terça-feira, 21 abril, 2026
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Opinião de Valor: “Vivemos a era da globalização, é um retrocesso a volta ao nacionalismo britânico”

Por Peter Ter Poorten, ex-cônsul britânico no Paraná

Peter Ter Poorten
Peter Ter Poorten

Em decisão histórica, cujo potencial pode mudar o rumo da geopolítica mundial nas próximas décadas, os britânicos decidiram em referendo deixar a União Europeia (UE). A opção de “sair” venceu a de permanecer no bloco europeu por mais de 1,2 milhão de votos de diferença, em resultado divulgado na madrugada de sexta-feira (24).

A disputa foi acirrada. O “sair” começou à frente e chegou a ser ultrapassado pelo desejo de continuar na UE, mas logo retomou a liderança e foi abrindo vantagem até vencer com quase 51,9% dos votos.

Cônsul britânico no Paraná por 20 anos, o australiano Peter Ter Poorten analisa a delicada questão, em entrevista à coluna.

GLOBALIZAÇÃO E RETROCESSO

“Sou favorável à permanência na União Europeia. Vivemos na era da globalização, da integração de blocos e países. A saída da UE significa um retorno ao nacionalismo e ao isolamento do Reino Unido.

Pelo lado econômico, a permanência traz vantagens em relação aos tratados com os 28 países do bloco, além dos blocos de outros continentes. É muito mais fácil o trânsito de mercadorias e pessoas sendo parte da UE. Segundo dados da Câmara de Comércio, 55% das empresas britânicas são favoráveis a permanecerem na União Europeia.

Além disso, é preciso pelo menos dois anos para se normalizarem todas as regulamentações e processos com a saída do bloco. Nesse meio termo, o Reino Unido é obrigado a seguir a legislação e as decisões da UE, mas perde o direito a voto, já que deixa de ser membro do parlamento europeu.

A tendência, nesse caso, é que o PIB britânico caia, que a libra e o euro se enfraqueçam, num primeiro momento, com reflexos na bolsa mundial.

IMIGRANTES E NOVAS LEIS

O argumento que ganhou mais força, e motiva boa parte dos cidadãos favoráveis à saída do Reino Unido do bloco, está relacionado com a questão dos imigrantes e refugiados. Mas isso pode ser regulamentado de outra forma, sem que o UK saia da União Europeia.

O primeiro ministro David Cameron sinalizou com ações nesse sentido. Pedia mudanças nas leis trabalhistas, que o acesso a serviços de saúde só se dê após um ano da chegada do imigrante ao UK, e que os benefícios financeiros enviados às famílias nos países de origem sejam calculados com base nas moedas locais, e não na libra. Mas tudo depende das decisões do parlamento europeu; e Londres não gosta de ser dependente de Bruxelas.

Podem parecer medidas duras, mas é uma forma do Reino Unido se preservar, já que o afluxo de imigrantes – sem entrar no mérito dos refugiados – é muito maior do que em outros países europeus.

PRECEDENTE QUE SE ABRE

O maior problema do “separatismo” da UE, porém, é que se abre um precedente para outras nações reivindicarem o mesmo, como o País Basco, e até mesmo o partido de extrema direita da França.

Isso sem falar do conflito interno no Reino Unido: a Escócia votou pela permanência na União Europeia (62% dos votos) e, muito provavelmente, se tornará um país associado com a saída britânica do bloco. Cenário similar na Irlanda do Norte, onde 55,8% dos votos foram favoráveis à UE. Não seria de se espantar que haja, portanto, a unificação das Irlandas na União Europeia.

MERCOSUL, BRASIL E ESTADOS UNIDOS

Para o Mercosul e os países sul-americanos, pouco se altera com a questão do Reino Unido, já que cada nação faz tratados próprios, em paralelo ao bloco. O Mercosul, na prática, serve muito mais para livre circulação de pessoas do que como uma união do porte e da organização da UE.

Uma mudança provável é em relação a produtos exportados, já que vetos da UE não mais afetariam o Reino Unido, numa possível saída. Ou seja, se um produto brasileiro está impedido de entrar na União Europeia, pode ser comercializado no UK, e vice-versa…

Em relação aos Estados Unidos, os candidatos à presidência já se pronunciaram – assim como em outras questões – bem claramente: Donald Trump se opõe ao posicionamento de David Cameron, e declarou que, se fosse britânico, desejaria criar um bloco próprio fora da União Europeia. Por outro lado, Hillary Clinton é favorável à permanência britânica na EU”.

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