terça-feira, 5 maio, 2026
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Integra do discurso de Ernani Buchmann, na posse como presidente da APL

O discurso de Ernani Buchmann, na posse como presidente da Associação Paranaense de Letras, foi proferido no dia 06 de março de 2017, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Paraná, em cerimônia de posse da nova diretoria da entidade para o biênio 2017/2018:

Autoridades que compõem a mesa, já nominadas, a quem cumprimento na pessoa da nossa sempre presidente Chloris Casagrande Justen, colegas acadêmicos, convidados, parentes, amigos,

Senhoras e senhores.

É uma honra ver este plenário quase repleto, com pessoas que valorizam mais que a posse de uma diretoria, mas a própria Academia Paranaense de Letras.

Não posso deixar de citar o orgulho pelo fato de estarem à mesa presidentes das entidades para as quais presto serviços, como a OAB, a Fecomércio, Amatra e Apajufe; do Instituto dos Advogados, que cometeu a insanidade de me eleger para a sua diretoria; da Associação Comercial do Paraná, da qual sou conselheiro já uma década; da Fundacen, que me tolera na presidência do seu Conselho Fiscal; e amigos da Associação dos Procuradores do Estado e do Ministério Público do Paraná.

Não é por acaso que esta cerimônia se realiza na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, seção do Paraná, casa de todos os advogados paranaenses.

Há 80 anos nascia a Academia Paranaense de Letras, pouco menos de cinco anos após a criação da nossa OAB. Ambas fundadas no mesmo local, a antiga Escola Normal Secundária, na Rua Aquidaban, que hoje se chamam Instituto de Educação e Rua Emiliano Pernetta.

A OAB teve como primeiro presidente João Pamphilo d’Assumpção, que já havia fundado, com alguns advogados, e dirigido desde sua criação, o Instituto dos Advogados do Paraná – que em junho completa 100 anos.

Pamphilo era um fundador nato. Esteve entre os que criaram a Faculdade de Direito da Universidade do Paraná, na qual lecionou Direito das Obrigações, entre os fundadores do Centro de Letras do Paraná, da Academia de Letras do Paraná e, como não poderia deixar de ser, de sua sucessora, a Academia Paranaense de Letras.

Homem simples, desprovido de pretensões materiais. No fim da vida, solicitou desligamento da Academia, por não poder arcar com as mensalidades. Não havia como fazê-lo, o título era perpétuo. Foi a OAB que o socorreu, com um auxilio mensal. Em troca, Pamphilo doou à Ordem a sua biblioteca.

Quero dizer que a OAB Paraná continua socorrendo a Academia Paranaense de Letras, oito décadas mais tarde. Sempre fomos uma entidade sem recursos. Durante algum tempo fomos usuários – melhor seria dizer ocupantes – do Instituto Histórico e Geográfico e, depois, do Centro de Letras.

Não tivemos sede própria e hoje o que temos é um imóvel, o Belvedere, e a vontade de restaurá-lo para que lá instalemos o Observatório Paranaense de Cultura.

O feito que nos deu o Belvedere foi obra da presidente Chloris Justen e do então vice-governador Flávio Arns. A presidente já historiou o assunto.

Por este e outros feitos, quero saudá-la por todo o trabalho realizado à frente da Academia nos últimos quatro anos. A professora Chloris não conhece tempo ruim. Todos conhecemos as peculiaridades do clima curitibano, menos ela.

Assumiu a Academia como se filha fosse. E jamais deixou de acalentá-la, com a carinho e a dedicação que só as mães são capazes. Foi uma presidente presente em tempo integral, como se pode depreender do Relatório de Gestão que fez distribuir a todos.

Melhor ainda, a presidente Chloris vai continuar conosco, emprestando sua exuberância para que o projeto Academia vai à Escola saia do papel e se torne mais uma realização da sua mente visionária.

A Academia, senhoras e senhores, é uma lição de convivência. O presidente da Academia Brasileira, Domício Proença Filho, diz que a Academia é “um bom convívio entre convergência e divergência”.

Ela é isso e muito mais. É um ambiente em que se discute aquilo que todos gostamos – a cultura. Somos oriundos de áreas distintas: da literatura, do magistério, da advocacia, do jornalismo, da crítica teatral e das artes visuais, da área científica, da magistratura e da música. Nascemos em Curitiba, no interior paranaense, em Portugal e em Minas Gerais, no Sul ou no Nordeste, em Joinville ou em Presidente Bernardes, mas somos todos paranaenses.

Em comum, temos também o fato de sermos humanistas. De invocarmos sempre o poder da cultura como fator de aprimoramento deste ser que algum otimista classificou como sapiens.

Nem sempre temos tido a sapiência necessária. Nosso país é um bom exemplo do desperdício de talento, de dinheiro, de disciplina. Um quase continente a viver sem planejamento. Belmiro Castor, quanta falta você nos faz!

No Brasil, em algum momento entre o descobrimento e os dias de hoje, algo quebrou na engrenagem.

Ainda assim, continuamos. Uma gambiarra aqui, uma limada ali e segue o baile. A carruagem anda torta, os passageiros correm o risco de virar abóboras, mas lá vamos nós. O andar não corrige a carga e a carga não sabe arrumar o andor. Seríamos o verdadeiro Curupira?

Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, vimos o país entrar e sair de crises como se essa fosse sua única vocação. Getúlio caiu duas vezes, passamos por governos militares, fomos autores de um pretenso ‘milagre brasileiro’, entramos nas crises do petróleo, depois quebramos nas mãos do FMI. Vieram os planos, frutos da mais pura empulhação coletiva. E tome crise.

Trabalhamos como Sísifo, mas sofremos com 12 milhões de desempregados. Será que nosso destino será o mesmo da folclórica manchete do jornal mexicano sobre sua seleção de futebol? “Jugamos como nunca, perdimos como siempre”?

Vivemos uma Odisseia permanente, como a de Ulysses, com a diferença de que nossa viagem à Ítaca já dura cinco séculos, não dez anos. Só nos falta exigir a convocação de um concílio dos deuses, dirigido por Zeus. Nego-me a acreditar.

Manoel de Barros, meu poeta de estimação, ensinava que “que o esplendor da manhã não se abre com faca”. É como se dissesse que a tarefa exige ciência, aprendizado. Menos mal que a economia parece reagir. Já se ouvem notícias de novos investimentos, existe quem projete um crescimento de 2% do PIB para 2018.

Isso, entanto, é pouco. Sejamos sonhadores, imaginando que a riquíssima cultura brasileira se imponha aos maus costumes. Refiro-me às artes, especialmente as populares. Elas sempre serão ótima escola para a população.

Mas igualmente os trabalhos científicos, as teses, os debates, as grandes obras artísticas, as vivências neste meio tão acolhedor que é a academia em seu sentido mais amplo, a começar pela escola e a continuar pelas ruas, pelas universidades e por entidades como a nossa APL.

Nesse sentido a Academia Paranaense de Letras deve estar presente no dia a dia da sociedade. Ela deve ser fomentadora e distribuidora de educação e cultura. Urge que se mostre um corpo vivo, capaz de emitir opiniões e publicar livros. Trazer para seus quadros nomes representativos das áreas as quais estamos ligados por vocação.

É a sequência do trabalho engendrado por Túlio Vargas, Valério Hoerner Júnior, Felício Raitani e Veiga Lopes, quando procuraram modernizar a Academia Paranaense no início dos anos 90. Foi quando chegaram a esta Casa os nomes exponenciais de René Ariel Dotti, paraninfo da turma 1967-1971, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, aqui representada também por inúmeros colegas, Eduardo Rocha Virmond e outros.

Foi quando começaram as chegar as mulheres, como Pomphilia Lopes dos Santos, Helena Kolody, Chloris Justen, Adélia Maria Woellner, Hellê Velozzo, Leonilda Justus, dando outro gênero à Academia.

Todas vieram referendar a modernidade da Academia, seguidas por Cecília Vieira Helm, Clotilde Germiniani, Flora Munhoz da Rocha, Maria José Justino.

E que merecem ser lembradas e enaltecidas, tanto por estarmos em tempos de março, mês da mulher, como e principalmente pelo talento que trouxeram – e trazem para a Casa.

Amigas diletas, a exemplo dos demais acadêmicos. Semana passada tive a alegria de ver que três acadêmicos saudaram esta posse com antecipação. Carneiro Neto e Dante Mendonça, em colunas no jornal Gazeta do Povo, e Rui Cavallin Pinto, em artigo no site da Academia. A todos, obrigado pela condescendência.

Não posso deixar de agradecer o comparecimento nesta noite de pessoas especiais para mim. Tânia, eterna paixão, filhos, irmãos, sobrinhos, netos, amigos – alguns vindos de longe, São Paulo, Maringá, Campo Mourão. Entre todos, cito simbolicamente, em nome dos demais, Herbert Zimath Júnior, de Joinville.

Betinho, para a família e para os mais antigos, é amigo há mais de 65 anos, desde que éramos bebês. Ele vem de uma linhagem curitibana que remonta ao Barão do Serro Azul. Primo de Valério Hoerner Júnior, antecessor de Carneiro Neto na Cadeira nº40 e inesquecível historiador desta Academia, Betinho é sobrinho neto de Correa Junior, poeta, dramaturgo e pioneiro do rádio paranaense.

E também o velho parceiro e amigo, jornalista Carlos Marassi, craque na função de mestre de cerimônias, que auxilia a Academia como a OAB o faz. Trabalhando em regime pro bono.

Espero ter o descortino, o bom senso, a temperança necessária para levar a Academia à frente nestes dois próximos anos. Porque ela é a verdadeira arte do encontro, como não disse Vinicius de Morais.

A presença de todos nesta noite comprova a afirmação.

Muito obrigado.

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