
À frente da Ancestry.com, britânico Mark Thompson tem no currículo a consolidação do bem-sucedido modelo digital do ‘NYT’ Por André Miranda
Para Mark Thompson, a verdadeira revolução do jornalismo ainda está por vir. Um dos responsáveis por consolidar o “The New York Times” como uma das principais fontes de informação digital do mundo, Mark Thompson diz abrir sites de notícias “umas 150 vezes por dia”. O britânico foi o CEO do jornal americano entre 2012 e 2020, e hoje é presidente da empresa de mapeamento genealógico Ancestry.com. Em entrevista por telefone ao GLOBO, Thompson falou sobre os desafios e a estratégia bem-sucedida que levaram o “Times” a uma carteira de cerca de 8 milhões de assinantes.
NA PANDEMIA
Como foi a adaptação do “New York Times” para continuar fazendo jornalismo durante a pandemia?
O “Times” já fazia simulações para desastres. Já tivemos exercícios em que perdíamos nossa sede, e a Redação tinha que funcionar remotamente.
Então, quando decidimos mandar as pessoas para casa em março de 2020, foi uma adaptação suave. É claro que, depois, nós tivemos que lidar com dificuldades como ter os filhos pequenos ao lado do trabalho ou a internet funcionar mal.
Também era difícil pela natureza das reportagens: como avaliar os riscos e escolher os equipamentos de proteção para entrar em hospitais? Mas não paramos de fazer jornalismo.

MENTIRAS E BOATOS
Foi mais desafiador lidar com a quantidade de mentiras e boatos que passaram a circular sobre o coronavírus?
Foi um momento bastante confuso política e culturalmente para o jornalismo. O que tornou tudo mais difícil é que ninguém sabia o que estava acontecendo e o que esperar. Nem os especialistas concordavam. E tudo isso rapidamente foi politizado, líderes políticos passaram a negar o que acontecia e até a alegar que eram invenções de seus adversários. O “Times” já vinha enfrentando esses desafios com o ambiente selvagem da América no governo Trump. Um ambiente que provavelmente ficou ainda mais desafiador com a campanha presidencial.
AMOR À VERDADE
Aristóteles disse que amava Platão, mas amava ainda mais a verdade. Não há político que seja mais importante do que a verdade. Quando veio a eleição de outubro de 2020, o “Times” já lidava havia mais de três anos com um líder político que não gostava do jornalismo objetivo, que sugeria haver uma conspiração política contra ele e que estava constantemente aconselhando o público a não acreditar no que o “Times” publicava. E Trump não estava sozinho, muitos políticos tentam alegar que o que imprensa publica é uma farsa.
Como se lida com essa situação?
Fizemos algumas coisas. Por exemplo, nós lançamos um podcast em 2017, o “The Daily”, que é um sucesso. Parte da ideia dele é que você possa saber como o nosso jornalismo funciona. Então as pessoas podem ouvir os jornalistas falando sobre como eles reportam alguma história, para que o ouvinte saiba como foi a apuração, saiba com quem o repórter conversou. É para que as pessoas compreendam que o jornalista não inventou uma história sentado na mesa, que ele pesquisou com cuidado e checou as informações.

JORNALISMO PROFISSIONAL
No GLOBO, percebemos que as pessoas buscaram mais o jornalismo profissional durante este período conturbado da pandemia. Aconteceu o mesmo com o “New York Times”? -Muito. Houve mais demanda por informação confiável, em parte porque as pessoas estavam muito assustadas com a doença e queriam orientações de segurança. Outro ponto é que as pessoas passavam mais tempo em casa, e tinham mais tempo para consumir notícias. Para as empresas que lidam com assinatura digital, foi um momento diferenciado. Netflix, Amazon Prime, HBO Max, Spotify, todos esses serviços de entretenimento digital cresceram bastante. E o mesmo aconteceu com assinaturas para o consumo de notícias. O “Times” teve de longe seu melhor ano em assinaturas digitais. Esse modelo de assinatura digital era muito questionado quando você entrou no “New York Times”, em 2012. Hoje, muito graças ao sucesso de vocês, ele se tornou um padrão para a indústria.
DEVOLVER EM QUALIDADE
Como foi essa construção?
Para você ter uma boa Redação em praticamente qualquer lugar do mundo e em qualquer época do jornalismo, foi preciso somar o dinheiro da publicidade com o dinheiro dos leitores. Ao pedir para alguém pagar por um produto, você se obriga a investir na qualidade. É uma relação saudável. Mas, para dar certo, é preciso pensar também na geometria de pagamento.
Uma das coisas que o “Times” fez foi começar com um preço de assinatura muito barato, uma espécie de assinatura introdutória de um ano, para que a pessoa se acostume com o jornal. Construir o hábito é essencial. Houve meses de 2020 em que o “Times” alcançava 240 milhões de pessoas, e naquele momento tinha cerca de 5 milhões de assinantes. Então a gente chegava a 235 milhões de leitores não pagantes.
É como uma rede que pega alguns dos peixes grandes, mas não os pequenos. Esses pequenos que leem as histórias, porém, podem se sentir dependentes do jornal até optarem pela assinatura. Uma das razões por que desgosto do termo “paywall” é que ele sugere que estamos deixando pessoas de fora. Mas, na verdade, estamos criando uma política em que as pessoas experimentam as notícias.
ONDE FUNCIONA?
É um modelo que funciona em qualquer lugar do mundo?
O que tenho certeza é que não faz mais sentido a teoria de que é impossível fazer as pessoas pagarem por notícias na internet. Mas isso não significa que todos vão conseguir. Eu acho que o erro da indústria em muitos países é achar que ou você está dando alguma coisa de graça ou está cobrando por ela. Não é assim.
Na Netflix, por exemplo, você fica sabendo que eles têm uma ótima série e pode ver o trailer para decidir se ela vale a pena. Você precisa deixar as pessoas saberem o que você tem a dizer antes de cobrar. Em alguns países, pode-se levar anos até que se descubra que os jornais de qualidade estão tratando os consumidores digitais da mesma forma como sempre trataram os consumidores do impresso.
PRÓXIMAS REVOLUÇÕES
Você arriscaria dizer quais as próximas revoluções do jornalismo?
Quando eu cheguei ao “Times”, nós fazíamos um jornalismo voltado para o fechamento do impresso. Só que notícias não funcionam assim. Notícias surgem continuamente, são uma série de eventos 24 horas por dia, sete dias por semana. É incrível que ainda haja jornais segurando informações para o impresso do dia seguinte. Trabalham para os sites durante a manhã, mas à noite se voltam para o impresso.
O pico de consumo de notícias é às 7h na maioria dos países, então você deveria ter mais gente na Redação às 6h do que às 18h. Quando isso acontecer, será uma revolução para muitos jornais. Outro ponto é o que a inteligência artificial pode fazer pelo jornalismo.
Para investigações, por exemplo, pode-se encontrar padrões em dados e compreender com profundidade uma situação. As máquinas também vão nos ajudar a saber mais sobre como as pessoas consomem notícias. Por fim, também acho que chegaremos a um jornalismo que utiliza mídias diferentes para sua narrativa.
Você começa num texto, vai para um vídeo, depois um áudio, aí imagens de arquivo. Houve experiências, mas ainda não fizemos a revolução de verdade. Deveríamos aprender com os videogames sobre como tornar uma história verdadeiramente imersiva.
