
O jornalista Franklin Martins, ex-ministro de Lula, não precisa de muitas apresentações.
O Brasil o conhece bem, especialmente pelos programas dos quais, por anos, participou na Globo News, e diversas passagens por outros meios de comunicação. E foi até por isso, por sua identificação com o público convidado por Luiz Carlos Rocha, que o auditório recém-inaugurado daquela banca recebeu-o como “um velho amigo”, como observou à coluna um advogado constitucionalista que lá esteve. Foi na noite de segunda, 31.
Franklin não perdeu tempo, não alimentou perguntas daquelas intermináveis, nem diálogos paralelos entre os presentes. Direto, focado no seu objetivo, sem titubear, com pleno “domínio do fato”, o ex-comentarista da Globo News e ex-militante político foi desvelando motivos, personagens e situações com que os brasileiros foram manifestando suas posições críticas – e, portanto, políticas – ao longo do século 20.
AS REPÚBLICAS
Passou pelas repúblicas Velha e a Nova, com a maior desenvoltura, para oferecer uma síntese do seu livro “Quem inventou o Brasil? ”, que lançaria ao fim de uma hora e meia de conferência, e depois ainda de partilhar de jantar oferecido por Rocha a ele e convidados.
O livro é uma obra de referência. Portanto, não procura alta vendagem, nem tiragem. Mas é imprescindível para quem, na academia e ou fora dela, quer compreender momentos de nossa história pelas marchinhas, sambas, bayãos, fandangos.
São 3 volumes, um milhar e tanto de páginas. Contêm o resumo de insistentes pesquisas que Franklin foi desenvolvendo, e partir de 1997, em busca de registrar – com uma certa ordem cronológica – a opinião política dos brasileiros em forma de música. Nisso foi de enorme felicidade. Colheu os frutos de pesquisa paciente – é o que se infere dos resultados -, indo, por vezes, até momentos do século 19. Revela, por exemplo, músicas – modinhas – que os brasileiros críticos a dom João VI, transformavam em “boutades” contra a Sua Majestade. Eram alfinetadas contra títulos lançados por dom João e que, segundo as letras, iriam encher as burras de Portugal, exaurindo a gente brasileira.
O RETRAO DO VELHO
Houve momentos salientes – para mim – da fala em que o jornalista tentou sintetizar 18 anos de pesquisa, que, por sua vez, englobou 101 anos de história. São músicas que ora podem elogiar políticos e política, mas que no geral são demolidoras dos poderosos. Com humor, por vezes até modificando a história. Tal como faz aquela de Lamartine, que fala de “Seu Cabral”, que descobriu “o Brasil em 21 de abril”.
Moderado, considerou o benefício da dúvida e da compreensão com os que “flertaram com a ditadura militar”. Nesse caso, lembrou Wilson Simonal, a quem apontou como alguém imbuído de espírito de defesa dos negros. Disse que o cantor, acusado de colaborar com o DOPS, fez, no entanto, uma canção exaltando Martin Luther King e sua luta, “muito antes de ele ser famoso”.
GUERRA DO CONTESTADO
Houve também contribuições de Franklin sobre a Guerra do Contestado, quando ele apresentou um fandango que se referia àquela guerra de cunho territorial-messiânica (nesse ponto houve debates paralelos na plateia).
Impossível destacar pontos salientes. Para mim, falaram muito – porque me remeteram à minha infância – as músicas “O Retrato do Velho” e “Marmiteiro”, as duas profundamente ligadas a Getúlio e a importância da mensagem social do presidente-ditador.
Eu vivi sob o espírito getulista em casa: meu pai foi revolucionário de 1930 e minha mãe, uma leitora inveterada, foi uma apaixonada por Getúlio e sua doutrina social.
Enfim, obrigado Rocha.
E obrigado também por ter revisto gente que sempre fez política em Curitiba, como Tânia Galvão, Vitório Sorotiuk, Ângelo Vanhoni, Marcelo Jugend, o ex-secretário de Segurança Delazari. E acadêmicos do porte de Clèmerson Clève, dentre outros.
