sexta-feira, 8 maio, 2026
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DELTAN DALLAGNOL NÃO É ELIOT NESS E PROCURADORES NÃO SÃO ‘INTOCÁVEIS’

Os procuradores do MPF de Curitiba
Os procuradores do MPF de Curitiba
Os Intocáveis, de Ness
Os Intocáveis, de Ness

Deltan Dallagnol entrou irregularmente no Ministério Público Federal?

Pois bem. Lei Complementar diz isso mesmo: era preciso dois anos de formação em Direito. Dallagnol não completou sequer um. Graduou-se em 2002 e ingressou no MPF em janeiro de 2003 graças a uma liminar. Liminar que pode ser derrubada.

A lebre foi levantada pelo jornalista Reinaldo Azevedo, não sem razão o odiado das gentes da hora, o Savonarola da imprensa a confrontar a bula papal da Lava Jato. Registro: não há aqui nenhum juízo formado contra a operação da Polícia Federal. Há sim um ceticismo quanto aos heróis que a Lava Jato fez consagrar. Dallagnol é um deles. E todos conhecem o que resultou disso: um Power Point cômico com acusação idem.

A IMAGEM DIZ TUDO

No site do Ministério Público Federal de Curitiba há uma imagem que não deixa dúvida. O que são aqueles nove procuradores enfileirados, com cara de mau, interpretando a si mesmos, arvorando-se ou nutrindo a imagem de “Intocáveis”? Dallagnol é agora o Eliot Ness das candongas?

CASTA?

Na Índia, os intocáveis ou dalits representam a casta mais baixa da sociedade. Intocáveis porque não podem ser tocados, porque se dedicam a trabalhos impuros. É o avesso do que quer Dallagnol. Mas o dalit, no sentido indiano, está presente no Ministério Público. Refere-se aos funcionários comissionados, não-concursados, e portanto sujeitos aos humores da política interna.

“AD AETERNUM”

Estáveis, ad aeternum, são os estatutários e aqui, se mostrou em colunas anteriores, que os concursos públicos na esfera do MP não são dignos da pureza bramani (outro termo indiano) decantada. Muito pelo contrário. Denunciou-se o uso de celulares em dois concursos de promotores substitutos no Ministério Público do Paraná, em menos de um ano. O procurador-geral silenciou. Um silêncio preocupante.

VILÕES E HERÓIS

“Infeliz a nação que precisa de heróis”, disse Galileu Galilei na peça homônima escrita por Bertold Brecht. Que a esquerda não se assanhe. São tantas as denúncias envolvendo próceres do esquerdismo que é difícil encontrar alguma coerência no que é vilania e heroísmo entre os esquerdistas. Reinaldo Azevedo, o jornalista, é inimigo porque é pró-Temer, mas é amigo porque é anti-Dallagnol e anti-Moro. Ora, mas os petistas são pró-Janot, ainda que anti-Moro, ainda que Azevedo também seja anti-Moro, mas também anti-Janot. O grau de maniqueísmo é tanto que só a direita é capaz de superá-lo. Ela é pró-Moro e anti-Lula. Pronto.

HERÓI DE GIBI

Não sei se Deltan Dallagnol tem pretensões políticas. Tudo parece indicar que sim. Essa necessidade de se apresentar como o “menino da lei” lembra mais um super-herói dos gibis e muito menos um procurador de Justiça. Chega a ser risível ainda porque se refere a um jovem que estudou em Curitiba e cujo pai, Agenor Dallagnol, foi membro do Ministério Público Estadual, a instituição onde coabitam bramanis e dalits.

O CORPORATIVISMO DO MP

Lembrei aqui, no devido tempo, a postura de procurador-geral de Justiça que gravou campanha para o PMDB durante a gestão de Roberto Requião no governo. Membros do Ministério Público, portanto, não estão imunes ao poder. Lembro também que a lista tríplice que determina o sucessor da instituição, seja ela federal ou estadual, é passível sim de crítica, uma vez que a escolha é corporativa. Não envolve a população. Se há um herói no Ministério Público ele só se torna heroico aos olhos da comunidade quando a corporação o destaca. É de todo duvidoso, ainda que seja essa a regra.

A VERDADEIRA FACE

O Conselho Nacional do Ministério Público Federal acaba de anunciar um reajuste de 16% para os procuradores e não há sequer um esgar de reprovação. O Jornal Nacional, da Globo, fez o registro, sem maiores comentários. Deixou claro, no entanto, sua contrariedade com a profusão de assessores à disposição de cada um dos 513 deputados da Câmara e o gasto milionário que isso provoca.

De quanto assessores dispõe um procurador? Quantos estagiários? Quantos são seus dias de férias? Quantos são seus privilégios a que o auxílio-moradia é só um deles? Eis algumas questões que podem fazer mudar a face heroica dos membros do Ministério Público. Não para diminui-los diante da sociedade, mas para dar-lhes a devida dimensão.

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