quarta-feira, 22 abril, 2026
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Opinião de Valor: Obama e a Bomba

Por Antenor Demeterco Junior (*)

O presidente Barack Obama visitou, no dia 27 de maio do corrente ano, a cidade japonesa de Hiroshima.

Não pediu formalmente perdão pelo bombardeio atômico realizado ali no fim da Segunda Guerra Mundial.

Tal visita, de fato, constitui um pedido de desculpas pelos 140.000 civis mortos em decorrência da explosão.

O presidente, em discurso, afirmou que “é importante reconhecer que no meio de uma guerra os líderes tomam todo tipo de decisões”.

Vale dizer, nas entrelinhas, que nem sempre tais decisões são acertadas.

Harry Truman, o homem que deu a ordem para o morticínio, é um presidente americano pouco mencionado historicamente, e até hoje não encontrou um biógrafo que escrevesse “uma boa” ou “mesmo adequada” biografia dele (in “Paz em Berlim”, p. Charles L. Mee, Jr.).

Voluntarioso, Truman desafiou opiniões contrárias ao lançamento dos dois artefatos atômicos.

Queria constranger politicamente os russos, então no auge do prestígio, por terem sido a principal força na destruição da máquina de guerra nazista.

Churchill sabia que a derrota do Japão já era certa antes do lançamento da primeira bomba.

O general americano Henry Harley “Hap” Arnold (1886-1950), comandante geral da força aérea de seu país, foi incisivo ao afirmar que o “ bombardeio convencional” poderia por um fim à guerra.

O Almirante Ernest Joseph King (1878-1956), comandante em chefe da frota americana, acreditava que só o “bloqueio naval” bastava, pois o Japão ficaria sem alimentos e se submeteria.

O general Dwight D. Eisenhower (1890-1969), vencedor do exército de Hitler na Europa Ocidental, opinou que era “completamente desnecessário” lançar a bomba, pois o Japão estava totalmente derrotado.

O comandante supremo das forças aliadas no Pacífico, general Douglas MacArthur (1880-1964), sequer foi consultado a respeito, e após a guerra manifestou-se pela desnecessidade do bombardeio atômico.

O almirante americano William D. Leahy (1875-1959), chefe das operações navais, foi incisivo: americanos haviam adotado um padrão ético dos bárbaros da Idade das Trevas.

A “Pesquisa sobre o Bombardeio Estratégico dos Estados Unidos” concluiu, depois da guerra, que o Japão teria se rendido mesmo que a bomba não tivesse sido lançada, mesmo que a Rússia não entrasse na guerra contra o Japão (entrou após a primeira bomba), e mesmo que nenhuma invasão do país fosse planejada ou contemplada.

Todas estas opiniões estão no livro antes mencionado, e permitem concluir o que Obama realmente foi fazer em Hiroshima.

Foi encontrar-se com um “assassínio injustificado” (p. 265), resultado de uma decisão política (não militar), pois, como afirmou, no meio de uma guerra “os líderes tomam todo o tipo de decisões”.

Muitas vezes extremamente cruéis (o que Obama não disse).

Verdade que os Estados Unidos sempre que enviaram sua juventude para o sacrifício o fizeram para que um mundo melhor florescesse.

O mundo pós Segunda Guerra Mundial, com certeza absoluta, foi melhor que o sonhado pelos derrotados.

As desculpas de Obama foram desnecessárias, pois ele sabia seguramente das opiniões técnicas que o presidente Truman não acatou.

Curitiba 05 de julho de 2016.

(*) ANTENOR DEMETERCO JUNIOR, desembargador emérito do TJPR.

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