terça-feira, 21 abril, 2026
HomeMemorialCinemateca e restaurante criados para homenagear Fellini

Cinemateca e restaurante criados para homenagear Fellini

Antonio Cava: felliniano consumado
Antonio Cava: felliniano consumado

Quando Antonio Cava lançou um de seus mais fortes e sintéticos aforismos – “o segredo da longa vida é fazer o bem” – ele estava apenas passando mais uma de suas receitas de alta voltagem espiritual, de valorização do ser humano, e de como podemos nos armar para a derrota das frustrações e as perdas. E assim nos impormos num mundo em que o sol não nasce para todos, é claro.

O escritor carioca, 51, dono de dupla cidadania brasileira e italiana, vive há 2,5 anos em Curitiba em que já é referencial como produtor cultural. No ano passado, Cava expôs-se ao julgamento da crítica e de todos os que acompanham sua caminhada, ao lançar o livro “Fartura”, tendo os aforismos como conteúdo. O próximo, para este ano, será “Sublime”.

Os aforismos de Cava não passam impunemente pela vida. São algumas ‘lições”, se não é excesso assim denominar essa catequese de vivências que o Cava nos propõe e sintetiza em livro.

FELLINI, A PAIXÃO

Mais do que o escritor, acho interessante na personalidade dele a maneira como se desdobra sua vida, o interesse cultural que o anima, ganhando diversas facetas. A mais forte delas acredito a de ser autoridade em Frederico Fellini.

Sabe tudo, de cor e salteado sobre essa sua paixão.

Acho mesmo que o mais correto será citá-lo como um inveterado amante da vida e obra do gênio do cinema italiano.

E até por isso é importante registrar que, finalmente, Antonio Cava consegue unir o útil e o agradável num lugar todo seu: o restaurante “La Strada”, nome dado em referência a antológica fita de seu ídolo.

Inaugurado há poucos meses, “La Strada” fica na Rua Emiliano Perneta, 521, próximo à Igreja de Santo Estanislau.

O restaurante tem qualidade de comida mediterrânea (é a KG, mas de alta gastronomia), me garante Márcio Renato dos Santos, jornalista e um dos admiradores da obra do felliniano.

O importante do restaurante é o conceito que enfeixa – alta gastronomia com preços honestos. E mais ainda é a proposta que vem junto com a casa de pastos (como se dizia em outros tempos…). No prédio em que se estabeleceram Cava e sua mãe, a ‘chef’ altamente conceituada, escritora de obras de culinária, dona Concentina, ele montou espaço cultural. No primeiro e segundo andares, o universo felliniano estará à disposição da comunidade cultural. Lá começam a ser expostos fotografias, DVDs, desenhos de Fellini, objetos vários ligados à vida do mestre, cartazes de filmes.

CINEMATECA

A proposta é essa mesmo: fazer daquele Centro de Estudos Fellinianos lugar não apenas de exposição de um acervo precioso, de que são exemplos desenhos do mestre cujas reproduções Cava adquiriu da Fundação Fellini, na Itália. O alvo é que, nas salas do centro, crie-se todo um clima de cinemateca, com a exibição dos filmes de Fellini (que poderão também ser tomados por empréstimo), incluindo os necessários debates sobre a obra do diretor com suas pinceladas barrocas.

O clima é de todo propício: cartazes originais de filmes e fotos do universo felliniano preenchem o local.

A cada quatro meses Cava fará nova mostra do acervo felliniano, no que tem enorme experiência. Por diversos anos ele foi o curador de exposição do acervo de Fellini, numa itinerância cumprida em Curitiba, Porto Alegre, Rio, São Paulo, Brasília, Niterói…

Preparem-se os fellinianos que forem ao espaço todo decorado com marcas de Fellini – lá serão introduzidos a uma verdadeira preciosidade do mestre do cinema: um exemplar do Livro dos Sonhos, de Fellini (um diário visual do cineasta, preenchido por seus desenhos). O livro é uma raridade, foram editados apenas mil exemplares.

BOA MESA

Cava não está em busca de fortuna com seu “La Strada”, é o que parece dizer quando disserta sobre a feliz junção, a do local de alta gastronomia a preços honestos, e o centro cultural que, ao fim, foi sempre seu sonho maior.

Isso não quer dizer que Antonio Cava não esteja apostando muito no “La Strada”, a começar pela presença de sua mãe, dona Concentina, a chef de consumada importância que a tudo comanda na casa.

E ela tem “background” suficiente. É autora de livro de culinária mediterrânea, do Sul da Itália. E na história de vida dessa italiana autêntica estão fatos notáveis: por anos dirigiu a cozinha do Projac, da TV Globo, no Rio. E por anos também foi a responsável pelo “cattering” da Varig, que foi positivamente diferenciado entre as empresas internacionais de aviação. Os mais velhos sabem bem que isso é verdade.

Ponto, pois, para a mãe de Cava, em parte.

Para mim é interessante observar que, além de Fellini, pode existir também outra paixão na vida de Cava, o restaurante. E chego a essa conclusão quando ele me responde sobre como encara a nova atividade. Diz que sabe “fazer milagres”, garantindo preços honestos aos clientes, com alta qualidade dos produtos que entram no cardápio, como azeite extra virgem, bacalhau dinamarquês, peixes e carnes nobres, tomate italiano de primeira.

– Um dos segredos dessa boa mesa começa pela arte de comprar os ingredientes, diz Cava, confessando ter-se feito técnico em deambular por endereços de bons fornecedores.

Acho até que nessas caminhadas de “restaurateur” podem estar nascendo novos aforismos…

Leia Também

Leia Também