segunda-feira, 11 maio, 2026
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APLICATIVO VAI DENUNCIAR “DOUTRINAÇÃO” NAS ESCOLAS

George Orwell: o “Big Brother”
George Orwell: o “Big Brother”

Na quarta-feira (6), a Gazeta do Povo surpreendeu os leitores ao anunciar o lançamento de um aplicativo voltado para o monitoramento da doutrinação nas escolas e universidades. O termo é esse mesmo: doutrinação. E vale para política, religião e comportamento.

1984, DE ‘ORSON WELLES’

Claro que o nome de batismo do aplicativo – Monitor da Doutrinação – remeteu, de maneira óbvia, ao livro “1984” de George Orwell, que certo diretor de redação do jornal, certa ocasião, escreveu ser de autoria de Orson Welles.

Que os deuses deem cambalhotas no caixão.

HAJA CONVICÇÕES

A polícia do pensamento, duplipensar, teletela e 2 + 2 = 5. Todo o mundo distópico do autor inglês novamente veio à tona. O jornal passa por estranhos momentos editoriais. Pôs fim à sua versão impressa em maio deste ano e construiu um portal de notícias que ainda não disse a que veio. Na primeira edição de sua revista impressa, que circula no fim de semana, trouxe encartado um catatau intitulado “Nossas Convicções”.

Estranhamente, não havia ali um fiapo de conceito jornalístico.

PONTIFICADO VAZIO

Com o “Monitor da Doutrinação”, o jornal parece distanciar-se da informação noticiosa e abraçar-se a um pontificado vazio, fruto da convicção não do jornal, mas de um ‘pastor de ovelhas’.

AI QUE PREGUIÇA

A reportagem que sustenta o lançamento do aplicativo usa jornalismo dúbio e indolente para embasar a necessidade do monitoramento. Isso fica claro em trechos como:

QUEM, CARA PÁLIDA?

“Diversos movimentos têm denunciado uma preocupação crescente sobre algumas condutas inapropriadas de professores dentro das salas de aula”.

DENÚNCIA VAZIA

Ou: “Embora haja discordâncias quanto à extensão do problema, é inegável que ele existe. A redação da Gazeta do Povo recebe com frequência vídeos com este tipo de denúncia. Em muitos casos, são vídeos antigos”.

SUJEITO OCULTO

O sujeito oculto é a marca da informação empurrada goela abaixo. Não há na reportagem sequer uma mera informação estatística que sustente a decisão do jornal de criar um aplicativo para “acompanhar” professores.

O verbo é esse mesmo. Ou seria dedurar? Ora, um mapa de doutrinação que se pretende nacional deve estar embasado em dados expressivos. Não basta um número indeterminado de vídeos (outro sujeito oculto).

CALOR DO MOMENTO

Os casos relatados nos jornais, ao que se sabe, refletem o calor do momento e a instabilidade político-econômica do país. Se houve ação do estado, ela foi isolada ou limitou-se a material didático em ocorrências pontuais.

GRANDE IRMÃO

Se a direção editorial imagina que, criando um serviço de Big Brother (uma referência ao livro, não ao reality show) irá ganhar a simpatia do leitor, engana-se.

“Ânsia” investigativa não é uma expressão pesada quando se constata, na leitura da reportagem, que a Gazeta pretende, ora em diante, reunir os casos de “doutrinação” registrados e identificar os envolvidos.

Professores, alunos, diretores, funcionários.

SEM NOÇÃO

Ainda mais que sem qualquer respaldo legal. Não se tem notícia de que haja um movimento sério do governo ou do legislativo ou do judiciário para punir a discussão político-religiosa-comportamental nas escolas.

Assim fica difícil falar em liberdade de expressão, liberdade de pensamento, liberdade de imprensa e livre-arbítrio.

O Big Brother em filme baseado no livro "1984" de George Orwell.
O Big Brother em filme baseado no livro “1984” de George Orwell.
Print do aplicativo "Monitor da Doutrinação", lançado na quarta-feira (6) pela Gazeta do Povo: vigiando as escolas.
Print do aplicativo “Monitor da Doutrinação”, lançado na quarta-feira (6) pela Gazeta do Povo: vigiando as escolas.
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