Daniel Snege, Jamil Snege e Vera Bachmann Snege
Nas últimas semanas, dois jornais dos quatro mais importantes do país, O Estado de São Paulo e O Globo, têm dado grande cobertura à vida e obra do escritor curitibano Jamil Snege, autor, entre outras preciosidades, de Como me fiz por si mesmo, e que se iniciou nas letras no começo de 1960 com O Tempo Sujo, uma novela editada quase artesanalmente em Curitiba.
O começo dos 60 era tempo em que formávamos um grupo inseparável com Jamil: Aramis Millarch, João Osorio Brzezinski, Cleto de Assis, Roberto Fonseca, eu e outros poucos mais, como Roberto Gaida.
OS 500 EXEMPLARES
O súbito (mas muito justo e merecido) interesse por Jamil Snege vem, curiosamente, ao mesmo tempo em que a novíssima Livraria Arte e Letras (Alameda Dom Pedro II, Batel) começou a vender 500 exemplares de edições de diversos livros do Turco.
Aliás, essa livraria surge no cenário cultural do país com grande vigor, havendo, nos meios literários, quem chegue a apontá-la como vinculada a um poderoso movimento político- empresarial. Será?
Prefiro vê-la como pura atividade empresarial, sem finalidade proselitista ou interesse de formar uma grande frente cultural em favor de certos políticos (como se propala a boca pequena).
FALTOU COMBINAR…
Até aí, a venda poderia ser olhada como “um presente” especialmente às novas gerações, boa parte delas (da inteligência jovem), interessada mas sem acesso à obra de Jamil.
O problema reside no detalhe e no imbróglio que se montou: Daniel Snege, 42, fotógrafo, filho do primeiro casamento de Snege com a professora e ambientalista Luiza Helena Snege, não foi consultado, muito menos autorizou a venda, na condição de herdeiro do escritor.
Os livros – 500 exemplares, segundo noticiado, foram recolhidos, em parte, pela viúva de Snege, Vera Bachmann, da Livraria Ghignone. Outra parte foi retirada da ex-agência Beta Propaganda, onde Jamil guardava parte de seu acervo.
NÃO PRESTOU CONTAS
Conheço Daniel desde que nasceu, sempre fui amigo de Jamil e Luiza e por anos convivi com Vera.
Dele ouvi o seguinte: “Não autorizei, essa venda, ela não poderia estar acontecendo”.
E a explicação é simples:
Daniel é um dos três herdeiros de Jamil – os outros são Vera e o filho do casamento dela com Jamil.
Mas Daniel pediu-me “um tempo”, teria de consultar o advogado para se manifestar com maior precisão.
Não deixou de registrar, no entanto, que embora Vera seja a inventariante, nunca lhe prestou contas de suas ações. Nem de aluguel de uma cabana propriedade do espólio, localizada em Santa Felicidade. “Ela sequer fez o inventário”, desabafou Daniel.