terça-feira, 12 maio, 2026
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Irati, muito mais que um retrato na parede

Ginásio São Vicente de Paulo, Irati, e o seu patrono
Ginásio São Vicente de Paulo, Irati, e o seu patrono

Os iratienses estão em festa, preparam jantar de congraçamento anual em Curitiba.

O Sotti Lopes, José Machado de Oliveira, e o Nêgo Pessoa (este, sempre), não me deixam esquecer dessa cidade que foi meu mais forte berço cultural. Quando digo isso, procuro fugir da “hora da saudade”.

Não gosto desses momentos de saudosismo, tão identificadores da alma brasileira, ou mesmo de brasileiros até híbridos, como eu, uma mistura de índios (e, quem sabe, também negros), portugueses, espanhóis e “25% de alemães”. Esse percentual de “sangue” era-nos apresentado por meu pai, ele mesmo o brasileiro com fortes vestígios teutos, mas pele lembrando um pouco ascendentes índios. Tinha caráter absolutamente ímpar, nacionalista acendrado, de homem integral que jamais dependeu de passaportes étnicos ou status social para se impor.

Seus títulos não eram nobiliárquicos, se ligavam a artesãos germano-brasileiros de suas raízes, de que se orgulhava muito.

Um deles, meu tio avô, foi Paulino Haygert, um gaudério autêntico, que foi revolucionário de muitas contendas em plagas da Campanha gaúcha.

São Vicente de PauloMEMÓRIA

Se não gosto de exercitar saudosismos, não posso deixar de fazer algum tipo de memorialismo, quando falo de Irati. E quando isso acontece, o memorialismo acaba virando um certo transbordamento da alma.

Nesse memorial, não posso esquecer: meu pai, beneficiado pela “lei dos mil dias” (quem havia lecionado por mil dias, requeria o título de professor de segundo grau), acabou sendo professor de Matemática do Ginásio Irati, de Luiz Aníbal Calderari, por onde passaram mestres importantes, como Tico Lopes, depois um dos mais notáveis deputados estaduais do Paraná, ligado a Plínio Salgado. Era irmão da professora Rosemary Lopes, que às crianças fascinava com sua voz cadenciada e a capacidade de passar a catequese católica. Que o diga o Eduardo Fenianos que, com Joãozinho Dallegrave (in memoriam) foi meu companheiro de primeira comunhão, em 1951.

MEU PAI: O IBGE

Meu pai, Manoel Haygert, um funcionário concursado do DASP, dos primeiros funcionários do IBGE no Paraná e no país, levou-nos a todos – minha mãe e quatro meninos – à terra de Iratí. Ali tive a mais sólida formação, jamais superada pelos cursos posteriores, nem pela universidade.

E tudo aconteceu no Ginásio São Vicente de Paulo. Para mim, ele foi mais definitivo até do que o Colégio Estadual do Paraná.

Descobri o mundo pelo São Vicente de Paulo, dos padres Lazaristas (Congregação da Missão, fundada por São Vicente de Paulo), também conhecidos como Vicentinos. O espírito do grande ateneu que foi o Colégio do Caraça, em Minas, havia feito ali morada – mesmo que parcial, mas suficiente para nos marcar indelevelmente. Os padres mineiros haviam “transmigrado” alma e verdades para o então Paraná muito frio e europeizado.

Não me canso de prestar tributo àqueles jovens, gente na casa dos 20 anos ou pouco mais, que formava o corpo discente daquele núcleo irradiador de escolaridade e cultura do sul e centro do Paraná.

Só nós, os sobreviventes daqueles tempos “épicos” – sem telefone, sem Internet, com o mínimo de jornal e limitados acessos aos livros, ligados ao Brasil apenas pela Rádio Nacional -, podemos testemunhar a metamorfose que os sacerdotes e irmãos leigos lazaristas promoveram no Estado.

Inimaginável como ocorreu naqueles dias.

RUI E NICOLAU

Dois padres nos fascinavam pelas diferenças que enfeixavam e pela capacidade que tinham em “civilizar” aqueles meninos (o colégio não era misto), levando-nos a mundos fantásticos – como o dos átomos, com padre Nicolau – ou da família real brasileira, com as dissertações empertigadas do eternamente gripado padre Rui Noronha. Ou com as pinceladas de latim que, quase genuflexos, ouvíamos do padre Lima, o diretor, um monstro sagrado da casa, a cuja passagem sentíamos vontade de prestarmos reverência: estávamos diante do ‘preposto’ do Senhor, assim o víamos.

Era o mesmo padre Lima – “o olho de Deus”, como chamava o Durski – que aos sábados nos reunia na maior sala do ginásio para as chamadas aulas de civilidade.

AULAS DE CIVILIDADE

As nossas mãos deveriam ficar expostas aos olhares perscrutadores do diretor, um atento raio X em busca de unhas longas e sujas, e dedos mal lavados. Ele ensinava com conselhos prudentes, e subentendidos castigos raramente executados, a como comer, como sentar, o tom de voz com os mais velhos e superiores, os cuidados com o corpo.

Por vezes, padre Lima esbarrava em lições de como sermos castos num tempo em que os hormônios estavam estourando naqueles corpos jovens que, diante da ligação pecado/masturbação – por exemplo – tinham o sempre o remédio do confessionário… Ao qual recorríamos como bálsamo e refrigério.

Por vezes, eu e meus 3 irmãos chegamos a ficar internos, por semanas apenas, em função de viagens de nossos pais. Nessas ocasiões, eu fui me deixando – mais ainda – me impressionar pelos domínios do sagrado que a casa tinha. E o espaço sacro onde fui descobrindo que havia mesmo muito mistério entre o céu e a terra foi na capela do Ginásio. Ficava próxima aos dormitórios.

Meio místico – muito mais naqueles dias – me impressionavam os anjos, um em cada lado do altar, cada um enfeixando uma lâmpada que a tudo iluminava ao derredor.

OS ANJOS

Os anjos me fascinavam, antes e depois das rezas noturnas, uma espécie – sei hoje – de ofício das Completas. Cantava-se até o Salve Regina (“mater misericordiae, vita, dulcedo…”), num tosco latim de criança que mal sabia o português.

Nas missas matinais, foi onde comecei a distinguir nuanças do sagrado.

A mim me impressionavam as vezes em que o padre subia e descia do altar, trocava de objetos sacros, folheava o missal. E chegava a ficar com inveja dos coroinhas, ofício para o qual nunca fui chamado. Mas soube, anos recentes, que o Pedro Muffato, mais tarde, lá por 1956, era um diligente e muito requisitado respondedor de missas, suavemente entoando a maravilhosa introdução da tridentina, com o “introibo ad altare Dei…”

PISCINA E FUTEBOL

Quando sai do Ginásio (mudando-me para Londrina, em 1952), era inaugurada a cancha de basquetebol coberta. Mas eu sou do tempo em que esportes eram mesmo futebol, com o grande astro, o Aluísio, irmão de padre Lima, jogador excepcional, pelo menos aos nossos olhos. E mais gostava eu, do que futebol, era da piscina, que ficava mais distante do centro do Ginásio, um antigo tanque de criação de carpas. Refrigerava nossos corpos inquietos tanto quanto, para mim, o cântico do “Salve Regina”.

Nos quatro anos em que eu e meus irmãos passamos no Ginásio São Vicente, nunca se ouviu sequer insinuação sob pedofilia. Algumas línguas mais afiadas chegavam a vocalizar supostos flertes de padres com empregadas.

Puro boato, acho eu.

Houve, isso sim, o flagrante de “jogos sexuais” entre dois alunos do primeiro do ginásio. Foram expulsos, com relativa discrição.

Teria mais a falar do Ginásio de Irati. Por hoje, basta. Pensei que estava imune a fortes emoções. Não estou.

Mas por último, mas não menos importante, tenho a observar: aqueles padres e irmãos da congregação fundada por São Vicente de Paulo não eram meros professores. Como próprio daqueles dias, eles transpiravam o sobrenatural: educavam meninos, futuros homens, para a eternidade. Tinham um sólido compromisso com o Eterno. Isso fazia a diferença. Fez a diferença na vida de ex-alunos do Ginásio São Vicente. Foi a diferença em minha vida.

Salve Irati e sua gente, como Nêgo Pessoa, Jeca Pessoa (in memoriam), José Machado de Oliveira, o Sotti Lopes…

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