(Trechos do perfil de Elvo Benito Damo do volume 7 do meu livro “Vozes do Paraná 7”)

Não tente contato com o escultor via celular, ele não usa o aparelho. Pode anotar, no entanto, “para emergências”, o número do filho Miron. Mas que Elvo não seja, por isso, julgado refratário à modernidade. A recusa do celular resume apenas uma das decisões – sempre firmes – de Elvo Benito Damo diante do dia a dia. É marca desse “ítalo-brasileiro” em quem se identifica hoje o mais fértil e expressivo dos escultores paranaenses, embora catarinense de nascimento.
Não há exagero, nem ufanismo paranista, em colocá-lo entre os grandes do Brasil. É só questão de justiça. Os mais próximos dele, aqueles que acompanham sua obra há anos, chegam a denominá-lo de “Michelangelo”. O cognome, com tonalidades de homenagem e reconhecimento, tem fundos de verdade, é comparação que apenas dimensiona a importância do artista.
Abstraiam-se os diferenciais, entenda-se a superlativa comparação na justa medida. Cabe uma indagação: teve Elvo seu Julio II, o mecenas do gênio?
Que eu saiba, não.
E eu, quando sou apresentado àquela que pode ser a obra prima de Elvo, “O Aprendiz”, escultura de 3,80 m, em bronze e pedra, que faz para a PUC-PR, fico a me perguntar:
– Do jeito que a obra vai, ao final, ele até será desculpado se fizer, como Michelangelo fez com relação a “Moisés”, ordenando vida à matéria inerte, com um eloquente: “Fale”. A obra impressiona.
2 – TAMANHO DO ARTISTA
Para um artista da dimensão de Elvo, o local do nascimento pode ser relativizado. Até porque esse espírito criador singular despertaria mesmo em qualquer lugar, independente de sutilezas geográficas. O que é definitivo mesmo são marcas pessoais, como as de seus ancestrais italianos, de pai e mãe (Marcon e Damo), que o fazem dono do biotipo da gente do Norte da Itália. Mais usos e costumes recebidos da herança familiar, a partir de avós.
A paixão pelo fogo, por exemplo, começou a se manifestar desde criança, ao observar os braços do avô materno no ritual de bater a bigorna na ferraria da família. E assim dando forma ao ferro. Fogo, atração primordial, tem nele raízes que se identificam muito além da convivência com o pai. É parte irrecusável daquele magnetismo ancestral das chamas, presente nos primórdios da História do Homem. Muitos milhões de anos antes do Homo sapiens.
A visão política, outro dado dessa personalidade, Elvo cultiva desde a universidade, quando fez política estudantil, com tonalidades libertárias.
É membro – “hoje meio retirado” – de um partido político de orientação centro-esquerda. Brizola e a paixão do político gaúcho pela educação, têm sido uma admiração guardada com discrição. Mas com firmeza a expõe quando necessário.
Se a criatividade em Elvo supera geografia, não há porque não recordar o ponto de partida do artista: foi no Paraná, quando aqui chegou, que de fato ele nasceu artisticamente, embrenhando-se no mundo das artes plásticas quando ainda servia ao Exército, em Palmas.
3 – TURIN E SAMUEL LAGO
Elvo, é certo, não teve seu mecenas, como aconteceu com Michelangelo, cuja obra aconteceu porque existiu também um Julio II, um obstinado e furioso visionário, um “louco de meta certa”. Mas, com a moderada expansividade, sua marca pessoal, Elvo cita o professor Ismael Lago (um dos fundadores do Grupo Educacional Positivo), como empresário absolutamente diferenciado no cenário brasileiro.
“Lago é uma grande e positiva exceção”, diz Elvo Benito Damo enquanto vai lendo a notícia, que lhe passo, em 30 de abril de 2015: a exposição da obra de João Turin, apresentada no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, em 2014, acabara de ganhar o prêmio maior para eventos do ano, dado pela Associação Brasileira de Críticos de Arte. O prêmio tem tudo a ver com Elvo, que foi contratado por Samuel Lago para desenvolver o ousado projeto: revalorização e redescoberta da obra do escultor João Turin, que ao morrer deixara centenas de moldes que precisariam ganhar vida escultórica.
Ao adquirir o acervo de Turin, Lago apostou – e nisso foi essencial a orientação técnica de Elvo – em vender Brasil a fora reproduções do mestre paranaense, o que já se faz. E a logística para esse fiat foi montada em Almirante Tamandaré, sob o comando de Elvo e auxílio de ex-alunos seus, todos com sólida experiência em fundição.
Quando me despeço do amigo Elvo, ele se sai – até para surpresa minha – com um gran finale de nosso encontro, dizendo:
– A máquina do futuro depende do espírito criativo de hoje. Cabeça, mão e olho continuam mandando, a máquina é só ferramenta.
