
O espírito do cônsul de Sua Majestade a Rainha da Inglaterra permanece intacto nele: não consigo, por exemplo, que me informe de que país o Príncipe Philip vinha quando, nos anos 1990, pousou seu jato (ele mesmo pilotando) no Aeroporto Afonso Pena, na Grande Curitiba. Só me diz que ele “estava em missão oficial” no continente. Eu, por dever de ofício, até sou capaz de apostar que se localizava no Cone Sul do continente. Faço naturais conjecturas envolvendo Argentina e Chile. Só conjecturas.
Peter Ter Poorten revela, com alegria, isso sim, o momento em que o príncipe consorte da Coroa inglesa o convidou para dar uma volta pelo aeroporto e bater um papo: “Let’s walk”, foi o convite-ordem, bem-vindo e irrecusável do príncipe que, na uma hora e tanto em que durou o encontro privilegiado, Philip foi mostrando uma enorme curiosidade sobre o Paraná. Mostrou igualmente alguma familiaridade com aspectos da história do Estado, como a imigração que tivemos de europeus a partir do século 19, e, na ponta da língua, expôs um resumo do currículo do cônsul da Inglaterra que o recebia, Peter Ter Poorten.
O fato de ser um australiano representando a Coroa britânica no Paraná foi um dado que a alteza frisou, até como quem aplaudia a exceção. No final do encontro privilegiado e inesquecível para o hoje ex-cônsul, não restaram relatos publicáveis ou que possa declinar em voz alta, muito embora, garanta: “Não houve nenhuma conversa especial”. Versão diplomática, “Of course”, digo cá comigo.
2 – RAINHA ELIZABETH II E LADY DI

As lembranças do por dezenas de anos cônsul britânico no Paraná, Peter Ter Poorten, não se circunscrevem a encontros com a realeza britânica, embora recorde, com desenvoltura, outro, tão ou mais importante, que ele e Ingrid, a mulher, tiveram com a solene rainha Elizabeth II, no Palácio de Buckingham. Não foi numa audiência especial, na verdade, mas o casal foi escolhido – juntamente com poucas outras personalidades presentes na sala do trono – para breve conversação com a rainha. “Inesquecível” é a expressão-resumo que ele e Ingrid pronunciam ao mesmo tempo sobre o privilégio que tiveram.
Ela, bem mais loquaz do que Peter, uma germano-brasileira (tem dupla nacionalidade) natural de Blumenau, apressa-se a registrar: “E tem aquela vez em que tive a Princesa Diana ao meu lado, por um dia inteiro, em Foz do Iguaçu”. Foi a escort e intérprete da icônica Diana, o tempo todo, e tendo como seguranças homens egressos da Scotland Yard, aqueles que nada falam e parecem enxergar perigos a cada centímetro de chão.
Poder-se-ia esperar algum tipo de revelação surpreendente a partir da convivência de dois dias com a mulher cuja vida emocionou o mundo. Mas Ingrid não fala nada que possa cheirar a indiscrição, nenhum gossip, nenhuma observação que poderia até ser registrada sem criar embaraços.
Sequer um fio de informações, além das oficiais, nada transpira da boca de Ingrid. A impressão que sobra é que Ingrid até fica “se mordendo”, mas não diz nada, nem diria, mesmo que sob tortura. E olhe que ela é dona de memória fotográfica. Como exemplo, posso dizer que ela “sabe tudo”, nas minúcias, das histórias da sociedade curitibana do século 20 e parte deste. Guarda casos, cenas, figuras humanas e situações preciosas de forma rara.
A especial atenção de Ingrid volta-se à memória da sociedade curitibana naquela parte de homens e mulheres mais cultos e refinados, o universo de que mais de perto têm vivido no Paraná. Pois esse é o universo que ela e Peter mais frequentaram nas últimas três décadas e do qual guardam momentos únicos. Não têm o olhar de europeus diante de cenas subtropicais ou temperadas. O olhar mesmo é de quem é de parece um detetive de costumes, de quem apreende etnografias com facilidade de detalhes. Nada lhes surpreende aqui e alhures.
3 – PEQUENO MUNDO

Não se pode dizer que Peter viva o chamado “ócio com dignidade”, pois, mesmo aos 70, continua a trabalhar, agora como consultor na área de relações comerciais internacionais. E com tempo para se dedicar um pouco à Cultura Inglesa de Curitiba, da qual é vice-presidente e que presidiu anos atrás. Para quem foi um globe-trotter desde jovem, expressão bem ajustada à sua biografia, Peter Ter Poorten hoje é um cidadão que faz de Curitiba centro de seu universo.
Concede-se, com prazer, tempo para digressões, embora sem ser saudosista. Fala e aborda os passos de sua vida rica em viagens, mudanças, experiências profissionais e comunicação poliglota, tudo dentro das molduras de hoje. É o homem da música erudita, dos esportes, dos iates, do teatro clássico e moderno, da música identificadora de povos e costumes variados. Dizer que é cidadão do mundo, parece-me desnecessário.
O primeiro contato com Peter já revelará essa realidade por inteiro, a partir da intimidade e naturalidade com que ele irá assinalando datas, locais, situações, idiomas, regimes políticos, curiosidades às vezes insuspeitadas de países e povos. O senso de humor é britânico, Peter não deixa por menos. Até quando fala de suas raízes holandesas e australianas (britânicas também), “lamenta” não ter em sua árvore traços de ascendência nobre. Mas, para compensar, vai a fundo no papel exercido pelos Ter Porten na vida da Holanda: sua genealogia foi traçada até 1349, e só não seguiu pelos séculos anteriores por que os custos de investigação histórica seriam muito altos. “Infelizmente, sem nenhum príncipe ou monarca! ”
(risos).
Dizem os que o conhecem bem que ele nunca perdeu esse ar de quem viveu sempre à grande, marcado pelo fino trato, rápido discernimento de um mundo com que, cedo, o levou a conviver com diversas facetas do ser humano. De nobres – como os reis da Bélgica, que conheceu -, a homens e mulheres da aristocracia internacional, milionários, plebeus, astros de cinema, jogadores de tênis e esportistas de múltiplas performances.
A formação em Economia pela Universidade de Edimburgo, Escócia, e um ouvido atento aos rumores dos mercados, das bolsas e das informações circulantes no mundo dos que decidem a Economia, deram a Peter posições diferenciadas no Brasil especialmente. Ajudou a Inglaterra a fechar negócios com o Brasil, ajudou o Paraná a expor-se em mercados internacionais, sobretudo, fez de sua vida no Brasil o que melhor saber fazer: foi – e é – um gentleman que estabelece pontes entre povos. Pontes seguras.
(trechos do perfil de Peter Ter Poorten, no volume 7 de VOZES DO PARANÁ, Retratos de Paranaenses, livro a ser lançado em 10 de setembro, a partir das 19 horas, na EBS Business School, em Curitiba)
