressão. Pois Manzotti oferece bálsamos, muito bem embalados, num programa de autoajuda.

Ele não está necessariamente de acordo com a pregação do papa Francisco – muito centrada na justiça social -, nem nos planos de pastoral da CNBB, a Conferência dos Bispos do Brasil. Mas não se pode colocar em dúvida que o padre-cantor de Curitiba gera esperanças e atende a uma multidão de gente sem norte e faminta do transcendental. Se isso atende às propostas da Igreja, nos dias de hoje, isto é outra coisa…

O certo é que bons avaliadores dessa guerra já garantem que as arrecadações de Manzotti para a sua rede teriam diminuído muito. A bomba plantada por padre Dougherty poderia estar significando perdas milionárias de doações. Milhões. Se a contribuição está indo para padre Dougherty e sua obra evangelística, ainda não se sabe. Só o tempo e a confrontação contábil das duas redes poderão dizer.

Mas quem aceita como válidas as contabilidades celestes, do sagrado?

Por exemplo: quem pode ter alguma certeza sobre os $ milhões gerados mensalmente em poderosas igrejas, como a Universal do Reino do Deus ou a da Igreja Mundial do Poder de Deus, comandadas por Edir Macedo e Valdemiro Santiago? Eles têm a apoiá-los, assim como RR Soares, enormes recursos a partir de infraestrutura invejável e o controle de centenas e centenas de horas/mês em programas de televisão.

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

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