
Em duas entrevistas publicadas um dia após a outra – na Gazeta na quarta (27) e na Folha de S. Paulo nesta quinta (28) – o senador paranaense Alvaro Dias, do Podemos, diz que se, eleito presidente, pretende refundar a República em 100 dias. Isso significa impor medidas saneadoras, aprovar medidas que acabem com o foro privilegiado, adotar uma política de desestatização e de enxugamento da máquina pública.
VOTO DE CONFIANÇA
Os 100 dias de Alvaro são também o período em que ele acredita que poderá adotar medidas duras respaldado pelo voto de confiança do eleitor.
HIPÓTESE
Claro que se trata de terreno hipotético. O senador tem apenas 4% das intenções de voto, pertence a um partido pequeno e, admite, é pouco conhecido nas fronteiras que avançam o Paraná.
AVERSÃO A CELEBRIDADES
As entrevistas aos dois jornais, no entanto, refletem bem a ascensão de seu nome entre os presidenciáveis com chances de ganhar a preferência do eleitorado. Num terreno minado como o que leva ao Palácio do Planalto, é pródigo que candidatos de brilho local – caso de Alvaro Dias – venham a ganhar a simpatia do eleitor, sob o argumento de fugir a “tudo que está aí”. O senador está na política há 50 anos e tem aversão ao nome de celebridades que se apresentam como postulantes. Recusa-se, inclusive a ser incluído ao lado delas em pesquisas de intenção de voto. Aposta em sua história de coerência. Por ser contra aos privilégios concedidos a políticos, recusou a aposentadoria de governador, a verba indenizatória do Senado e o auxílio-moradia.
GRITOS DA RUA
A seu favor está o descrédito do brasileiro à classe política e aos partidos, principalmente os de grande envergadura, como PT e PSDB.
Alvaro, que se elegeu tucano em 2014, viu e ouviu os gritos da rua antes de decidir-se pelas legendas nanicas onde seria líder incontestável.
Primeiro, filiou-se ao PV, em 2016. Depois ao PTN, transmutado em Podemos.
COM A BENÇÃO DE FHC
Diz que o PSDB é um partido paulista e lembra que o senador mineiro Aécio Neves só foi candidato a presidente, em 2014, porque contou com a benção de Fernando Henrique Cardoso, um tucano intrinsecamente ligado a São Paulo.
EMPATADO COM ALCKMIN
Há outro dado animador. Hoje nas pesquisas, Alvaro aparece empatado com o governador Geraldo Alckmin, que já foi candidato a presidente e disputou o segundo turno das eleições com Lula, em 2006.
REJEIÇÃO
Alvaro mira no índice de rejeição. O de Lula e Bolsonaro, líderes nas pesquisas, atinge 70%, e trata-se de um voto quase irreversível.
Identifica aqueles em que o eleitor “não votaria de forma alguma”, conforme expressão dos institutos de sondagem eleitoral.

O EXEMPLO DO MUNDO
Sua migração partidária explica-se dessa maneira. Trata-se de uma tentativa, segundo ele, de fazer com que sua pré-candidatura à presidência vingue. Preferiu um caminho tortuoso, difícil, mas que agora revela-se estratégico. Enquanto “gestores” como João Doria e não-políticos como Luciano Huck ou Joaquim Barbosa desmoronam em suas pretensões, Alvaro Dias adota a tática de vencer batalhas pequenas para conquistar grandes guerras. Não se trata apenas de uma metáfora. Esse é o histórico de campanhas recentes na política mundial.
