A fala é pausada. A figura pode lembrar o pai de Pinóquio, Gepetto (faltam os óculos), com os competentes cabelos brancos sinalizando muitos anos de bondade.

Ou, diríamos melhor, lembra “um Papai Noel peso-mosca”. Nem por isso menos afável e disponível ao próximo, o que se percebe desde o primeiro contato com ele.
Impossível não se gostar do personagem já no primeiro aperto de mão. Se aprofundarmos o olhar, aflorarão outras marcas particulares, muito pessoais, desse ator da vida paranaense, mais especialmente de Curitiba.
Uma dessas marcas é a inesgotável e substantiva memória de que é dono, de momentos únicos da vida política e social do Paraná. E também de meandros da profissão que escolheu, antigamente entendida como um sacerdócio.
O qualificativo “sacerdote” ajusta-se com perfeição à fisionomia psicológica desse médico e à sua história de vida, realidades acentuadas por um perfil a lembrar também o de um asceta.
O sacerdote e o asceta são imagens que bem casam com Gerson Zafalon Martins, 71, “um médico como os de antigamente”, como diriam nossos pais e avós, para qualificar a semelhança de Gerson com aqueles “esculápios” (vocábulo um tanto em desuso, é certo). Eram homens que faziam de tudo, no interior difícil e também nos centros maiores, buscando salvar vidas debaixo de situações materiais absolutamente adversas. Tudo sob o signo da dedicação integral à ars curandi, a todo custo.
2 – REMUNERAÇÃO
Gerson não teve tempo para ganhar dinheiro, menos ainda apetite para correr atrás dele. A começar porque desde o início da vida universitária, na Universidade Federal do Paraná (na qual se formou em 1971), virou um “residente interno” (ao lado de outros acadêmicos), vivendo por cinco anos no espaço do Hospital Evangélico de Curitiba. E lá aprendeu, na prática diária, a se consumir na Medicina e por ela.
No hospital, tinha a segurança de moradia decente, cama, comida e roupa lavada. E o aprendizado que recebia, de incalculável valor. Mais que isso: no Evangélico embrenhou-se logo na prática da Medicina (fora do horário das aulas), a partir do primeiro ano, recebendo orientação e exemplos de craques, nomes da dimensão de um Daniel Egg, lendário diretor do HE, de quem foi auxiliar em inúmeros atos cirúrgicos. E com quem aprendeu a “geografia” do corpo humano nas suas minúcias essenciais e vitais. Uma geografia que não aceita “acidentes” de percurso.
3 – AS CIRURGIAS
Como esquecer, por exemplo, da primeira cirurgia de apendicite, “feita de pele a pele”, sob a orientação do doutor Egg? Sem ter se especializado, oficialmente, em cirurgia, nela foi evoluindo, chegando a operar em situações mais complexas, como pulmões, depois de formado.
Gerson é conhecido por novas gerações de médicos pela militância no mundo profissional: foi presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) – encarnando a figura do conciliador e empreendedor preocupado com a qualidade da ciência médica; foi vice-presidente e também secretário do Conselho Federal de Medicina, em Brasília, e no CFM continua atuando, como o faz há 15 anos, como membro de câmaras que se voltam a questões muito relevantes, entre elas, as de Bioética e Telemedicina. Nessas câmaras trata de passar sua visão humanista, matéria importantíssima na sua militância pela qualidade da Medicina que se deve praticar no Brasil.
4 – HOSPITAL E PRISÃO
A verdade é que Gerson Zafalon Martins é um baú de surpreendentes experiências. Uma das muito ricas, e da qual mostra pouco ressentimento, foi a prisão de ano e meio, cumprida em Curitiba, no final dos anos 1960, começo de 1970. A alegação dos tribunais militares do regime ditatorial foi a de que o estudante, às vésperas da formatura, infringira a Lei de Segurança Nacional, pela prática de “atos subversivos”.
Não entrei em detalhes, mas acho que a condenação (inicialmente de um ano, aumentada para mais meio depois do recurso que fez à Justiça Militar) deve ter sido por suas posições libertárias, algumas delas como presidente do então importantíssimo DANC (Diretório Acadêmico Nilo Cairo, dos estudantes de Medicina da UFPR). Outra possível foi a de Zafalon ter apoiado a histórica invasão da Reitoria da UFPR, por universitários descontentes com o regime de força e medidas de exceção que prevaleciam na academia.
Em lugar de lamentar o tempo perdido na prisão (primeiramente no Ahú, depois em cela do Hospital da Policia Militar do Paraná, em Curitiba), Gerson Zafalon Martins prefere rememorar dois momentos ainda daqueles dias: presidindo o DANC, “decretou” que a partir de sua gestão os empregados da instituição seriam regidos pela CLT, com carteira assinada. “Eles me agradeceram, em comitiva, dizendo que a partir dali não seriam mais considerados indigentes para efeito de atendimento hospitalar. Tinham ganhado uma profissão”, recorda. Quando fala da prisão, mostra-se tomado por grande sentimento de gratidão ao advogado e professor (in memoriam) Francisco Muniz, que o apoiou nos tribunais.
(Trecho do perfil de Gerson Zafalon Martins que estará no volume 8 de meu livro Vozes do Paraná, a ser lançado às 19 horas de 6 de outubro, no Palacete dos Leão (sede do BRDE), Av. João Gualberto).
