
O exílio de Alceni Guerra em Pato Branco, após sua passagem pelo Ministério da Saúde de Collor de Mello, o fez ressurgir politicamente com ideias que foram consideradas “megalomaníacas”, como transformar uma cidade encravada no sudoeste paranaense no maior polo tecnológico do interior do Paraná – o que de fato concretizou. O resultado do trabalho é o capítulo de um livro que ele vem escrevendo, passo a passo, “peer-to-peer”, e pretende encerrar com sua aposentadoria política, sempre adiada.
DEBATE LULA-COLLOR
A obra é recheada de episódios não contados da saga democrático-brasileira, como o debate Lula-Collor em 1989. Guerra foi testemunha ocular do confronto histórico, mas diz que adotou um tom irônico e bem-humorado na obra inacabada para não ferir suscetibilidades.
ÂNGELA E A POÉTICA PESSOAL
Com a mulher, Ângela, o agora assessor especial da governadora Cida Borghetti aprendeu a poética pessoal, ou seja, o estilo para narrar suas histórias. Já com os gregos aristotélicos vem aprendendo a exercitar a arte da política, uma estratégia que, contrariando o seu sobrenome, tem como propósito justamente evitar a guerra e considerar o confronto apenas quando há expectativa de concordância, que vem de consentir e ceder em nome do interesse comum.
– A alma da política é o diálogo. Por isso eu sempre tive livre trânsito com políticos de várias legendas. Se há diferenças, elas são pontuais.
LEVOU LULA ÀS LÁGRIMAS
Deputado constituinte no segundo de seus três mandatos na Câmara Federal (1987-1990), Alceni Guerra levou às lágrimas o então colega de parlamento, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao discursar melosamente em favor da licença-paternidade.
– Até hoje, quando ele me encontra, diz: ‘Seu filho da mãe, você me fez chorar’.
ESTILO CONCILIADOR
Secretário nas administrações de Jaime Lerner e Roberto Requião, dois ex-governadores do Paraná que guardam ódio figadal mútuo entre si, Guerra quer repetir na assessoria especial de Cida Borghetti o mesmo estilo conciliador que marcou sua carreira.
COM A AGENDA EM PUNHO
A receita, segundo ele, é a boa conversa. Durante os primeiros dias no Palácio Iguaçu já puxou de sua agenda os telefones de todos os parlamentares da bancada de senadores e de deputados federais e estaduais. Pretende conversar com cada um. Cara a cara.
– Conheço quase todos. O senador Álvaro Dias (Podemos), por exemplo, é um político nato. O Roberto Requião (MDB) exige que a gente fique quieto nos primeiros 15 segundos de provocação. Se você aguentar, o diálogo será bom e produtivo.
A PRAGA
Alceni Guerra admite: o aprendizado da arte da política veio com o passar do tempo. Em 1991, quando ainda ministro de Collor, Guerra chegou a insinuar durante uma entrevista na TV Cultura, de São Paulo, que as redações dos jornais estariam infestadas da ‘praga petista’.
GLEISI E JACKIE KENNEDY: UMA HERESIA
Hoje respeita os membros do PT. Ou ao menos aqueles que não tiveram seus nomes associados a escândalos. Caso de Gleisi Hoffmann que, em anos passados, Guerra considerou uma forte candidata a vice-presidente na chapa de Lula ou de Dilma. Ela não vingou, meteu-se com o lado negro da política e passou a incorporar uma radical bolivariana que não pertencia àquele corpo. Não quando chefiava o gabinete de Jorge Samek na Câmara de Vereadores de Curitiba ou uma das diretorias da Itaipu, recorda-se. Ele até cometeu uma heresia: comparou-a a Jackie Kennedy, definiu-a como superstar da política. Errou feio.
DELFIM EM PATO BRANCO
Em 1998, o ex-ministro Delfim Netto desembarcou no aeroporto de Pato Branco, por conta de uma escala ou defeito no avião, e Alceni Guerra, então prefeito do município, foi recebê-lo.
– Ele ficou surpreendido com o que eu estava fazendo no município na área de Educação e disse: “Agora, para o país engrenar de vez só falta o Lula e o PT ganharem as eleições. O país nunca mais será o mesmo. Nem eles”. E, de fato, o Brasil cresceu e o PT nunca mais foi o mesmo. No pior sentido.
NÃO FOGE À LUTA
Membro do DEM em um histórico de idas e vindas, Guerra é homem de paz, mas não foge à luta, o que remete à lírica do Hino Nacional. Em 2010 trocou farpas com o deputado federal Abelardo Lupion (DEM), hoje Secretário de Infraestrutura e Logística do Estado, ao desmentir um acordo feito entre os caciques nacionais do PDT e do DEM para apoiar o então senador Osmar Dias (PDT-PR) ao governo do Paraná. No calor do debate, também se recusou a apoiar uma eventual candidatura de Lupion ao Senado.
FARPAS
Reeleito deputado federal, Lupion acusou o ex-colega do DEM de entregar a legenda ao grupo do tucano Beto Richa e contestou sua condição de secretário do escritório de representação do Paraná, em Brasília, cargo que exerceu durante apenas seis meses – o escritório foi fechado por falta de orçamento próprio.
– Se ele vier para representar os interesses do estado, muito bem. Se vier para representar os interesses do Beto (Richa), esqueça. Não haverá diálogo, disse Lupion à época.
DEFEITO QUE É VIRTUDE
No mesmo período, Alceni Guerra também foi alvo de um ex-aliado político em Pato Branco, que prefere não se identificar. Ironicamente, ele enxerga como defeito o que o secretário, hoje, encara como virtude.
A ARTE DE CONVENCER
– Por conhecê-lo bem, admiro a sua capacidade verborrágica. Faz parte do folclore daqui a recusa do ex-prefeito (de Pato Branco) Clóvis Padoan em falar com o Alceni (Guerra) pelo seguinte motivo: “Se eu ouvi-lo por cinco minutos, ele me convence”.
