segunda-feira, 23 fevereiro, 2026
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De como Curitiba ganha com João Almino e Bia Wouk

João Almino; Bia Wouk
João Almino; Bia Wouk

Muitas vezes somos negligentes em atender os que nos são muito queridos e próximos. É isso o que está acontecendo comigo: muito contente com a mudança do escritor João Almino e Bia Wouk para Curitiba (embora ele vá ficar a maior parte do mês em Brasília), amigos de anos, não os tenho visto como gostaria.

A tecnologia dos e-mails, no entanto, nos mantém em contato, embora ele se hospede temporariamente vizinho a mim, no apartamento de Antonio Felipe Wouk (personagem de Vozes do Paraná 6), irmão de Bia.

O casal está vivendo a “aventura” de mais uma mudança. Está “on the road” há pelo menos 35 anos. Beirute, Paris, México, San Francisco, Los Angeles, Lisboa, Nova York, Madri…

Preparar o apartamento que mantinham em Curitiba há anos, está sendo um sacrifício e bálsamo. João e Bia estão envolvidos profundamente na arrumação da casa, em acomodar uma biblioteca de 5 mil volumes, e acertar cada espaço da pinacoteca de Bia. As mudanças de intelectuais não contêm menos “trens” do que a de simples mortais. Mas há o consolo: Bia em tudo dá graças ao amigo (in memoriam) Julio Pechmann, que, com a maestria que o definia, fez o planejamento de cada centímetro do endereço.

2 – BOMBAS NO JARDIM

O livro “Enigmas da Primavera”
O livro “Enigmas da Primavera”

Eu me lembro do primeiro posto diplomático de João – hoje ele é embaixador na “carrière”, e já cumpriu todo um amplo circuito desejado por qualquer diplomata, servindo no chamado “Elizabeth Arden”.

Antes viveram, ele e Bia, dias “terribilis”, na Beirute assolada por uma guerra civil que ameaçou destruir aquela joia do Oriente, uma pérola rara, então fortemente marcado pela cultura Ocidental e a tradição religiosa Maronita (também com traços Melquitas). Era a “Suíça do Oriente”. Era.

Naqueles dias – final dos 1970, começo dos 80 -, as notícias do casal me chegavam por cartas de Bia, com relatos impressionantes de um dia a dia incerto, preenchido por mortes em bombardeios, as guerrilhas urbanas, bombas caindo no jardim da casa, o caos urbano, as misérias de uma guerra fratricida gerada pelos grupos em confronto.

3 – PROVA DE FOGO

O casal vivia o perigo crescente do dia a dia numa Beirute então convertida num dos locais mais perigosos para se viver em todo mundo.

O jovem primeiro secretário de então fazia ali seu grande aprendizado na carreira, credenciando-se para ocupar, depois, postos que nada tinham a ver com a sarça ardente do Líbano daqueles dias.

Mas João, esclareço, já era um intelectual diferenciado, lançando, poucos anos depois, um livro seminal sobre os partidos políticos e a política brasileira, “Democratas Autoritários”, editado pela Brasiliense. E Bia tinha um sólido portfólio artístico no Brasil e exporia, depois, em cidades dos States e Europa a arte que fez deslanchar junto com o seu amigo-irmão Carlos Eduardo Zimmermann. Eles formavam, com Pechmann, um trio diferenciado por uma sólida fraternidade que os unia, e pela capacidade criadora no plano artístico.

4 – O “ELIZABETH ARDEN”

Tenho para comigo que foi o espírito indomável de Bia Wouk, e não menos resistente de João, que credenciou o casal a viver, depois, os melhores roteiros da carreira em postos na Europa e Estados Unidos.

João, nesses anos todos, foi se impondo como escritor de expressão nacional. Seu último romance, lançado há menos de 2 meses, é “Enigmas da Primavera”.

Tenho para comigo que a grande marca de João Almino é a de ser o romancista de Brasília. Seus livros que têm a capital como centro de tramas caracterizam o que chamo de “documentação ficcional” (assim denomino, certo ou não, obras de ficção capazes de serem fotografias também da História).

5 – “OBRA DE PESO”

Será que Curitiba que pensa, produz literatura, desenvolve uma sólida vida acadêmica e gera artes plásticas já se apercebeu da importância dessa mudança de Bia Wouk e João Almino? Bia está de volta ao lar. João ficará mais em Brasília, onde dirigirá uma fundação do Itamaraty que se encarrega dos convênios de cooperação internacional do Brasil com outras nações. Posto à altura da importância de João.

Em tempos de Google e Wikipédia, facilitadores/limitadores da vida moderna, e como não sou crítico de literatura, restrinjo-me a sugerir que se leia “Enigmas da Primavera”, o mais recente livro de João. Manuel Costa Pinto da Folha de São Paulo, por exemplo, considera o livro “a primeira obra de peso da literatura brasileira a trazer para as páginas da ficção(e da vivência subjetiva) os movimentos políticos dos últimos anos”

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