Por Fernando Simonetti – Saudade e luto geralmente são conceitos complementares, daqueles que se unem e se fundem tanto em vida quanto no que acontece depois dela.
No caminho aprendemos a construir nosso próprio conceito para ambos mas, mais importante do que uma definição pessoal, aprendemos também a vivenciá-los de forma individual. E isto é absolutamente essencial.
A primeira palavra – muito provavelmente impossível de qualquer analogia simplista em outro idioma – parece-nos uma ausência cruelmente injustificada, em um primeiro olhar. E realmente é importante que assim nos atravesse primeiramente, para que sintamos de alguma forma uma espécie de falta diferente daquela habitual que nos assola diariamente.
No entanto, em algum momento, a saudade se transforma justamente através da resposta que justifica a ausência. E essa resposta é criada por nós, pelo tempo e por algum pedaço de convicção de que as coisas não precisam necessariamente se findar no plano material. Há possibilidade de que persistam no trabalho de reencontro em vida. Não mais com o todo mas em partes. E partes somadas, ainda que possam não alcançar o todo, dão-nos pistas de que o todo existiu e foi parte de nós também.
Algumas linhas freudianas, muito caras por sinal, destacavam a importância e a necessidade do luto – especialmente ao diferenciá-lo da condição melancólica. O luto é a constatação da ausência e o redirecionamento do investimento libidinal a outros objetos. Isso, de alguma forma, simboliza a falta, caracteriza-a enquanto certeza parcial e nos dá a condição de continuar vivendo.
Luto e saudade seriam, portanto, razões para uma sequência apesar da dor de alguma interrupção indesejada. Certamente, se a decisão fosse de cada um de nós, guardaríamos os dois conceitos em algum outro lugar e nos contentaríamos em preserva-los a parte, para que os nossos não precisassem desse tipo de trabalho quando a vida nos privasse do elo material.
Mas a vida é assim constituída e tão logo temos capacidade de entende-la, principalmente nestes pontos espinhosos, faz-se necessário que assim seja. Para que nosso amadurecimento passe também por lapidar a dor, dialogar com o sofrimento e fazer dele algum tipo de refúgio de eterno retorno.
Um eterno retorno sensorial, emocional e passional. Retornamos à casa, ao toque, ao abraço, ao cheiro e aos momentos vividos em movimentos sinápticos conectados por flashes em vigília.
Nosso ‘todo parcial’ é também parte de quem se foi e parte da ausência constituída.
Simbolizados, luto e saudade são mais do que simples conceitos complementares. São laço forte de preservação da vida e chancela singular para a aproximação sucessiva do que acontece depois dela.
Talvez o que aconteça seja algo próximo dessa organização sucessiva dos nossos resgates no durante.
Dando ao laço força suficiente para garantir o depois.
Esta coluna é uma homenagem a todos aqueles que nos deixaram cedo demais. Em especial, é uma homenagem ao meu pai.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.
