
Na noite de segunda-feira, 6, ao examinar o auditório da OAB-PR lotado, tomado por gente muito representativa da vida curitibana, um público em sintonia com aquele ambiente festivo-cultural, reafirmei velha certeza: a Academia Paranaense de Letras (APL) é mesmo um dos termômetros de Curitiba. Ignorar isso, só por desconhecimento da realidade ou, pior, por má fé.
Isso sem deixar de classificá-la com a expressão que melhor a define – “uma grande associação de notáveis paranaenses”.
Essa é a qualificação mais adequada para a instituição que, entre outras ações necessárias, se empenha pela difusão da matéria História do Paraná nas escolas.
Dia 6 era noite de posse da nova diretoria da APL, que passaria a ser presidida pelo incansável Ernani Buchmann a quem, até, eu deveria dirigir adjetivos de entusiasmo. Isso não fosse o meu papel jornalístico de manter distanciamento crítico em relação àqueles a quem retrato.
Na verdade, por mais moderada que seja qualquer análise em torno dos nomes de Ernani e de Chloris Casagrande Justen – que na ocasião passou a presidência da APL a EB -, é preciso dizer que eles são apóstolos de boas raras culturais. Isso num país no qual as batalhas estão travadas quase que apenas em torno de jogadas rasteiras, corrupção desenfreada e a busca do poder a qualquer preço, realidades que apequenam a Nação.

DESDE GETÚLIO
Sabidamente um bom orador, muito por conta de sua formação como advogado e o amplo exercício de comentarista esportivo, além de escritor com alma de privilegiado cronista, Ernani teve momentos de extrema felicidade em sua fala. Por isso mesmo os destaco, pinçando-os de um discurso em que o senso de oportunidade (o momentum do país) foi vital. Assim, Ernani mergulhou no Brasil da II Guerra para chegar às mazelas mais recentes, dizendo:
“Desde o fim da II Guerra Mundial, vimos o país entrar e sair de crises como se essa fosse sua única vocação. Getúlio caiu duas vezes, passamos por governos militares, fomos autores de um pretenso ‘milagre brasileiro’, entramos nas crises do petróleo, depois quebramos nas mãos do FMI. Vieram os planos, frutos da mais pura empulhação coletiva. E tome crise.
Trabalhamos como Sísifo, mas sofremos com 12 milhões de desempregados.
Será que nosso destino será o mesmo da folclórica manchete do jornal mexicano sobre sua seleção de futebol? “Jugamos como nunca, perdimos como siempre”?
CINCO SÉCULOS
Com olhar grudado na História do Brasil, o orador foi incisivo, podendo até parecer pessimista:
“Vivemos uma Odisseia permanente, como a de Ulysses, com a diferença de que nossa viagem à Ítaca já dura cinco séculos, não dez anos. Só nos falta exigir a convocação de um concílio dos deuses, dirigido por Zeus.
Nego-me a acreditar.
Manoel de Barros, meu poeta de estimação, ensinava que “o esplendor da manhã não se abre com faca”. É como se dissesse que a tarefa exige ciência, aprendizado. Menos mal que a economia parece reagir. Já se ouvem notícias de novos investimentos, existe quem projete um crescimento de 2% do PIB para 2018.
“Isso, entanto, é pouco. Sejamos sonhadores, imaginando que a riquíssima cultura brasileira se imponha aos maus costumes. Refiro-me às artes, especialmente as populares. Elas sempre serão ótima escola para a população. ”
NO DIA A DIA
Prosseguiu Ernani:
“Mas igualmente os trabalhos científicos, as teses, os debates, as grandes obras artísticas, as vivências neste meio tão acolhedor que é a academia em seu sentido mais amplo, a começar pela escola e a continuar pelas ruas, pelas universidades e por entidades como a nossa APL.
Nesse sentido a Academia Paranaense de Letras deve estar presente no dia a dia da sociedade. Ela deve ser fomentadora e distribuidora de educação e cultura. Urge que se mostre um corpo vivo, capaz de emitir opiniões e publicar livros. Trazer para seus quadros nomes representativos das áreas as quais estamos ligados por vocação. ”
NOTÁVEIS
Numa rápida referência a notáveis da APL, disse:
“É a sequência do trabalho engendrado por Túlio Vargas, Valério Hoerner Júnior, Felício Raitani e Veiga Lopes, quando procuraram modernizar a Academia Paranaense no início dos anos 90. Foi quando chegaram a esta Casa os nomes exponenciais de René Ariel Dotti, paraninfo da turma 1967-1971, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, aqui representada.
Foi quando começaram a chegar as mulheres, como Pomphilia Lopes dos Santos, Helena Kolody, Chloris Justen, Adélia Maria Woellner, Hellê Velozzo, Leonilda Justus, dando outro gênero à Academia.
MODERNIDADE
Todas vieram referendar a modernidade da Academia, seguidas por Cecília Vieira Helm, Clotilde Germiniani, Flora Munhoz da Rocha, Maria José Justino.
E que merecem ser lembradas e enaltecidas, tanto por estarmos em tempos de março, mês da mulher, como e principalmente pelo talento que trouxeram – e trazem para a Casa.
Amigas diletas, a exemplo dos demais acadêmicos.”
(leia a íntegra do discurso no LINK: https://muraldoparana.com.br/?p=10612. E mais sobre a cerimônia na: http://www.oabpr.com.br/Noticias.aspx?id=24129).
