
Quem assistiu à série “Black Mirror”, há de se lembrar do primeiro episódio, “Hino Nacional”. O primeiro-ministro britânico é acordado com uma notícia: a princesa foi sequestrada. Quando se junta à equipe de investigação, é informado que um vídeo foi postado com as exigências do raptor. Não se trata de dinheiro, mas de um sacrifício. O governante terá que copular com uma porca ao vivo e em rede nacional. Parece-lhe absurdo. A todos parece absurdo, porém a ameaça é real. O sequestrador diz que se sua exigência não for atendida, ele matará a princesa.
O DEDO PERDIDO
A chefe da investigação propõe criar um vídeo falso, mas o sequestrador descobre suas intenções e como reprimenda envia um dedo, supostamente da princesa. Pressionado pela família real e pela população através de milhares de mensagens no Twitter, o primeiro-ministro resigna-se. Antes que a transmissão chegue ao fim, a princesa é encontrada em uma rua vazia de Londres, no momento em a maioria da população está diante dos monitores de TV assistindo o sacrifício do ministro. O sequestrador libertou-a uma hora antes, o dedo pertencia ao criminoso e ele se enforcou.
HUMILHAÇÃO E RESPEITO
Eis aqui uma alegoria extremada que trata de humilhação e respeito. O primeiro-ministro submete-se a uma situação vexaminosa, mas ganha o respeito da população. Um ano depois, ele é reeleito pelo parlamento, a princesa anuncia que está grávida e todos parecem ter esquecido o episódio. Com exceção da esposa. Ela não o perdoa.
‘ELES’ CONTRA ‘NÓS’
O ato, no entanto, diz muito sobre os rumos que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá tomar nos próximos meses. Condenado em segunda instância e ameaçado de prisão, ele subiu ao palanque na terça-feira, em São Bernardo, berço de sua ascensão política, para repisar o “eles” contra “nós”, convencer um público de convencidos e vitimizar-se, afirmando estar sendo castigado por não atender exigências da elite.
Ainda ameaçou: “Nós vamos voltar”.
O ERRO E A NEGAÇÃO
Em nenhum momento, Lula fez uma autocrítica. Pelo contrário disse que os erros do PT comparados com os erros dos outros (partidos) não são nada.
Ele, como se sabe, também não sabia de nada. Aos 72 anos, Lula recusa a humilhação. Pois deveria. O primeiro episódio de Black Mirror – disponível no Netflix – é uma inspiração. Por óbvio não se pede aqui que Lula se resigne a uma porca imensa diante das câmeras. Mas o episódio está muito próximo disso. Uma confissão, por exemplo. “Eu errei”, diria ele. E fim.
SENADORA RADICAL
Mas não se detecta um laivo de arrependimento no ex-líder metalúrgico.
Cercado de seguidores fanáticos, alguns famélicos, desesperados – o que não é o caso da senadora Gleisi “Radicalizar” Hoffmann –, Lula parece preparado para um destino melancólico. Aquele que empurra personagens da história para a lata do lixo.
INSPIRAÇÃO
P.S.: Os produtores de “Black Mirror” negam, mas o primeiro episódio da série remete a um trecho da biografia do ex-primeiro-ministro David Cameron e à provação que ele teria se submetido para ingressar numa sociedade secreta em Oxford. Disponível no Google para os curiosos.
