quarta-feira, 22 julho, 2026
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MERGULHO NA HISTÓRIA: ANO 1889, UMA FANTÁSTICA AVENTURA EM GUARAQUEÇABA

A fantástica história do navegador americano que, um dia, foi julgado e considerado inocente pela justiça em Antonina

Joshua Slocum

(Colaboração – Eloi Zanetti)

Poucos paranaenses conhecem a história de Joshua Slocum (1844/1909), o navegador norte-americano que fez a primeira volta ao mundo em solitário. Joshua saiu de casa aos 16 anos, ingressou na marinha e navegou por todos os mares do mundo. Foi capitão de vários navios ingleses transportando carvão e grãos entre a Inglaterra e São Francisco nos Estados Unidos – época da corrida do ouro. Fez também durante 13 anos as rotas mercantes entre São Francisco, China, Austrália e Japão.

Em 1886 assumiu o comando de um navio chamado Aquidneck (326 toneladas e dez marinheiros) e começou uma empreitada que acabou por trazê-lo ao Brasil. Com este navio percorreu as costas da Rússia, Alasca, do Círculo Ártico e das ilhas Pacífico Sul. Parou por algum tempo nas Filipinas onde construiu seu primeiro barco. Também passou pela ilha de Krakatoa poucos dias antes da explosão vulcânica que abalou o mundo. Uma característica desse navegador é que ele sempre viajava com a família – mulher e filhos. Em 1900 publicou um clássico da literatura náutica, Sailing Alone Around The World – livro admirado por escritores do porte de Jack London e Mark Twain.

Joshua Slocum e família

PIRATAS EM ANTONINA

Em 1886, aos 42 anos, Slocum começou a fazer a rota Nova York/Montevidéu/Uruguai e, ao mesmo tempo, aproveitava para fazer cabotagem em alguns portos do Brasil, do Uruguai e da Argentina. Parava sempre em Paranaguá e Antonina onde, certa vez, seu navio foi atacado por piratas.

Para se defender Slocum acabou matando um dos invasores. Na própria cidade foi julgado e absolvido.

Antonio Baptista Rovedo

ANTONINA, “SUA LINDA”

Um homem que navegou pelo mundo inteiro dá a sua impressão sobre a nossa Antonina: – “A paisagem montanhosa vista do Porto de Antonina é de cair o queixo; nunca vi lugar no mundo verdadeiramente mais grandioso e aprazível. O clima também é perfeito e saudável”. Só para registrar, outro aventureiro, o explorador inglês Thomaz Bigg-Witter conta que um viajante inglês de nome Mercer, apaixonado pela mesma paisagem descrita por Slocum, certo dia, quando seu navio fazia estadia em Antonina, fascinado pela paisagem da Serra do Mar, abandonou o barco “só para ver o que tinha do outro lado”. Este marinheiro acabou parando em Tibagi.

Antonina

O NAUFRÁGIO DO AQUIDNECK

Em 1887, ao passar pelos baixios da baía dos Pinheiros, seu navio foi parcialmente destruído por um temporal. Seu relato: “Passamos o Natal de 1887 em Guaraqueçaba e saímos com o brigue carregado e, quando avançávamos através da baía, as correntes e o vento pegaram-no em cheio perto de um perigoso baixio de areia. O barco virou e encalhou. Lançamos a âncora para prendê-lo, mas ela não se agarrou nas areias traiçoeiras.

O barco foi arrastado e parou de lado, exposto às ondas de um mar muito grosso que por três dias varreu-o da proa à popa espatifando seu casco …”

Slocum recolheu o que sobrou do navio, rebocando-o para um estaleiro em Guaraqueçaba. Vendeu algumas peças para pagar a tripulação e com o pouco que restou passou imediatamente a construir outro barco – menor com 35 pés de comprimento e um só mastro de vela. Recebeu ajuda do seu filho Victor e do italiano Antonio Baptista Rovedo, pertencente a uma das 13 famílias de imigrantes que vieram de Locando – fronteira entre Suíça e Itália para se estabelecer em Guaraqueçaba. Como, na época, a Floresta Atlântica era pródiga em madeira de lei Slocum conta: “nossas ferramentas eram um machado, um enxó, dois serrotes, um arco de pua, algumas brocas e parafusos; as madeiras que faltavam pegávamos da mata – para o casco pegamos o pau-ferro, para o costado, o cedro vermelho e os grampos de madeira recurvada foram de goiabeiras e massarandubas.”

O litoral do Paraná já abrigou estaleiros famosos e competentes Antonina, Paranaguá e Guaraqueçaba, no tempo do Império, abrigaram estaleiros famosos que construíram unidades até para a nossa Marinha de Guerra – o brigue Dom Pedro II foi um deles.

O barco Liberdade

O LIBERDADE É BATIZADO

Como o barco ficou pronto no mesmo dia da proclamação da Lei Áurea (13 de maio de 1888), recebeu o nome de Liberdade, assim mesmo em português.

O barco tinha 35 pés de comprimento, por 7,5 pés de boca (largura). Em 24 de junho de 1888 o Liberdade, tendo a bordo Slocum a mulher e os dois filhos, zarpou de Paranaguá para Washington fazendo um percurso de 5510 milhas em 53 dias de navegação (seis meses com as paradas). Chegou ao destino final em 27 de dezembro e, por onde ia passando, o pequeno barco e sua história cativava as pessoas. Ao final o Liberdade foi entregue ao museu Smith-Sonian Institution onde ficou exposto por muitos anos. Com a experiência adquirida ao construir e navegar o Liberdade, ele montou outro barco, o pequeno veleiro Spray e com ele fez a primeira volta ao mundo em solitário em 1906. Slocum é considerado um dos heróis da Marinha Americana.

A volta ao mundo de Slocum

AS AVENTURAS CONTINUAM

Joshua Slocum voltou mais uma vez ao Brasil para trazer o navio torpedeiro Destroyer a fim de ajudar os legalistas a enfrentarem uma rebelião naval. De 1905 até 1909 navegou pelas Índias Ocidentais e em 1909 saiu para uma nova viagem: subir o Orenoco até o Rio Negro e o Amazonas. Após a partida em 14 de novembro nada mais se soube dele.

Desapareceu no oceano, aos 65 anos de idade, sem deixar vestígio.

  • Franco Rovedo, descendente do carpinteiro que ajudou Slocum em Guaraqueçaba é escritor, autor de dois romances: A Flor da Pele e A luz das Velas. Fascinado por histórias marítimas prepara um romance sobre a vida deste personagem tão insólito e ao mesmo tempo tão desconhecido da nossa gente.
  • O cineasta paranaense Homero Camargo e o diretor de cinema Neville de Almeida há tempos planejaram um filme (made in Hollywood) com Roberto De Niro no papel de Slocum e Derpardieu no papel de outro personagem da história do nosso litoral – o pintor suíço Guilherme Willian Michaud que inclusive chegou a pintar várias telas sobre o navio encalhado.

Infelizmente o projeto não saiu do papel.

 

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PARANÁ COM POUCOS NARRADORES

 

Eloi Zanetti nos recorda esta história e diz sentir falta de o nosso Estado ter poucos narradores – escritores, cronistas e roteiristas – sobre as centenas de histórias que aconteceram aqui. Tivemos várias batalhas e conflitos, colônias experimentais anarquistas, a colonização do Norte do Paraná, um pouco das Reduções Jesuíticas e toda a saga dos imigrantes. Contamos nos dedos os escritores que se interessaram por escrever nossas aventuras: Domingos Pelegrini, Miguel Sanches Neto, Luiz Manfredini, Fábio Campana foram alguns que romancearam nossos fatos, mas falta-nos forte expressão nacional.

Eloi já chegou a propor à várias autoridades culturais e a alguns empresários a criação de um fundo que bancasse a pesquisa e a escrita de livros e roteiros sobre nossa história. Funcionaria assim: o interessado apresenta uma sinopse do seu tema e determina o tempo que necessitará para escrevê-lo. Uma banca examinaria a proposta para aprovação ou não.

Se aprovada a ideia, o escritor/roteirista iria apresentando seu trabalho por partes e recebendo uma bolsa auxílio na mesma medida. Os roteiros ficariam em um estoque de roteiros para que algum diretor de cinema se interessasse e os livros seriam ofertados às editoras. (AMGH)

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