
No sábado, 11, amigos me telefonaram cedo: “Jayme Guelmann morreu…”.
O meu susto foi grande: Jayme e Judy sempre foram meus bons amigos, estiveram em vários dos lançamentos do meu livro “Vozes do Paraná”. Eu me relacionava otimamente com Guelmann desde o começo dos 1970, quando fomos escolhidos – ao lado de outros curitibanos preocupados com a vida cultural da cidade – para compor o primeiro Conselho Consultivo da Fundação Cultural de Curitiba pelo prefeito Jaime Lerner.
Na última quinta-feira, dia 9, falei (não podia imaginar que nos estávamos despedindo) com ele e Judy – a grande paixão de sua vida – pelo telefone. O assunto foi a presença de Jayme em Vozes do Paraná, Retratos de Paranaenses 7, que lançarei dia 10 de setembro na EBS Business School (Rua Eng. Rebouças, 2176). E do qual ele é personagem.
Que dizer, além de que o Paraná perdeu um médico e professor, cirurgião ginecológico de enorme currículo? O Paraná perdeu especialmente um cavalheiro, um homem culto, cuja contribuição à vida da Curitiba inteligente e musicalmente refinada não encontra quem o supere. Leia:
2 – UM GENTLEMAN
“Refinado, aristocrático, Jayme vem de uma família de grande significação na vida de Curitiba, a Guelmann.
Na capital do Paraná, seu avô Salomão, um filantropo e empreendedor inigualável, um homem inicialmente muito pobre, vindo da Rússia via Argentina e Rio Grande do Sul, ergueu um império moveleiro no início do século 20. A Indústria de Móveis Guelmann – ao lado de Móveis Cimo – ganhou mercados nacionais, impondo-se.
Consumidor inveterado de música clássica, Jayme Guelmann é nome associado àqueles que, de fato, garantiram a manutenção de grandes sociedades musicais em Curitiba, como a SCABI.
Outro traço de sua personalidade é a capacidade com que sempre transitou na chamada sociedade abrangente: judeu, passou dos 10 aos 15 anos num colégio católico, como interno. Lá foi amplamente apoiado pelos religiosos maristas, faz questão de registrar. E sem dificuldades, e sem perder sua identidade judaica, assiste a missas com a paixão de sua vida, a decoradora Judy Guelmann.
3 – NA REVISITA
Sentado à beira da piscina, numa manhã de sábado, 28 de março de 2015, Jayme Benjamin Guelmann faz uma bela figura humana: esbelto, ágil aos 83 anos, passos firmes, levanta-se de pronto para me receber. Passa a deambular comigo e sua Judy pelo enorme espaço da propriedade na Rua Paulo Gorski – “meio alqueire de área, uns 300 metros quadrados de construção”, explica, respondendo à minha bateria de indagações.
Afinal, tive que refazer meu “arquivo”, pois a última vez que estive lá foi há 20 anos. O cenário cinematográfico da mansão fica numa zona intermediária, entre Mossunguê (que os “modernos” resolveram apelidar de Ecoville, capitulando ao mercado imobiliário) e Campo Comprido. Eu prefiro considerá-lo situado no território compreendido entre Campo Comprido-Mossunguê…”
4 – A PERMANÊNCIA
E noutro trecho do perfil de Guelmann registro:
“Dizer que me surpreendi na revisita que fiz seria faltar com a verdade.
O reencontro me devolve àquele território mágico que me impressionara tantos anos passados. O espaço exterior impõe-se facilmente. É tomado por harmoniosas espécies da flora típica deste Planalto. Foram plantadas por Jayme, que manteve íntegros os pinheiros araucária, Angustifólia brasiliense, que lá existiam quando comprou a área, no começo dos anos 1960.
Meu olhar de visitante concluirá que isso tudo é parte de uma realidade inseparável, o universo íntimo de Guelmann e Judy. A impressão que dá é de que estou num relicário superdimensionado. Nada está fora do lugar, nada destoa do todo ao derredor.
“Isso aqui era interior, no começo de 1960. O imposto que eu pagava era o Territorial Rural”, revela Jayme, começando a esboçar em alguns traços da Curitiba de dias distantes.
Judy é uma decoradora clássica. “Mas ainda não devidamente valorizada como ela merece”, sentencia o anfitrião, enquanto visito aquele pedaço de Éden a salvo da balbúrdia urbana das proximidades. O olhar, a técnica e a sensibilidade de Judy marcam todo o espaço, incluindo alguns bons momentos do paisagismo, é a conclusão que vou reafirmando a mim mesmo. ”
5 – COM OS MARISTAS
Noutro trecho de nossa entrevista, Jayme Guelmann recorda a experiência que considerou importante em sua vida de adolescente: os cinco anos em que foi aluno do Colégio Marista Paranaense, como interno. Nunca sentiu qualquer discriminação, elogia os irmãos maristas que o dispensavam das aulas para ir para casa, nas grandes festas do calendário judaico.
No seu inventário afetivo, Jayme Guelmann lamentava não mais ver na cidade movimentos como a SCABi e a Pró-Música, de que fazia parte, garantidores de música clássica de qualidade em Curitiba. Ele, disse, fazia como tantos outros cidadãos, vendia rifas, angariava recursos para trazer grandes nomes da música clássica à cidade.
E mais adiante digo: “O discreto o sotaque de Jayme Guelmann me lembra levemente alguém de origem alemã próxima. No entanto, seus ancestrais vieram da Rússia. Talvez falassem yiddish em casa, penso cá comigo. Na verdade – descubro depois – os Guelmann falavam pouco nessa língua que parece às vésperas do esquecimento, mas tão valiosa foi para a herança cultural europeia nos séculos 19 e 20.”
