terça-feira, 12 maio, 2026
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Francisco: Resumo de um roteiro de certezas nas Américas

Papa Francisco falando na ONU
Papa Francisco falando na ONU

Nem o mais respeitável dos jornais diários do País, o Estado de São Paulo, está livre de nos pregar surpresas, como algumas que tem cometido ultimamente.

Por exemplo, na cobertura internacional de sexta-feira (25), levei um susto: o escritor e monge trapista que teve enorme influência na vida norte-americana e do ocidente, dos 1950 a 1968, Thomas Merton (“Sementes da Destruição” e “Montanha dos Sete Patamares”) foi tratado o tempo todo como Melton, em despacho de Washington.

QUATRO PILARES

Não fosse minha capacidade de associar nomes a fatos, jamais teria entendido sobre quem o papa Francisco se referiu entre os quatro nomes de norte-americanos – de grande importância na América. Foi o que disse, no discurso ao Congresso, em Washington, incluindo Merton ao lado de Luther King, Lincoln e Doroty Day, entre quatro notáveis da vida dos Estados Unidos por sua contribuição à humanização da história daquela nação.

ANTES, CUBA

Tanto quanto possível fui acompanhando a visita de Francisco a Cuba e aos Estados Unidos, especialmente pela CNN International e pela GloboNews.

Não tive, a rigor, nenhuma grande surpresa: o pontífice só parece ter aperfeiçoado ainda mais sua capacidade de “encantador de multidões”.

Talvez porque fica cada vez mais evidente que ele é alguém que vive (e assim foi quando arcebispo de Buenos Aires) aquilo que prega. E vive com simplicidade, às vezes surpreendente. Tal como o fez, ao escolher um carro simples (Fiat) para se deslocar nos Estados Unidos, recusando as limusines fantásticas de que poderia dispor.

“LAUDATO SI’”

A última fala de Francisco, que anotei, foi de 11 a 12 horas (hora de Brasília), quando ele falou na Assembleia das Nações Unidas, que estava comemorando seus 70 anos de existência. Lotado, o plenário da ONU mostrou uma plateia absolutamente atenta a cada frase de Francisco.

Ângela Merkel, dentre outros chefes de Estado, sorvia cada sentença pontifícia, com sorrisos e aplausos. A menina muçulmana que foi atacada por Talibans porque queria estudar, e depois ganhou Nobel da Paz, estava lá também, aplaudindo o líder.

Para quem leu e estudou a última encíclica de Francisco – “Laudato Si’” – não houve muita surpresa. Claro que o catecismo em defesa da ‘casa comum, a Terra’, ganhou, no meu entendimento, outras colorações na voz e ênfases do papa. Nada pode substituir aquela fisionomia de vovô carinhoso e compreensível, que ele tem. Mas quantos ali presentes, dos 194 países filiados às Nações Unidas, teriam tido acesso à “Laudato Si’”?

NADA MUDOU

Francisco não pregou contra as ditaduras de esquerda ou direita. No caso da ONU, se o fizesse, teria de ofender mais da metade da plateia, representantes de regimes autocráticos. Preferiu, tal como o fizera em Cuba e no Congresso, em Washington, acentuar as linhas mestras de sua cartilha (e que mesmerizam o mundo de hoje): deu uma basta às exclusões: pediu a repartição das riquezas, o acolhimento aos pobres que não podem ser sufocados pelas ambições do dinheiro; reclamou a geração de trabalho, teto e alimentos para um mundo assolado por catástrofes de toda ordem, como as provocadas pelo egoísmo e pelas violações ao meio ambiente.

SEM CONFRONTO

Defendeu Francisco os valores básicos dos quais sua Igreja não abre mão: o direito à vida desde a concepção do ser humano; condenou a pena de morte; acentuou por muitas vezes a família como pilar da vida em sociedade – sem jamais entrar na polêmica sobre outros tipos de família além da tradicional.

RESUMOS

Se nunca enfrentou ditaduras quando em Buenos Aires, Francisco portou-se fraternalmente, também, como o irmão que leva boas novas de paz, no encontro com Raul e Fidel. E não poderia ser de outra forma.

Francisco foi vital, sabe-se, para a reaproximação EUA X Cuba, sendo até por isso credor de admiração e agradecimento dos cubanos.

O que fica da peregrinação de Francisco? Espero que fique a substanciosa palavra de quem, acendradamente, fala em nome dos pobres mais pobres, defende a vida, vitupera contra as armas e as guerras, reclama contra as exclusões que separam os seres humanos e a busca desenfreada por dinheiro que faz do homem um “objeto descartável”. Sua fala pela Paz incluem a grande paz, a interior do homem, em si, e a das Nações.

NARCOTRAFICANTES

Nas partes finais de sua “homilia” na ONU Francisco falou duramente contra os narcotraficantes, cujo trabalho, lembrou, leva à prostituição de crianças, à morte, à desestabilização das famílias e sociedade. Nesse ponto, foi muito aplaudido. Assim como fora aplaudido “seletivamente” no Congresso americano quando defendeu a família e condenou o aborto.

Nesse caso, os aplausos foram dos republicanos.

Quando defendeu medidas urgentes para conter os desequilíbrios climáticos e ampliar a inclusão dos pobres na sociedade americana abrangente, foi aplaudido pelos democratas. E mais ainda aplaudiram os democratas quando reclamou que a terra dos ‘Pais Peregrinos’ (um país de imigrantes, disse), acolha com generosidade os imigrantes, os indocumentados, os refugiados.

“Somos todos imigrantes”, proclamou.

Resumo do resumo: a fala de Francisco é a do cristão – sinal de contradição: agrada a uns, contraria outros. Mas deles, do papa, pode-se dizer sem medo de errar: “Tu tens palavras de vida eterna”. Tal como nos fala o Evangelho, referindo-se a Cristo.

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