terça-feira, 12 maio, 2026
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Lava Jato: “PT e PSDB são farinha do mesmo saco”, sentencia procurador

(Final)

Diogo Castor de Mattos, procurador sem “rabo preso”
Diogo Castor de Mattos, procurador sem “rabo preso”

Diogo Castor de Mattos, 29, o procurador da República (MPF) mais jovem da Lava Jato, na operação que, com o respaldo do juiz Sergio Moro, está estabelecendo um novo paradigma de percepção da justiça, é direto em suas observações.

Acha que partidos políticos – como PSDB e PT – “é tudo farinha do mesmo saco”. E tem uma explicação para o novo tipo humano que atua nas investigações sobre crimes do colarinho branco:

“É (gente) uma geração que já vivenciou um regime democrático, a Constituição de 1988, não tem “rabo preso” e que não deve favor a ninguém… Idealista, formada por pessoas vocacionadas.”

Na avaliação de Diogo, ainda, essencial para os bons resultados da Lava Jato é o fato de todos da força tarefa saberem trabalhar em equipe: não há decisões isoladas, diz ele.

A entrevista do procurador da Lava Jato será apresentada também na edição de janeiro da revista Ideias, de Fábio Campana.

NOVO PARADIGMA

Diogo Castor de Mattos em palestra sobre delação premiada na FEMPAR
Diogo Castor de Mattos em palestra sobre delação premiada na FEMPAR

A – Na sua opinião, inicia-se com a Lava-Jato um novo paradigma. Como você o define?

R – Acho que é uma intolerância a essa corrupção sistêmica e generalizada que vivenciamos nas esferas privadas e públicas do país. Até a decisão do Supremo de ontem [prisão de Delcídio] está aí para mostrar.

Esse novo paradigma nasce com o juiz Sérgio Moro.

A – Pode citar nomes da Polícia Federal que foram vitais nesse processo?

R – Marcio Anselmo e Igor Romário, delegados.

A – Como nasceu em você essa visão que o caracteriza como alguém que “espicaça” a corrupção?

R – Acho que é uma questão de família. Sempre tive esse inconformismo, essa indignação. Muito politizado, desde criança, de querer saber sobre política. Lia jornal.

Mas não pertenci a nenhum movimento estudantil. Até porque minha politização me permitiu verificar que os partidos políticos no Brasil não são sérios. Desde criança eu tinha essa percepção de que eles não eram ideológicos, e sim econômicos.

“Corrupção não está vinculada a um partido. Tanto que no Paraná é o PSDB, e esses escândalos estão aflorando, gravíssimos…”

ONZE PROCURADORES

A – Vamos qualificar a Lava-Jato…

R – A operação é formada por onze procuradores, atualmente em Curitiba. Em torno de sete delegados, também daqui. Dezenas de policiais – quarenta, acredito. Pelo menos uma meia dúzia de auditores.

Cito (com destaque) Roberto Leonel, auditor fiscal da Receita Federal. Chefe do Setor de Inteligência.

A – Quais as principais características dele e dos delegados que você citou?

R – Todos muito perseverantes, muito bem preparados. Para se atuar nisso você precisa ter uma boa bagagem.

O grupo sabe trabalhar em equipe. É uma característica imprescindível, pois as decisões não são tomadas individualmente.

A – Você pode fazer uma análise de como se comporta a nova geração de juízes, delegados e promotores?

R – Eu acho que é uma geração que já vivenciou um regime democrático, a Constituição de 1988, não tem “rabo preso” e que não deve favor a ninguém… Idealista, formada por pessoas vocacionadas.

“A – E você nunca se ligou a nenhum partido político?
R – Não. E nunca vou me ligar. É uma questão pessoal. PT e PSDB, pra mim, é tudo ‘farinha do mesmo saco’”.

SEM PARTIDOS

A – E você nunca se ligou a nenhum partido político?

R – Não. E nunca vou me ligar. É uma questão pessoal. PT e PSDB, pra mim, é tudo “farinha do mesmo saco”.

A – O que vem, mais ou menos de imediato? A Lava-Jato vai durar muito tempo ainda? Vai se desdobrar? Com ela nasce uma nova escola de Ministério Público, de Polícia? Como você vê a operação? É simplesmente um episódio em torno da roubalheira da Petrobras?

R – A gente espera que não. Temos um trabalho firme com as medidas anticorrupção. Medidas legislativas para mudar o sistema. Por exemplo, tornar os processos mais rápidos, porque atualmente o sistema é muito moroso.

A percepção que eu tenho é de que a justiça estadual é mais “conservadora”. Vemos algumas decisões de soltura inexplicáveis, como por exemplo a de Luiz Abi…”

A – Mas isso depende de uma mudança estrutural

R – Sim. Mas estamos trabalhando para fazer projetos de lei de iniciativa popular. Coletando assinatura. No momento, temos 710 mil. É assim que acreditamos que podemos transformar o Brasil.

A – Há alguma novidade se encaminhando nos desdobramentos da Lava-Jato?

R – Para esse ano, não.

A questão do Delcídio foi uma novidade, um marco histórico. A gravação foi didática.

Foi preparada pelo próprio Bernardo Cerveró.

Eu não participei [da investigação], porque foi da alçada de Brasília.

“…a gente encara com naturalidade o inconformismo dos investigados.
Investigamos fatos, não pessoas nem partidos.
Pessoalmente, acho que corrupção não tem bandeira nem partido. É uma questão de sistemas de poder. Um sistema já corrupto, independentemente de quem estiver lá.
Por exemplo, o estado do Paraná. Acho que é um estado extremamente corrupto”.

A – Como vocês lidam quando pessoas falam que “isso é perseguição política, porque só tem gente do PT”? Essa ideia de que se você está denunciando um partido, é a favor do outro?

R – Inconformismo normal de quem está sendo investigado. A gente encara com naturalidade. Investigamos fatos, não pessoas nem partidos.

Pessoalmente, acho que corrupção não tem bandeira nem partido. É uma questão de sistemas de poder. Um sistema já corrupto, independentemente de quem estiver lá. Por exemplo, o estado do Paraná. Acho que é um estado extremamente corrupto.

A – Mas por quê? Quais os indicativos gerais?

R – É só ver esses escândalos da Receita Estadual, e você tem uma noção da corrupção já enraizada nesse estado há décadas.

Fala-se que desde a década de 80 paga-se propina pro auditor fiscal.

Sempre o mesmo esquema de direcionar campanhas, promover o enriquecimento pessoal de agentes públicos…

A – E qual é a tendência de que aflora nesses escândalos recentes?

R – A percepção que eu tenho é de que a justiça estadual é mais “conservadora”. Vemos algumas decisões de soltura inexplicáveis, como por exemplo a de Luiz Abi…

Corrupção não está vinculada a um partido. Tanto que no Paraná é o PSDB, e esses escândalos estão aflorando, gravíssimos…

A – Há pessoas que tentam plantar algo contra vocês?

R – O que tentam é produzir dossiês, notícias de internet…

Podem descobrir uma que se fez na 4ª série…

Teve uma época em que compraram dossiês em relação aos delegados. Coisas pessoais, da vida pessoal. Quando não se consegue rebater os fatos, bate-se no interlocutor.

A – Você acredita que houve vazamento da delação do Cerveró? E quem teria vazado?

R – Não tenho conhecimento direto sobre esse assunto, por isso é difícil de responder.

Quanto à polícia, temos dificuldade de falar, pois eles ficam do outro lado da cidade. Ficamos sabemos de coisas pela imprensa.

A – Vocês têm um processo de colaboração com o Ministério Público Estadual?

R – Somos bastante amigos. O próprio [Gilberto] Jacoia foi meu orientador de mestrado. O pai do Deltan é procurador aposentado. Meu pai foi procurador.

Fui promotor durante nove meses, em Jaguaraíva e Guaratuba, as duas principais comarcas. Carlos Fernando foi promotor. Januário, colega aqui, foi promotor.

CORRIGINDO

A série de duas entrevistas com o procurador da República, Diogo Castor de Mattos, da Lava Jato, de quarta, 2-12, merece pequenas correções, mas importantes:

O cargo de Diogo é de procurador da República (MPF) e não procurador federal como registrado por este espaço; o certo é auditor da Receita Federal e não procurador fiscal da Receita Federal como erroneamente citado.

Leia mais: Lava Jato: Diogo vê PR como “Estado extremamente corrupto”

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