sexta-feira, 10 julho, 2026
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“BONDE DE JESUS” ACELERA PERSEGUIÇÕES A RELIGIÕES AFROS

Peixão é um dos personagens mais ativos no mundo do tráfico carioca. Seu nome é Alvaro Santa Rosa, líder do Terceiro Comando Puro (TCP).

Convertido, com muitos outros bandidos a uma igreja neopentecostal dos morros do Rio, ele ordenou na semana passada novos ataques a centros de umbanda e candomblé na Baixada Fluminense, tudo por conta do chamado “Bonde de Jesus”.

Há informações de que Peixão teria sido ordenado pastor dessa igreja.

A polícia do Rio prendeu oito dos traficantes que se qualificam como membros do Bonde de Jesus, todos evangélicos e que se dizem estar assim cumprindo missão sagrada.

O quadro de intolerância religiosa no Rio aumentou nos últimos anos, segundo a Polícia Civil do RJ. Oito centros de matrizes africanas estariam sob ameaça imediata no Rio.

Nem o babalaô Ivani Santos, carioca que recebeu dias atrás em Washington o Prêmio Internacional de Liberdade Religiosa, entregue pelo Departamento do Estado norte-americano, está a salvo de ameaças.

Sendo coordenador da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Santos tem um olhar profundo sobre a perseguição às religiões afro:

Elas resultam de um profundo preconceito racial. “Manifestações culturais de identidade africana são frequentemente associadas ao demônio”.

Faça-se justiça: a Igreja Católica combateu o candomblé, por séculos, assim como a República , e, de modo geral, quase todas igrejas protestantes.

Babalaô Ivanir dos Santos

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“ORAÇÃO DE TRAFICANTE: UMA ETNOGRAFIA”

Diariamente, às 5h30min, o radinho de comunicação dos integrantes do tráfico nas favelas de Acari e Santa Marta, no Rio de Janeiro, começa a chiar. O chefe do tráfico entoa uma oração que busca se comunicar, a um só tempo, com o divino e com seus comandados, apelando por proteção e dando orientações à sua “equipe”. “[o chefe do tráfico] Orientava condutas, porque ele dizia para matar menos, falava para os líderes comunitários cuidarem das pessoas. Aquela oração era uma comunicação com o alto e o baixo”, explica Christina Vital Cunha, pesquisadora e autora do livro Oração de Traficante: uma etnografia (Rio de Janeiro: Garamond, 2015).

Christina Vital Cunha

MUDANÇA NA FAVELA

A virada dos anos 1990 para os anos 2000 marcou uma mudança radical da sociabilidade nas favelas do Rio de Janeiro no que diz respeito à relação entre religiosidade e tráfico. O novo contexto passa a ter como marca social uma nova gramática, aquilo que a pesquisadora chama de “cultura pentecostal”. “[Esta cultura] existe nas localidades e se expressa dentro das lógicas do universo evangélico, a ver com a cosmovisão pentecostal do mundo como o lugar da guerra. É o mundo da guerra do bem contra o mal, da disputa das almas. Paralelamente, esse é o mundo do tráfico, da guerra e da vigia, é bíblico também, vigiar e orar. O vigiar vem antes do orar. O cotidiano dos traficantes é o de vigia constante”, descreve.

Em entrevistas, a pesquisadora tem explicado como a gramática da guerra, do deus de Davi, produz uma estética que vai impactar em toda economia local das favelas, do comércio às relações interacionais dos moradores.

CHRISTINA VITAL CUNHA

Christina Vital Cunha é professora do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense – PPCULT e do Departamento de Sociologia da mesma universidade. É doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS/UERJ e mestra em Antropologia e Sociologia pelo IFCS/UFRJ. Integra a equipe de pesquisadores da Rede de Pesquisadores Luso-Brasileiros de Artes e Intervenções Urbanas, coordenada por Glória Diógenes (UFC) e Ricardo Campos (Universidade Nova Lisboa) e o grupo Religião, arte, materialidade, espaço público: grupo de antropologia, coordenado por Emerson Giumbelli (PPGAS-UFRGS). É autora dos livros Religião e Conflito, Ed. Prismas, 2016, em parceria com Melvina Araújo; Oração de Traficante: uma etnografia, Ed. Garamond, 2015; Religião e Política: uma análise da participação de parlamentares evangélicos sobre o direito de mulheres e de LGBTs no Brasil, 2012, em parceria com Paulo Victor Leites Lopes. É colaboradora ad hoc do Instituto de Estudos da Religião desde 2002.

Favela no Rio de Janeiro
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