
Ainda sobre o livro “Impacto da espiritualidade na percepção da dor no câncer de mama” – tese de mestrado de Bioética de Eliana Adami, defendido na PUC-PR sob a orientação do médico oncologista e cirurgião Cícero Urban – que foi editado pela alemã NEA (Nova Editora Acadêmica) e já está sendo distribuído no Brasil, a autora explica um pouco mais sobre esse interessante tema, em uma breve entrevista.
Farmacêutica Bioquímica e Bióloga, mineira de Carmo da Mata (a 150 km de Belo Horizonte), Eliana tem 43 anos e há cinco vive em Curitiba. Depois de defendida a tese de mestrado na PUC-PR, em dezembro do ano passado, o trabalho foi selecionado pela editora NEA, que capta trabalhos acadêmicos de interesse científico no Brasil e os publica após avaliação de uma banca. O maior orgulho, conta Eliana, é ter um exemplar do livro – em português – na Biblioteca Nacional da Alemanha, a Deutsche Nationalbibliothek.
De onde surgiu o tema e a motivação para este estudo?
Essa temática sempre despertou meu interesse e esteve presente em minha vida. Como minha área de trabalho é muito técnica, quis me envolver na parte espiritual, de autoconhecimento e trabalho voluntário. Cheguei a coordenar grupos de estudo quando ainda morava em Minas, inclusive. O estudo e a pesquisa foram gratificantes tanto pelos bons resultados, quanto pelo lado humano, pela experiência de poder acompanhar 50 pacientes com câncer e comprovar como a espiritualidade as ajuda a superar a dor. Vê-las saindo vitoriosas dessa luta, e o olhar sobre dor e espiritualidade foram minhas motivações para esta pesquisa acadêmica.
Qual a linha de pesquisa adotada? Como foi o trabalho e quanto tempo levou?
Meu objetivo era estudar sobre a espiritualidade e fazer o link com a área da saúde, já que somos um somatório de tudo o que nos influencia. Sempre tive uma afinidade grande com os casos de superação de dor, em especial os pacientes com câncer. Nisso entrei em contato com o Dr. Cícero Urban, falei da proposta da tese de mestrado, e ele gentilmente cedeu tanto o consultório, quanto as pacientes para fazer minha pesquisa de campo! Como co-orientador da minha tese, sem ele o trabalho não seria possível. O levantamento dos casos com as 50 pacientes selecionadas foi realizado entre abril e agosto de 2014, com a defesa da tese em dezembro. O método utilizado foi o questionário, bastante extenso, aplicado em duas ocasiões: em entrevista antes da cirurgia de remoção do câncer, e na primeira consulta ao Dr. Cícero, após a cirurgia. Ou seja, tivemos ao todo 100 entrevistas, duas para cada uma das 50 pacientes. Nas entrevistas, abordamos a questão da escala de dor e o bem-estar espiritual vivenciado pelas pacientes.
Em linhas gerais, conseguiu-se comprovar a influência da espiritualidade na recuperação das pacientes com câncer de mama?
O resultado foi fantástico! Não existe nenhum estudo que possa mensurar ou quantificar a dor nesse contexto, mas vários estudos sobre a influência da espiritualidade na nossa vida. As pacientes que apresentaram maior escala de espiritualidade, independente da religião ou fé, apresentaram menor percepção no nível de dor, comprovado estatisticamente.
Existem mais estudos acadêmicos nessa área, que envolvam a influência do lado espiritual e da fé no tratamento de doenças? Como isso é visto dentro da comunidade científica?
Este é o primeiro estudo que apresenta uma pesquisa que quantifica e faz uma análise de bioética clínica sobre o impacto da espiritualidade na percepção da dor. A ciência trabalha com fatos, mas nós seres humanos somos seres muito subjetivos. Tentei fazer o link disso, da subjetividade e espiritualidade e a ciência, e acredito que o resultado prova que os temas estão vinculados. Conforme definição de Leonardo Boff, somos um nó de relações voltadas para todas as direções. Vale ressaltar que, entre as 50 pacientes entrevistadas, todas tinham alguma fé ou religião, a maioria sendo católica.
Quais seus planos daqui para frente?
Estou fazendo doutorado em Farmacologia na UFPR, cuja linha de pesquisa é Toxicologia Reprodutiva. Trabalho com Moduladores Endócrinos, mas pretendo também continuar pesquisando sobre Espiritualidade. Além disso, participo do Grupo de Pesquisa BIOHCS (Bioética, Humanização e Cuidados em Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – CNPq), no qual continuo pesquisando e escrevendo sobre espiritualidade.
