
Para mim, não chega a ser uma surpresa o tipo humano que Hélio Cadore mostra ser já no primeiro contato. Realidade que sua história de vida confirma.
Começa pela empatia que estabelece com o interlocutor – uma qualidade muito frequente entre os sulistas brasileiros assinalados pelo DNA italiano. No caso dele, essa qualidade não é a dos do Sul da Itália, mas daqueles outros italianos, ao Norte, que acabaram igualmente formando uma referência psicológica da população da “Bota”, cognome pelo qual conhecemos o país hoje, nação definida a partir da unificação política nos anos finais do século 19.
Seus avós paternos e maternos e toda sua ancestralidade anterior nasceram no Norte da Itália, no Vêneto, Tirol e adjacências. Um estudo aprofundado até poderá identificar sangue germânico nesse homem ameno (seria um pouco austríaco?), setentão, estatura avantajada, “a própria imagem da saúde”, como diriam os ingleses.
2 – IDENTIDADE
Trabalhar, em antropologia social, no “ethos” catarinense de populações de origem italiana, sobre como viviam e como construíam suas vidas no século passado e também no 19, é matéria fascinante. A mim me impressiona especialmente examinar como os colonos do século 19 e do 20 mantiveram acesas algumas identidades fortes. Uma delas, o núcleo familiar como começo e fim do dia a dia; não esquecendo de outro o traço, a catolicidade: a fidelidade ao catolicismo romano.
O hoje setentão Cadore teve grande parte de seu cenário de futuro montado na casa paterna – uma pequena propriedade rural, que ele denomina de “roça” -, em Nova Trento, sul de Santa Catarina (o nascimento foi em Itajaí), numa família na qual ele foi o nono filho de um total de 13. Sua história repete a de multidões da mesma origem, mas, claro, com nuanças só dele. E admiráveis.
3 – A GRANDE SÍNTESE
Não é exagero, Hélio Cadore transpira franqueza, enquanto vai falando do presente e olhando para o passado distante e também para o mais ou menos próximo.
Concentra-se em realidades que resumem sua história de vida, de peculiar capacidade de prestar serviço, distintamente comunitário. Assim – testemunham seus amigos próximos -, ele quis ser sempre um eficiente profissional quando, por exemplo, economista, abraçou a ideologia das pequenas e médias empresas, a partir de 1974, em Curitiba.
Foi quando ingressou no extinto Ipag, de formação de quadros para gerência de empresas pequenas e médias. Do Ipag geraram-se outras siglas, novos serviços com o mesmo objetivo; e com igual participação de Cadore, até desembocar no Cebrae/PR, de que foi o dirigente modernizador e inventivo no Paraná, por muitos anos.
Cadore seria, por tudo de seu histórico (que é muito mais importante do que o bom currículo que o define) dos últimos exemplares de um padrão de homens montados sob as configurações especiais: da família, do respeito ao estudo e ao trabalho e da fidelidade a certas vocações?
Acho que sim, mas não sou pessimista: Hélio Cadore, como outros que foram afinados pelo mesmo diapasão, semeou em boa e fértil terra. E uma de suas melhores colheitas será de não fácil avaliação: as centenas de crianças e adolescentes da “Serpiá”, a ONG que fundou e lidera, com apoio de amigos espalhados por Curitiba. São meninas e meninos com distúrbios comportamentais. Para eles, a ONG distribui amor, acolhida, tratamentos médicos, psicológico e outras terapias. Com enorme sucesso.
E como quem não quer nada, Cadore me pergunta, assim dimensionando a tarefa da “Serpiá”:
– Como é mesmo aquela afirmação, tão repetida, sobre a criança ser o pai do homem?
(Trechos do perfil de Hélio Cadore retirados do volume 8 do livro VOZES DO PARANÁ, a ser lançado em 6 de outubro).
