De minha janela flagro o que poderia ser cena comum. Não é; é cena pré-Natalina: Ângela, negra da periferia do mundo curitibano, guardadora de carros de minha rua, dublê de “segurança” com seu distintivo verde-amarelo, recebe demorado abraço de uma madame.
Beijam-se nas faces. Ficam de mãos dadas, por segundos.
Fingem intimidades fraternais.
Do meu observatório privilegiado, cá do alto, chego a imaginar que estou a testemunhar um milagre de Natal.
Só ilusão desses tempos do Advento, quando o mundo cristão prepara-se para comemorar a vinda do Menino.
As duas mulheres não são velhas amigas. O encontro fraterno é impulsionado apenas pelo espírito natalino, pela chamada “atmosfera” de Natal.
Eu, que sou dos mais velhos, chego a lembrar do “Gloria in Excelsis Deo”, o impactante dístico que nesta época encimava a manjedoura de Jesus, num grande anúncio de Natal, das lojas HM da Rua Barão do Rio Branco.
Nem o dístico, nem o latim da mensagem, e, talvez, nem Jesus façam mais sentido nos natais de hoje.
De qualquer forma, o encontro flagrado rende, além do inusitado abraço e os amplexos, algum dinheiro passado com certa discrição – é verdade – à mulher que ali curte sua solidão e seu “apartheid” da vizinhança a que serve durante 300 dias do ano.
Ângela e a companheira de trabalho, Marlene, são cotidianamente invisíveis no amplo espaço que imaginam dominar como “seguranças de carros” e vendedoras de talões de estacionamento da URBS. Trata-se de doce ilusão reforçada pelo tempo de dividir alegrias segundo mandato duas vezes milenar. E como alavanca do grande marketing secular-natalino.

