
A identidade natal aparece nas primeiras sílabas. Leila conserva o sotaque carioca com que deambulou desde o nascimento, entre o Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Nova York. Mais do que o falar “carioquês”, seu linguajar trai suas raízes, que são as de certa elite cultural do Rio. E ao mesmo tempo me parece muito indicador das meninas bem-nascidas dos anos 1950 e 60, boa parte delas desabrochadas à sombra dos tradicionais colégios católicos de outrora, como o Nossa Senhora de Sion.
O charme com que se expressa a artista – insisto – está no som agradável com o qual ela vai despejando seus conceitos de vida e arte; igualmente identifica-se numa certa faceirice com o linguajar carregado. No caso dela, permanece agradável cartão de visita dessa artista plástica que gente do porte de Ennio Marques Ferreira coloca no panteão dos grandes artistas do Paraná. Para ele, “Leila é insuperável desenhista”.
O marido, Jaime Lechinski, percebe-se com nitidez, é o norte na vida da artista. Com ele – jornalista, precioso legado de uma mídia impressa vigorosa dos anos 1970 e 80, que foi secretário de Comunicação de Jaime Lerner por dezenas de anos – Leila foi mergulhando no texto. Do texto para os traços, gerou-se uma simbiose só de alegrias.
2 – INFLUÊNCIAS, DE VELLOSO A LEMINSKI
O projeto de um dia retornar ao Sion, para lecionar artes visuais naquele espaço onde a artista começou a desabrochar, não deu certo. Pois mal entrara na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, foi atraída por realidades “práticas”, como a Escola de Artes do Parque Lage (RJ) – um vigoroso e exigente centro de criatividade – e posteriormente a breve, mas influente, vivência de estudos em Nova York, onde seria definitivamente inoculada pela visão de profissionalizar-se e traduzir em óleos e desenhos os seus recados.
E aí, em seguida, começaram as deambulações e as grandes influências que foram ajudando a moldar a artista. Nomes como Fernando Velloso, Rogério Dias, Fernando Calderari, Ana Letícia, Delamônica… Ela não tem receio de homenagear aqueles que lhe foram seus primeiros apoios e influências: para Adalice Araújo, a grande historiadora da arte visual do Paraná, morta em 2012, uma definição: “foi minha protetora”. Paulo Leminski e Alice Ruiz são igualmente essenciais partes desse seu inventário afetivo-artístico.
Deles teve os primeiros “empurrões”, recorda.
3 – PELA PROFISSIONALIZAÇÃO DA ARTE
E como que fazendo uma síntese de seu inventário artístico, Leila Pugnaloni registra definições que soam fortes e verazes: sobre o embate entre as visões que os artistas têm daquilo que fazem, Leila se mantém coerente com o que defendia no passado.
“Alguns artistas achavam que valia mais o conceito do que a profissionalização, a rebeldia do que a rotina de atelier. Com o tempo, fica claro o que as pessoas precisam e cada um vai em busca do que acredita. Quando jovem, eu tentava catalisar e introduzir uma ideia, alertar que não dá para brincar: ou a gente assume um papel profissional, ou vai dançar lá na frente”, sentencia.
(Do volume 7 do meu livro Vozes do Paraná, a ser lançado em 10 de setembro)
