domingo, 28 junho, 2026
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AINDA MARINA SILVA, O ‘MARINÊS’ E O PRESIDENCIALISMO DE COALIZÃO

Luciano Huck: neófito
Luciano Huck: neófito

Em 20 de abril deste ano, a Folha de S. Paulo publicou editorial intitulado “Em lugar nenhum” em que avaliava longa entrevista da pré-candidata a presidente, Marina Silva (Rede), ao jornal. Na edição de domingo, (21), a mesma Folha publicou uma sabatina com sete eleitores de Marina apontando prós e contras de seu discurso. O “marinês”, por óbvio, é visto com reservas. Termos como “desadaptação criativa” e “transversalidade” parecem tão impenetráveis em seu sentido quanto foi o “overlapping” do técnico da seleção brasileira Cláudio Coutinho na Copa de 78.

SIGLA SEM ESTOFO

Marina tem uma vantagem clara e não se pode negá-la: um currículo sem suspeitas do ponto de vista ético, além de sua origem humilde, mais humilde do que foi a de Lula, a contar-lhe pontos, mas a questão não é essa. Ao contrário do petista, falta à candidata uma organização partidária. A Rede, como já se viu, é uma sigla sem estofo no eleitorado, a ponto de ter encontrado dificuldades para obter o registro na Justiça Eleitoral, quando todas as outras conseguiram. Todas mesmo.

O QUE SIGNIFICA ESTAR À FRENTE?

Ciro Gomes: tacape e borduna; João Dória: ‘outsider’
Ciro Gomes: tacape e borduna; João Dória: ‘outsider’

Falta-lhe também explicar a que veio. Essa é a segunda tentativa de Marina de chegar ao planalto – ela foi vice na chapa de Eduardo Campos (PSB), depois catapultada a candidata a presidente, em 2014, e ainda parece perdida nas proposições que ensaia e repete à exaustão. Na semana passada, em Curitiba, Marina disse não ser de esquerda nem de direita, mas de “estar à frente”. O que isso significa? Ninguém sabe. A Folha de S. Paulo tentou desvendar. Esta coluna tentou desvendar.

Chegou-se a lugar nenhum.

NO LIMITE DO HERMETISMO

Há outro entrave. Contra o “presidencialismo de coalizão” – claramente fisiológico –, a pré-candidata apresenta a alternativa de um “presidencialismo de proposição”, o que se supõe seja também um “presidencialismo de conversação”, com resultados práticos e a não concessão de emendas parlamentares que agradem a um ou outro feudo político. Mas Marina não se explica direito. Fica no limite do hermetismo, do achismo, do plano rascunhado e mal esclarecido.

PERDIDA NO ESPAÇO

Indaga-se se ela mantém o que desenhou há quatro anos quando apresentou a região Oeste do Brasil carente de desbravamento e de propostas de desenvolvimento sustentável. Não se lembra de tal afirmação feita no auditório de uma universidade de Curitiba, pergunta ao repórter, quer que ele esclareça uma questão-chave de sua campanha de 2014. Parece perdida e, salvo engano, está.

Marina com Flávio Arns e Jorge Bernardi
Marina com Flávio Arns e Jorge Bernardi

TODOS PARA A MESA

A eleitora convidada a opinar diz que a grande qualidade de Marina é a disposição de “chamar todos para a mesa”. Decerto é uma qualidade, mas há o temor do quanto ela será vaga em suas propostas, do quanto se deixará levar ou ceder para conseguir que os projetos do governo passem adiante, sem triscar a programática essencial de seu governo ou comprometê-la de vez.

NEM OUTSIDER, NEM NEÓFITA

A vantagem de Marina está no seu passado político, ainda que umbilicalmente ligado ao PT. Ela não é um outsider (como João Doria) nem um neófito (como Luciano Huck, que ensaiou meter o nariz onde não devia), mas falta-lhe uma dose de realismo e, talvez, de apelo às massas. Posar de esfinge de Tebas a essa altura do campeonato, a cinco meses da eleição, parece temerário para uma candidata que, com a exclusão de Lula da lista de postulantes à presidência, aparece em terceiro lugar, brigando com o “perigoso” Jair Bolsonaro, na segunda posição.

TONS MAIS FIRMES

Ela teria o eleitor a seus pés se, por exemplo, sorrisse ou usasse tons mais firmes, não só em suas roupas, mas em seu discurso. Dizer que seu “único compromisso é com o Brasil” e que “não faz do palanque um púlpito” nem vice-versa é bonito, mas ordinário. Há um apelo necessário na política que diz respeito a corações e mentes. Assim, a crítica de Ciro Gomes (PDT) de que falta “apetite” a Marina, ele sempre armado de borduna e tacape, convença eleitores de que a pré-candidata da Rede está ali para fazer figuração e não para agarrar-se ao cargo de maior importância no Brasil com unhas e dentes, como agarrou-se à vida quando, em seu histórico de miséria e doença, doença e miséria, ela parecia fugir-lhe. Marina é uma candidata viável, mas que precisa, urgentemente, ostentar viabilidade. Assim, frágil, vai quebrar.

Presidenciável falando em Curitiba
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