
Pequeno, negro absoluto, sem qualquer traço de miscigenação, o bispo de Bagé, RS, dom Gílio Felício, chamava atenção no grupo de prelados que, em fila, foi colocando a mão na cabeça do então ainda padre Ricardo Hoepers como sinal de sua ordenação episcopal, na manhã de sábado, 14, na Catedral de Curitiba.
O agora dom Ricardo Hoepers, o novo bispo da cidade de Rio Grande, RS, será vizinho de dom Gílio. Bagé está menos de 100 quilômetros da sé episcopal que o curitibano assumirá dia 2 de junho.
Dom Gílio não é o primeiro bispo negro no episcopado brasileiro. O primeiro, apelidado de “Dom Pelé”, foi dom José Maria Pires que, no começo dos 1970, assumiu a Arquidiocese de João Pessoa, Paraíba.
Pires ficou conhecido por seu inconformismo com o movimento militar que então governava o país, aderiu à chamada Teologia da Libertação e não negou apoio a movimentos ditos populares, como os que reclamavam reforma agrária.
No caso do bispo de Bajé, o seu perfil é de um homem conciliador, que “se acostumou a ganhar os opositores pelas bordas, como se come mingau”, diz-me a respeito do bispo negro um padre da Diocese de Rio Grande, que não esconde ser admirador do toque diplomático que dom Gílio imprime em suas ações.
ARAUTOS DO EVANGELHO
Modesto e discretíssimo – na verdade, é um tímido – o bispo de Bajé foi “descoberto” durante o almoço, dia 14, em Santa Felicidade por um membro dos Arautos do Evangelho, um movimento tradicionalista católico – tridentino -, que, devidamente vestido com o hábito medieval da instituição, abordou dom Gílio em língua alemã.
“Nascido e criado numa cidade em que 90º% das pessoas descendem de alemães, Santa Cruz, Rio Grande do Sul, o estudante negro e depois padre resolveu aprender o idioma de Goethe com um objetivo: pode pregar sem limitações o Evangelho para aquela população de sua terra natal.”
Conversaram em alemão por alguns minutos.
O militante dos Arautos, um austríaco, disse-me, literalmente:
“Ele fala muito bem minha língua”.
Como e por que dom Gílio Felice aprendeu alemão tão bem? Nascido e criado numa cidade em que 90% das pessoas descendem de alemães, Santa Cruz, Rio Grande do Sul, o estudante e depois padre resolveu aprender o idioma com um só objetivo: pode pregar sem limitações o Evangelho para aquela população de sua terra natal.
Gílio foi por um tempo bispo auxiliar em Salvador e hoje convive com uma sociedade extremamente conservadora, a da cidade de Bagé, no sul do RS, uma economia predominantemente agropecuária.
