Por Fernando Simonetti – Talvez pareça estranho dizer que descansar também exige algum esforço, quando seu aparecimento natural deveria ser mera consequência do cansaço.
Trabalhamos, estudamos, corremos, pensamos, discutimos, conversamos e repetimos diariamente um tipo atualizado de rotina, normalizada e validada por…nós.
Era previsível que encontraríamos nosso esgotamento em um momento próximo.
Na grande corrida da vida, ultrapassamos esse encontro não muito depois da largada. Apressados em pensamento, desorganizados em ato.
Esse tipo de sofrimento tem sido frequente no trabalho clínico: pessoas exaustas que, quando finalmente encontram um intervalo, não conseguem habitá-lo.
O corpo para, mas a mente é constantemente convocada. Há uma espécie de expediente interno com jornada prolongada. Mesmo longe do trabalho, das obrigações familiares ou das tarefas imediatas, existe uma sensação de que algo deve ser feito.
Instantes depois, isso que sentimos ganha roupagem de culpa.
Antes, a culpa se apresentava como dever. Hoje, aparece como alta performance, organização, produtividade, disciplina, agenda otimizada e uma infinidade de pequenas promessas de que a vida fará sentido quando tudo estiver sob controle.
O problema é que nunca está.
Muito, porque não temos alcance para controlar boa parte da vida. Outro tanto, possivelmente porque passamos a acreditar que temos.
Em que momento tivemos essa convicção de que dar conta de tudo é possível?
Neste lugar, o descanso certamente foi de pausa à ameaça. Enquanto há muito a fazer, há pouco espaço para sentir. Enquanto a rotina exige respostas, certas perguntas permanecem adiadas. Enquanto o dia está cheio, talvez não seja necessário perceber o vazio que aparece quando ele termina.
No fundo, não queremos ter acesso ao vazio. Talvez por isso nos pareça cada vez mais lógico tentar preencher qualquer espaço com o tempo que temos.
E parece que não temos mais tempo pra quase nada.
“Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo”, Ruben Alves.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.
