
Eu era um jovem, entrado nos 20 anos, quando vi pela primeira vez o monumental escultor, pintor, fotógrafo Frans Krajcberg em Curitiba. Ele, por vezes, passava pela Galeria Cocaco, no final dos 1950, começo do 1960, casa já sob a direção de Eugênia Petry, seu pai, Pedro, e Demétrio, o marido dela.
O endereço, no começo da Rua Ébano Pereira, perto da Boca Maldita – espaço que deu lugar a um edifício comercial e grande estacionamento para o público em geral -, era o grande “point” cultural da cidade. Nada acontecia de importante na área, na cidade, sem que passasse pela Cocaco.
BATENDO PONTO
Os grandes das artes plásticas da cidade faziam de lá seu ponto de obrigatório encontro, a maioria das vezes no final da tarde.
Como no começo dos 1960 começava a escrever uma coluna dominical sobre artes plásticas no Diário do Paraná (mais resenhas, nunca fui um crítico), passei também a ser habitué daqueles espaço onde encontrava monumentos como Viaro, De Bona, Nísio, Lopes; e outros que já eram bem aceitos pela crítica e mercado, como Fernando Calderari, Helena Wong, Rosa, Luiz Carlos de Andrade Lima, Fernando Veloso; e mais ou menos em seguida, a geração de Juarez Machado, Suzana Lobo, de João Osorio Brzezinski, Jamaia, Rones Dumke…
NA KLABIN, LIBERDADE
Vítima do nazismo, perdera a família na Polônia. E se refugiara na Rússia, onde estudaria Engenharia. Imigrando para o Brasil em 1948, em busca de novos horizontes, Krajcberg foi acolhido pela direção da Klabin. Foi trabalhar em Telêmaco Borba.
Rebelde como só ele, não aceitou o dia a dia disciplinado do grande complexo papeleiro: abandonou tudo e foi morar numa cabana, debaixo de pinheirais naquele espaço preenchido por florestas. Depois seguiu para São Paulo, de cuja Primeira Bienal, em 1951, havia participado.
CABANA NA FLORESTA
A escolha da floresta, em Telêmaco, como abrigo foi sinal claro do que viria depois: o artista se projetaria mundialmente por sua obra em defesa do meio ambiente, da preservação das florestas, o que o levou, nos últimos 15 anos, a viver em Nova Viçosa, Bahia, em seu refúgio ecológico. Seus bens todos – especialmente o refúgio – foram doados ao Patrimônio Histórico da Bahia.
NADA A ACRESCER
Não tenho nada a acrescentar sobre Krajcberg, cuja morte, no dia 15, todos lamentamos. Mas faço recomendação – Visitem parte da monumental obra de Krajcberg, que está em mostra permanente no jardim Botânico desde 2003.
NO JANTAR
De qualquer forma quero citar meu último encontro com esse personagem maior das artes e da defesa da vida. Ele deu-se há uns 15 anos. Foi quando, a convite de Jaime Lechinski e Leila Pugnaloni, jantei na casa do casal com Krajcberg. O genial artista estava carregado de enorme energia interior. Mas continuava de uma humildade impressionante, cativante, marca registrada dessa alma pura que foi ele, defensor da vida, a partir da defesa da Terra.
